12-Jul-2016 15:10 - Atualizado em 12/07/2016 16:16

Nutrição: Dieta na medida CERTA

artigo, editor,
Crédito: Modesto Wielewicki
A certeza de que o cavalo está recebendo uma dieta corretamente balanceada é um dos mais importantes aspectos do manejo animal. Isso é verdade tanto com relação aos animais em crescimento quanto aos desportivos, que tem diferentes graus de exigência física e de necessidades alimentares.

No que se refere à suplementação mineral, os macro minerais Cálcio (Ca) e Fósforo (P) são particularmente importantes, uma vez que são intrinsicamente ligados e devem manter um balanço ideal na dieta animal. Tanto a falta, quanto o excesso de qualquer um destes minerais podem levar a problemas.

Nos mamíferos, o cálcio ajuda a manter normal a função nervosa e cerebral e tem importante papel na contração dos músculos, intestinos e coração, além de agir na coagulação sanguínea e no metabolismo enzimático e hormonal. Controla ainda a acidez do sangue. O fósforo também ajuda a regular a contração muscular e cardíaca, assim como é importante para a manutenção da integridade celular e utilização da glicose.

Em um cavalo adulto, 99% do cálcio está fixado nos ossos e o total deste mineral no corpo do animal é de sete quilos. De fósforo são quatro quilos e 80% está fixado nos ossos.

No animal em crescimento, o cálcio e o fósforo são os minerais que têm o maior impacto. Se ambos não estiverem presentes em quantidades suficientes ou estiverem em proporções erradas, o potro não terá um crescimento correto e sua estrutura óssea e articular será permanentemente arruinada.

Além da importância de cada mineral em separado, existe uma sinergia entre eles. Os dois minerais trabalham juntos no metabolismo animal e é extremamente necessário que eles se mantenham em uma proporção correta no corpo do animal e na dieta oferecida. A proporção ideal fica entre 2 a 1,5 de cálcio para 1 de fósforo (Ca:P). O mínimo aceitável, mas não ideal seria uma proporção Ca:P de 1:1. Jamais o fósforo pode estar em maior proporção que o cálcio. Em termos percentuais de matéria seca na ração, a dieta deve conter em média 0,15-1,5% de Cálcio e 0,15-0,6% de fósforo.

Dois outros minerais que tem papel muito significante no desenvolvimento dos ossos, tecido conjuntivo e das cartilagens são os dois micro minerais Zinco (Zn) e Cobre (Cu). Assim como o Ca e o P, estes minerais têm efeitos sinergéticos no organismo. O nível em que um está presente na dieta altera a taxa da absorção do outro. Apesar de vários trabalhos divergirem com relação às quantidades ideais de zinco e cobre necessárias no arraçoamento de potros jovens para estimular o crescimento ótimo, a recomendação diária usual para potros de 1 a 2 anos de idade é pelo menos de 10ppm de cobre e 40ppm de zinco.

Deficiências
Muitos animais com deficiência de cálcio ou fósforo apresentam sinais clínicos bastante sutis, uma vez que a maioria dos problemas causados é interna. Quando o nível sanguíneo destes minerais é baixo, o corpo retira dos próprios ossos a quantidade que precisa para usar nas funções corporais.

artigo, editor,
Crédito: Marcelo Mastrobuono
A deficiência crônica de cálcio é rara e é associada com desenvolvimento anormal do esqueleto nos potros em crescimento, manqueiras, ossos fracos, fraturas e queda de desempenho. Deficiência aguda também é rara e é associada a sinais neurológicos, tremores musculares, queda de motilidade intestinal e, em éguas prenhes, causa partos distócicos e retenção de placenta.

Já a deficiência de fósforo apresenta sinais clínicos mais óbvios, como fraqueza muscular e tremores. Adicionalmente, a falta de fósforo compromete a habilidade de regulação energética do animal, o que pode levar a altos níveis de glicose e ácidos graxos no sangue. Estes níveis podem ser confirmados através de exames sanguíneos.

Em animais em crescimento e éguas prenhes em final de gestação ou amamentando, deficiências e desequilíbrio nas proporções minerais podem causar danos importantes para a formação da estrutura esquelética do potrinho e desmineralizar a égua a níveis, muitas vezes, perigosos.

Toxicidade
A intoxicação por excesso de fósforo é mais comum que a por cálcio. Cavalos intoxicados por fósforo geralmente apresentam os mesmos sinais que animais com deficiência de cálcio. Isso se explica porque o fósforo em excesso se liga às moléculas de cálcio no intestino do animal, impedindo a absorção do último. Com isso, o corpo do animal tenta compensar a falta de cálcio retirando o mineral de seus próprios ossos, enfraquecendo o esqueleto.

Intoxicação por cálcio no equino é muito rara. O cavalo consegue tolerar bem proporções de até 6:1 de Ca:P, e uma vez que o animal receba fósforo em quantidade mínima suficiente na dieta, há pouco risco, mas se houver inversão na proporção, os problemas iniciam. 

artigo, editor,
Crédito: Paulo Henrique Baldini
Testes sanguíneos simples podem detectar a deficiência ou o excesso de Ca e P, portanto seu veterinário pode fazer uma pesquisa com facilidade para decidir se existe algum problema com seu animal.

Determinar quanto efetivamente de cálcio e fósforo estão presentes na dieta de seu cavalo não é difícil. Basta ter boa vontade e uma calculadora. É necessário proceder a uma análise bromatológica simples de alguns alimentos. Geralmente, se inicia com a análise do volumoso, o feno oferecido, ou se o animal estiver solto em pastagem, de amostras do pasto. A maioria das Universidades de Agronomia, Veterinária e Nutrição processam esse exame a um custo bem razoável. Com este resultado em mãos, basta calcular qual a proporção de volumoso e de concentrado na ração total de seu cavalo. Do concentrado é bem mais simples de obter a informação, uma vez que obrigatoriamente a percentagem dos minerais deve estar escrita no rótulo do saco de ração. Se a ração é não é comercial, pode-se proceder ao mesmo exame do feno nos diferentes ingredientes que forem utilizados no arraçoamento do animal. O importante aqui, além de obter o percentual ideal de cada mineral, é checar se a proporção correta entre os dois está sendo observada.

Os fenos de gramíneas (Tifton, Azevém, Vaquero, Coast-Cross etc) tendem a ser mais altos em cálcio do que em fósforo. O feno de Alfafa, por ser de leguminosa é extremamente alto em cálcio (3 a 4 vezes mais que o de gramíneas). A quantidade de cálcio presente nos fenos de gramíneas, por exemplo, não é suficiente para prover uma égua amamentando.

Aqui cabe um parêntese no tópico da análise do feno. Observando sua análise, você perceberá também que o seu nível de potássio será bastante alto (algo entre 1 a 2,5%). O feno suplementa todo o Potássio necessário que a maioria dos animais - mesmo os que estão em trabalho pesado - necessita. Apenas animais em competições muito fortes, situações muito estressantes ou condições muito altas de umidade e temperatura necessitam de efetivamente de suplementação com produtos eletrolíticos comerciais.

Já a maioria dos cereais, como aveia e cevada, assim como o milho e o farelo de soja – todos ingredientes básicos nas rações animais, tem o fósforo muito mais alto que o cálcio em sua composição. Interessantemente, a conhecida associação de concentrados e volumosos fenados que é utilizada na alimentação do cavalo estabulado a centenas de anos, geralmente possui a quantidade e proporção corretas de Ca e P para as necessidades de um cavalo adulto que não esteja sendo submetido a níveis muito altos de esforço físico. As rações comerciais em sua maioria já possuem as proporções de Ca e P corretas e calculadas para serem combinadas com pastagem ou fenos de gramíneas, mas é importante observar que se agregar à sua ração, porções de aveia em grão (muito P) ou feno de alfafa (muito Ca), o equilíbrio do seu arraçoamento num todo será alterado.

Portanto, muitas vezes, dependendo de que tipo de alimento, idade e em que proporção você arraçoa seu cavalo, é necessário corrigir o balanceamento da alimentação suplementando um ou o outro mineral.

Caso efetivamente seja necessário suplementar o cálcio – que é o que geralmente ocorre, geralmente para equinos este mineral é suplementado na forma de Carbonato de Cálcio ou Lactato de Cálcio, agregados em pó na ração diária. É importantíssimo saber que digestibilidade e a taxa de absorção dos minerais em geral pelo equino são bastante baixas. A taxa de absorção do cálcio é de apenas 40%, ou seja, para cada 100g administradas, apenas 40g são absorvidas pelo organismo do animal. Já o fósforo tem uma taxa de absorção de 70%. Isso ocorre porque o cálcio é absorvido apenas no Intestino delgado, enquanto que o fósforo é absorvido tanto no intestino delgado quanto no intestino grosso. Portanto, em animais que foram severamente acometidos de verminoses por longo tempo, uma vez que a maioria dos parasitas se localiza no intestino delgado, existe uma redução bastante significativa da absorção de cálcio nestes cavalos, porque os parasitas lesionam este segmento do intestino, que reduz sua capacidade de absorção de todos os nutrientes naquele local. Daí a importância do controle parasitário e vermifugação de seus animais.

As grandes companhias de nutrição animal estão trabalhando muito na busca de uma melhora da eficiência na absorção dos minerais em geral pelo organismo do cavalo. O processo que melhor funcionou atualmente é chamado de “quelação”. Um quelato é a união de um mineral com um aminoácido, formando uma cadeia bioquímica estável que tem uma eficiência de absorção de 300 a 500% superior do que a administração do mineral puro na ração. Infelizmente esse processo, que encarece bastante o custo final do produto comercial, funciona bem melhor para microminerais, como zinco e cobre do que para os macrominerais como cálcio e fósforo.

Como podemos notar, mesmo com as facilidades dos arraçoamentos industrializados já equilibrados e a grande disponibilidade de informação no que se refere à nutrição do cavalo, seja ele atleta, em crescimento ou em reprodução, ainda cabe ao proprietário do animal, em conjunto com seu veterinário ou zootecnista checar e conferir a qualidade e a quantidade dos alimentos e suplementos que seu cavalo está recebendo, para que ele chegue ao ápice de seu desenvolvimento e carreira desportiva sempre saudável.

Adriana Busato

Adriana Busato

é veterinária, professora adjunta de Equídeocultura na PUC-PR, Juíza da ABCCH, proprietária do Haras FB, onde cria Brasileiro de Hipismo e Amazona
e-mail: [email protected]

Deixe seu Recado