29-Jun-2020 13:21 - Atualizado em 29/06/2020 13:48
Entrevista

O Atleta e o Executivo

O cavaleiro de CCE Marcio Appel conta como concilia a carreia de empresário com o sonho de representar o Brasil como atleta olímpico

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O Atleta e o Executivo
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O administrador de empresas Marcio Appel, 39 anos, tem o cavalo no DNA, como ele mesmo define. Monta desde os seis anos, influenciado pela mãe e pela avó, que montou até os 84 anos e o levava para passear. Da infância traz o sonho de ser um cavaleiro olímpico, fato que se consumou em 2016, quando integrou o Time Brasil de Concurso Completo de Equitação (CCE) na Rio 2016. Agora, está de malas prontas para Tryon, na Carolina do Norte (EUA), onde irá integrar a equipe brasileira de CCE no World Equestrian Games (WEG). Será mais um grande passo de sua carreira.

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Entrevista publicada na edição 107 da Revista HorseFagner Almeida/Revista Horse
Para chegar até aqui, entretanto, teve de superar mais do que os obstáculos de pista. Diariamente, divide suas atividades entre os compromissos profissionais da empresa que dirige, com uma rigorosa rotina de treinamentos.

Nesta entrevista exclusiva à Revista Horse, Marcio Appel conta como foi sua trajetória da escolinha de equitação de Campos de Jordão até as pistas internacionais, conciliando as atividades de empresário e cavaleiro. Fala também de suas referências e do que o cavalo representa em sua vida. Confira!

Como começou sua ligação com os cavalos?
Vem no meu DNA. Minha família sempre foi apaixonada por cavalos; minha avó passeava a cavalo todos os dias até os seus 84 anos. Minha mãe era veterinária de formação, sempre gostou muito de cavalos e foi quem incentivou a mim e ao meu irmão para iniciarmos no hipismo logo cedo. Comecei a montar aos 6 anos de idade na Hípica Tarundú, em Campos do Jordão, e depois fui para a escolinha do Clube Hípico de Santo Amaro. Apesar dessa paixão pelos cavalos, não tínhamos nenhuma tradição dentro do hipismo e fomos evoluindo aos poucos nesse mundo maravilhoso.

Como chegou ao CCE?
Até 2012, eu competia apenas no salto e sempre considerei o CCE uma modalidade muito perigosa por causa dos acidentes que ouvia falar que ocorriam no cross country. Entretanto, durante as Olimpíadas de Londres 2012, estava assistindo ao CCE pela tevê, quando vi que a neta da rainha estava competindo pela equipe da Inglaterra e no momento me caiu uma ficha: se a neta da rainha estava competindo, não poderia ser uma modalidade tão perigosa assim. Naquele mesmo dia me deu um estalo e decidi que iria mudar de modalidade com o objetivo de tentar realizar o meu grande sonho de me tornar um atleta olímpico. Ressalto que fui em busca desse sonho ¨maluco¨ sem deixar de lado a minha atribulada rotina de trabalho na empresa e também as responsabilidades como pai de família, já que minha esposa estava grávida de nosso segundo filho.  

Quando decidiu ser um cavaleiro profissional?
Na verdade, não sou um cavaleiro profissional. Levo muito a sério, treino todos os dias, administro a empresa de minha família e tenho que conciliar o hipismo com uma agitada rotina de empresário.

Como é a sua rotina de treinamentos?
Treino todos os dias no Clube Hípico de Santo Amaro. Faço adestramento duas vezes por semana, salto uma ou duas vezes por semana e nos demais dias busco fazer exercícios para dar maior condicionamento físico para meus cavalos.

As provas de Cross são as mais difíceis?
As provas de cross são as mais emocionantes e desafiadoras, mas não posso dizer que são as mais difíceis. O maior desafio no CCE é conseguir fazer bem e as três modalidades (adestramento, salto e cross) e por isso é considerada uma modalidade completa.  Entretanto, lembro que para os iniciantes as provas de cross e salto iniciam com 40 centímetros de altura, então todos que montam podem experimentar.

Como faz para treinar em um grande centro urbano?
Tenho o privilégio de montar no Clube Hípico de Santo Amaro, que possui 14 alqueires dentro de um dos bairros mais populosos de São Paulo e lá tenho toda a infraestrutura para treinar para o CCE. Mas para quem monta em uma hípica menor, existem muitos obstáculos móveis que podem ser armados dentro do picadeiro e que ajudam muito no treinamento. Além disso nas provas mais baixas todos podem treinar o cross um dia antes das competições e isso ajuda bastante. O fator importante é tentar manter um bom condicionamento físico nos cavalos.

Quem foram suas referências no aprendizado e formação como cavaleiro?
Tive grandes referências no hipismo brasileiro e posso dizer que no salto minhas maiores foram os cavaleiros Vitor Alves Teixeira, Marcelo Blessman e Rafael Ramos. No CCE, o Marcio Carvalho Jorge, que sempre foi minha grande referência e a pessoa que mais me ajudou a evoluir no esporte.

“É fundamental os cavaleiros terem as noções básicas do adestramento, seja para qualquer modalidade equestre. A partir do momento que temos uma boa base de adestramento, o resto fica muito mais fácil”

Quais são os requisitos básicos para quem pretende praticar a modalidade?
Na minha opinião é fundamental os cavaleiros terem as noções básicas do adestramento, seja para o CCE, para o salto ou para qualquer modalidade equestre. A partir do momento que temos uma boa base de adestramento, o resto fica muito mais fácil.

Quais os maiores desafios que teve em sua carreira?
Foi justamente a mudança do salto para o CCE. Tive que sair da minha zona de conforto, buscar novos cavalos e entrar de cabeça em um mundo que não conhecia nada e nem ninguém. Apesar disso, só tenho a agradecer a todos que me receberam tão bem no CCE e me ajudaram desde o começo. Os cavaleiros são muito unidos dentro do CCE e isso é muito agregador.  

O chamado "hipismo rural" ainda é um bom caminho para iniciar uma carreira?
O hipismo rural já formou e continua formando muita gente boa no hipismo. Os cavaleiros do rural costumam ser muito competitivos e velozes. Quando iniciei no CCE, comecei a conhecer melhor a família Abhir (Associação Brasileira dos cavaleiros de Hipismo Rural) e fiquei impressionado com a entidade e com a importância deles dentro do hipismo brasileiro.  

Quais foram suas grandes conquistas?
Vice-campeão Brasileiro de CCE em 2015 e 2017, 7º Lugar por equipe nos Jogos Olímpicos Rio 2016, Campeão Paulista de CCE em 2016, Campeão do Poplar Place Horse Trials (USA) em 2016, Campeão Brasileiro de Adestramento em 2016 – Média II Medalha de Prata no evento teste Rio 2016, 88º do ranking Mundial na temporada 2015.

“É uma pena que nosso país não tenha maiores incentivos para o esporte, mas dentro do possível a Confederação e o COB ainda ajudam bastante

Qual a sensação de representar o Brasil em mais uma competição Internacional?
Não é fácil sairmos do Brasil, que não tem tanta tradição no esporte, para competirmos contra os melhores do mundo na Europa ou Estados Unidos. É sempre uma emoção muito grande representar as cores do Brasil em uma competição internacional.

Como foi participar de uma Olimpíada na terra natal, na Rio 2016?
Foi um sonho de vida sendo realizado, uma experiência única que jamais vou esquecer. A emoção de participar de uma Olimpíada já é algo grandioso e, sendo sediada em nosso país, foi algo ainda mais especial. Fui o primeiro cavaleiro do Brasil a entrar em pista entre todas as modalidades na Rio 2016 e a energia da torcida foi algo contagiante.

Quais foram os cavalos que marcaram a sua vida?
Já tive muitos cavalos em minha vida e posso dizer que todos foram importantes e ajudaram a construir os degraus que me trouxeram até aqui. Entre eles posso destacar o Bamboleo, que me levou das provas de 1.10m no salto até 1.50m. O Joffre, um cavalo fora de série e que meu deu o primeiro título de campeão paulista e brasileiro. O Shutterfly foi um cavalo que domei e que tive inúmeras conquistas. Foi com ele que comecei a praticar o CCE. Por último tem o Iberon Jmen, que foi o cavalo que me levou até os jogos olímpicos e agora vamos para o grande desafio de disputar um campeonato Mundial

“Atualmente, a qualidade de nossa criação não deixa nada a desejar para os grandes países da Europa, mas infelizmente nossa quantidade ainda é muito inferior”

Você atualmente monta um Brasileiro de Hipismo, o Iberon Jmen. Como avalia a produção nacional?
Estou vendo com bons olhos a evolução da criação nacional, especialmente a raça Brasileiro de Hipismo. Atualmente, a qualidade de nossa criação não deixa nada a desejar para os grandes países da Europa, mas infelizmente nossa quantidade ainda é muito inferior.

O hipismo no Brasil, de forma geral, ainda é muito restritivo. Podemos dizer que o CCE é ainda mais?
Não acho que o CCE seja mais restritivo do que outras modalidades equestres. Temos muitas opções para quem quer começar a praticar e é menos oneroso do que imaginam.

Como vê o fato de os brasileiros terem de praticamente bancar os custos da participação em uma competição como o WEG?
A CBH está conseguindo custear a maior parte das despesas de WEG, mas mesmo assim os cavaleiros ainda vão ter que arcar com parte das despesas. É uma pena que nosso país não tenha maiores incentivos para o esporte, mas dentro do possível a Confederação e o COB ainda ajudam bastante.

Quem considera os maiores adversários na modalidade atualmente?
As grandes potências do CCE Mundial são Inglaterra, Alemanha, França, Nova Zelândia e Estados Unidos. Todas essas equipes vão vir com chances de conquistar o título Mundial e seus cavaleiros vão brigar pelo ouro individual.

O Brasil tem chances de medalha?
A medalha ainda é difícil, mas estamos confiantes que podemos terminar entre os 6 primeiros colocados e garantir a vaga para os Jogos Olímpicos em 2020.

Quais as suas expectativas com relação aos Jogos Mundiais deste ano? 
Vou chegar nesse mundial muito mais maduro e experiente do que chequei nas Olimpíadas. Ainda não acredito que possa ficar entre os primeiros colocados, mas estou indo com o objetivo de terminar entre os 15 primeiros colocados.

“Os cavalos são a minha vida. Meus melhores amigos fiz por causa dos cavalos. As melhores viagens fiz por causa dos cavalos. Conheci minha esposa por causa dos cavalos. Os cavalos me fazem ser uma pessoa melhor e mais feliz!”

O que o cavalo representa hoje em sua vida?
Os cavalos são a minha vida. Meus melhores amigos fiz por causa dos cavalos. As melhores viagens fiz por causa dos cavalos. Conheci minha esposa por causa dos cavalos. Os cavalos me fazem ser uma pessoa melhor e mais feliz!

Mais alguma questão que gostaria de comentar?
Estou escrevendo um livro (Veja AQUI) e pretendo lançar até o início do ano que vem. Nele busco compartilhar um pouco do meu aprendizado como esportista e como empresário. Acredito que poucas pessoas puderam ter a oportunidade de vivenciar esses dois mundos de forma tão intensa. No livro tento mostrar os paralelos que existem entre esses dois mundos e as lições que aprendi em cada um deles. Acho que as pessoas vão gostar bastante.

Por Marcelo Mastrobuono/Fotos Fagner Almeida

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