31-Jul-2020 09:24 - Atualizado em 03/08/2020 17:30
Entrevista

O bem-estar da pecuária aos cavalos

O zootecnista Mateus Paranhos, da Unesp, fala dos avanços dessa ciência no Brasil e como a experiência da pecuária pode ajudar na discussão do tema nas atividades equestres

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O zootecnista Mateus José Rodrigues Paranhos da Costa, professor de Etologia e Bem-Estar Animal da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal (Unesp), é o que se pode chamar de um especialista na área de bem-estar animal. Há anos vem se dedicando ao estudo do tema e sua aplicação prática na pecuária brasileira, hoje já se adaptando às tecnologias avançadas de outras regiões do mundo.
Para ele, o Brasil avançou muito nos últimos anos e de uma forma muito mais interessante, porque isso ocorreu pela educação e sensibilização das pessoas, o que oferece uma maior probabilidade de mudanças duradouras. “Vejo o Brasil em um momento de mudanças concretas que estão acontecendo, independente da pressão legal e isso é muito positivo”, informa.
Nesta entrevista exclusiva à Horse, Paranhos fala sobre os conceitos de bem-estar animal e o que tem sido feito efetivamente nesta área. Também comenta a percepção que o mercado tem disso e como as iniciativas e experiências da pecuária podem ser aproveitadas no universo equestre. Confira!
Como se envolveu com o processo de bem-estar animal?
Isso é uma história ainda do curso de graduação, quando fui convidado por um professor da área de Biometeorologia para fazer alguns estudos sobre o comportamento animal. Após essa oportunidade, passei a me interessar pela área. Além disso, a relação do estudo do comportamento animal e o bem-estar animal é muito próxima. Isso me despertou o interesse de desenvolver ou, pelo menos, entender qual é a melhor forma de realizar rotinas de manejos com os animais para colocá-los em menos riscos de estresse.

Muito se fala sobre bem-estar animal, mas o que isso significa na prática?
Há duas formas de analisar esta pergunta: a primeira, a qual acho ser a mais presente nos discursos e palestras, é a relação entre o bem-estar animal e o desempenho às respostas produtivas. Trabalho essencialmente com animais de produção. Tem muita pesquisa mostrando que existe relação entre a boa qualidade de vida do animal e a capacidade dele de crescer, reproduzir ou produzir. Esta é a primeira relação prática. A segunda envolve aspectos étnicos, mas também do envolvimento nosso com os animais. As pessoas que gostam dos animais, mesmo quando os criam com finalidade produtiva, não se sentem bem vendo o animal sofrer, ou passando por situações que os coloquem em condições de estresse. Este incômodo deixa as pessoas desconfortáveis, incomodadas e isso também tem um efeito prático.

Esses pontos também interferem no desempenho físico dos cavalos?
Exatamente. Existem dados que mostram como isso interfere no desempenho dos animais em provas, corridas, salto, ou, até mesmo, no desempenho do cavalo nas fazendas. Ou seja, onde quer que eles sejam usados. O desempenho não é só de crescimento, mas também aquilo que se espera do animal. No caso do cavalo, na corrida, no salto, ao puxar uma carroça, por exemplo.

O envolvimento do Brasil na questão do bem-estar animal nasceu naturalmente ou tem pressão de instituições internacionais ou mesmo do mercado?
As pressões comerciais estão associadas aos interesses de negócios, nas importações. Essa pressão veio principalmente da Europa, que é o berço dessa área do bem-estar animal. A sociedade lá começou a se preocupar com isso ainda na década de 60 e houve muita pressão no governo e nas instituições, o que resultou em leis. Vale dizer que a União Europeia talvez seja hoje o conjunto de países com o maior número de leis do bem-estar animal. Essas leis passaram também a ser colocadas nas relações comerciais, ou seja, para exportar por lá você tem que seguir alguns dos critérios que adotam como mínimos. Mas acho que tem que se levar em conta que também existe uma pressão interna. A sociedade brasileira se mobiliza em torno do bem-estar animal desde o início do século XX. Existem relatos de campanhas em São Paulo, com a preocupação de animais de rua. Foi criada a sociedade mundial de proteção animal, que cuida muito dessa parte de animais abandonados, isso ainda no final do século XIX. Um exemplo claro disso é que nós temos uma lei de 1934, que pune até com pena de prisão, pessoas que maltratassem animais. Essa parte mais extrema dos maus-tratos é uma coisa bem antiga.

Como o Brasil está em relação ao resto do mundo?
Está caminhando lentamente, mas de forma progressiva. A legislação anticrueldade brasileira foi criada pouco depois da europeia. Já o movimento do bem-estar animal surgiu mais tarde, mas de uma forma diferente, pois na Europa as pressões sobre os criadores de animais começaram por uma imposição legal. No Brasil, as coisas começaram por um outro caminho: o do interesse comercial para exportar, então, sem imposição legal. Nós temos algumas leis, mas que não são tão abrangentes e nem sempre a população é cobrada para segui-las. O que houve, de fato, foi um avanço pela conscientização e educação, com campanhas que foram lançadas na mídia e nas escolas. Então, acho que o Brasil avançou muito nos últimos anos e de uma forma muito mais interessante, porque estes avanços foram pela educação e sensibilização das pessoas. Com isso, você tem uma maior probabilidade de ter uma mudança mais duradoura. Quando é imposição legal, muitas pessoas fazem porque têm que fazer, mas não estão convencidas de que aquilo é bom. No Brasil as mudanças concretas estão acontecendo independente da pressão legal.

O setor pecuarista brasileiro está totalmente preparado e articulado para lidar com essa questão?
Totalmente não, mas acho que tem evoluído muito. A realidade brasileira é de contrastes. A gente tem grupos de produtores, criadores, que estão desenvolvendo excelentes trabalhos, inclusive com cavalos. Por outro lado, a gente também encontra situações críticas, extremas, nas quais a falta de cuidado, o manejo agressivo ainda predomina. É um país de contraste em tudo, inclusive no bem-estar animal.

Como a mão de obra qualificada entra na questão do bem-estar?
O primeiro passo é a sensibilização das pessoas. Deve-se mostrar a elas que este é um tema importante, que o respeito com os animais e a garantia que eles tenham boas condições em termos de qualidade de vida é fundamental, não só pelas vantagens econômicas que isso traz, mas também pela noção de respeito à vida e ao próprio animal, que está ali te servindo de alguma forma. Têm pessoas que trabalham mal, pois não foram sensibilizadas, não têm noção disso ou seguem a cartilha de um aprendizado antigo, no qual a brutalidade era normal. Primeiro, para ocorrer mudanças, as pessoas precisam ser sensibilizadas e depois treinadas em como fazer bem.

Como você vê a pressão da sociedade, em especial da comunidade urbana, sobre questões desse gênero?
Existem pessoas que não têm o conhecimento e o papel de todos nós, da mídia e da Universidade, é criar oportunidades para que elas sejam mais bem informadas. Existem muitos cursos que capacitam os tratadores, as pessoas que têm responsabilidades no manejo dos animais, para que façam isso da melhor forma possível. Hoje, no Brasil já temos iniciativas neste sentido, mas talvez elas precisem ser mais abrangentes, criar mais oportunidades, mas estamos no caminho certo. As ações educacionais têm este poder de transformação, mas não acontecem de uma hora para a outra, exige algum tempo, portanto, temos que ter um pouco de paciência, para que sejam disseminadas no meio da criação animal.

entrevista,
Paranhos se dedica ao estudo do bem-estar animal e sua aplicação prática na pecuária brasileira há anos
Como vê o confronto de interpretações da questão do bem-estar animal, às vezes até de uma forma impulsiva, como aconteceu na invasão do Instituto Royal, de São Roque (SP)?
O movimento de bem-estar animal tem uma série de nuances. A ciência do bem-estar animal é quem está preocupada em entender como o animal reage em determinadas situações, o que é ou não bom para ele, e como minimizar os problemas e aumentar a probabilidade das coisas estarem bem. Há também uma segunda abordagem, que é a da proteção animal. Neste grupo estão as ONGs, que tentam desenvolver uma conscientização em torno do respeito aos animais com cursos e campanhas. E tem um terceiro grupo, que é o grupo dos direitos dos animais, que têm uma abordagem muito mais, diria, radical. Na visão deles, o bem-estar do animal só é bom quando animal tem direito a vida e a liberdade. Eles, geralmente, são esses grupos que tomam essas ações extremistas de invadir, soltar animais, fazerem campanhas para as pessoas irem às ruas, às praças, nuas, cheias de tinta vermelha, como se fosse sangue. São posições políticas diferentes. Não acho que esta seja uma forma de promover o tema “bem-estar animal”. Acho que até cria uma reação contrária. Quando a gente vai falar de bem-estar animal, as pessoas ficam preocupadas e até reativas ao tema, porque acham que todo mundo tem esta abordagem, quase que terrorista, em alguns casos é terrorista mesmo. Um exemplo: na Inglaterra, no passado, o pessoal colocava fogo em caminhão que transporta animais para frigoríficos.

Qual sua avaliação pessoal sobre os movimentos extremistas?
Vejo tudo isso com preocupação e digo que estes movimentos, em vez de ajudar a promoção do bem-estar animal, podem atrapalhar ou atrasar, porque as pessoas ficam desconfiadas. Enquanto a mensagem de quem trabalha com a ciência do bem-estar animal busca ser sempre positiva - e o pessoal da proteção animal também faz isso, este terceiro grupo age com ações mais violentas. No meu modo de entender isso acaba atrapalhando. No Brasil, felizmente, isso é raro. Mas em outros lugares do mundo, a frequência desses acontecimentos é maior e as resistências também são bem maiores.

Como os pecuaristas estão se articulando para se posicionar com relação às cobranças externas?
Existem escolas de negócio e economia analisando o papel do bem-estar animal, pois hoje essa ciência é algo bem concreto dentro do mundo dos negócios. Tanto é que existem alimentos, produtos de origem animal certificando que o animal foi bem tratado, manejado, transportado. Normalmente, esses produtos alcançam valor maior no mercado. No Brasil, só tem uma empresa atuando neste setor, mas na Europa são muitas. São vários termos certificando a adoção de boas práticas de manejo, que garantem boas condições de vida para os animais. Isso exemplifica claramente que, além dos ganhos em desempenho, redução de risco de acidente, tudo isso que já traz um benefício, que cria uma outra oportunidade de mercado, a qual renumera mais também. É um nicho de mercado, com mais uma oportunidade.

Não vê um paradoxo em sermos uma referência mundial no agronegócio e, ao mesmo tempo, termos muito pouco representantes políticos nessa área?
O agronegócio brasileiro é o carro-chefe da economia, a qual está em crise e ele não é, de certa forma, valorizado pela própria política que administra o país. Penso que o bem-estar animal não tem nada a ver com política, afinal é uma questão que envolve aspectos biológicos, psicológicos, éticos e técnicos. Isso deveria fazer parte da tecnologia de criação, seja lá qual espécie for, pois as vantagens são reais.

Como vê, por exemplo, modalidades como rodeios, vaquejadas e outras atividades equestres que envolvem gado?
Acho que todos os cenários, a criação, rodeio, corrida de cavalos, todos têm seus extremos. Se for no Jockey Clube e começar a prestar atenção como os animais são cuidados, vai encontrar alguns que são muito bem cuidados, outros que são mal cuidados e outros ainda que chegam ao nível do maltrato, como animais que param de correr e são abandonados. Isso também ocorre nessas outras atividades. Pessoalmente, não gosto, mas isso é uma posição pessoal. Alguns estudos realizados no Canadá mostram que seguindo certas condições, os problemas não são tão graves. Acredito que o pessoal do rodeio, ou de qualquer prova hípica, deve ter isso em conta e encontrar a melhor forma de fazer com o menor risco de prejudicar o animal. Na verdade, isso já está acontecendo. Hoje, em muitas provas se o animal sair machucado, o concorrente é desclassificado. As provas de maior risco também estão sendo eliminadas. Isso não é diferente do que está acontecendo na produção. Deve-se achar a melhor forma de fazer e se tiver alguma coisa que não tem como melhorar, assumir que é algo que precisa ser eliminado, pois mudou a referência da sociedade em relação àquilo e está na hora de parar.

Como se faz a relação entre as questões culturais e a ciência do bem-estar animal?
A ciência do bem-estar animal tem um objetivo muito claro: quer entender o que o animal sente nas diferentes situações nas quais ele é criado e utilizado. Para julgar uma situação deve-se realizar uma pesquisa, pois é a única possibilidade de ter uma resposta segura. Depois, com os resultados da pesquisa, a sociedade vai decidir se aquilo é aceitável ou não. A pesquisa não classifica se deve ser feito ou não. Ela simplesmente mostra o impacto que pode ter para os animais, prejudicando ou favorecendo o bem-estar deles. Um bom exemplo disso foi em relação ao uso de animais na pesquisa científica no Brasil. Tinham argumentos prós e contras. No fim, prevaleceu uma solução intermediária. Tinha pressão para acabar com o uso de animais na experimentação. Não acabou, mas impôs limites importantes, que com certeza reduziram muito as situações de riscos, que eram de muito prejuízo ao bem-estar deles.

Quais conquistas positivas da pecuária no âmbito do bem-estar animal podem ser introduzidas nas atividades equestres?
Os conceitos, com certeza, se aplicam diretamente. O conceito do que é bem-estar, a mensagem de que os animais devem ser respeitados e bem tratados, simplesmente porque isso é bom. E tem também aplicações mais práticas, de como realizar os procedimentos, as rotinas de manejo na criação dos equinos ou mesmo durante a preparação para as provas e durante elas. Tem duas coisas que a escritora Temple Grandin disse e que gosto de ressaltar. Uma delas é sobre evitar armadilhas do ruim se tornar normal. Há casos que desenvolve uma rotina que não é boa, mas como todos a seguem, parece que é normal. Isso é uma falta de atenção e cuidado com os animais. Seria muito bom aplicar isso com os cavalos. A outra é a preocupação com uma sobrecarga sobre o animal em vários sentidos. Essa sobrecarga pode ser com oferta de alimento diferente da rotina normal, aplicação de medicamento para potencializar o desempenho em uma prova, entre outros.

Qual sua reação se presenciasse um animal sendo maltratado?
Se eu estiver em uma fazenda, por exemplo, e o pessoal começar a bater no gado, se não fui convidado para ensinar, não me intrometo, a menos que alguém me pergunte. Mas, normalmente, me afasto, saio de perto para não ser cúmplice. Agora, se a pessoa me chamou lá para orientar, não vou deixar isso acontecer. Vou falar para parar e aproveitar para ensinar as pessoas de que aquilo não deve ser feito.

Qual a importância das pessoas no processo de difusão da não-violência?
As pessoas são fundamentais. Quem tem controle do trabalho são as pessoas. Se elas fazem mal feito, tem uma consequência negativa no bem-estar animal, e se fazem bem feito, se reduz os problemas. O foco nas pessoas é essencial, não tem como fazer diferente. A única alternativa que teria, se não focar nas pessoas, é soltar todos os animais e não fazer mais nada com eles, o que parece meio absurdo.

Quais são suas expectativas para os próximos anos?
São muito positivas. A gente tem um envolvimento cada vez mais crescente das pessoas, não só dos proprietários, mas também dos técnicos, tratadores e todos que têm a responsabilidade de cuidar dos animais no dia-a-dia. Já avançamos bastante e, a partir de agora, o crescimento é exponencial, pois as pessoas aprendem muito umas com as outras, o que aumenta muito a probabilidade de estarem envolvidas com isso. (Entrevista publicada na edição 67 da Revista Horse)

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Mateus Paranhos

Mateus Paranhos

Zootecnista e Professor de Etologia e Bem-Estar Animal da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal (Unesp)

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