25-Jun-2019 15:22
Edição 114

O CÉU É VERDE E FICA EMBAIXO

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Fotos Inteligência Biológica

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Edição 114
Quem tem alguma intimidade com as atividades equestres já deve ter ouvido falar sobre a necessidade de entendermos os cavalos sob o seu o ponto de vista. O assunto não é novo e já foi abordado por diversos especialistas em equitação. Com a evolução tecnológica e a padronização de determinados procedimentos, entretanto, muitos dos conhecimentos empíricos acumulados em todos os milênios dessa relação acabaram se dispersando com o tempo.  Perdeu-se, assim, uma forma natural de entendimento do que é melhor para o cavalo dentro dos princípios de sua própria natureza.

Esta é a constatação que o médico veterinário Gustavo Braune chegou, depois de anos se dedicando a estudar essa metamorfose e como ela se faz presente no dia a dia das atividades equestres.  “Não se trata de dizer o que está certo ou errado, mas sim de apresentar uma alternativa para que possa ser melhor”, enfatiza ele, que batizou seus conceitos como “Inteligência Biológica”.

Mas, afinal, o que vem a ser essa tal de “Inteligência Biológica”. Braune responde: “Trata-se, essencialmente, de uma inteligência natural, de nômade, de quando o ser humano tinha uma ligação intima com a natureza. Depois que criou a cultura sedentária e se estabeleceu em locais fixos, começou a perder o vínculo de identidade e intimidade com a natureza, e passou a criar uma inteligência cultural”, explica.

Segundo ele, essa mudança fez com que o homem passasse a ser o centro de todas as coisas. Na relação com os animais, especificamente, passou a criar com referências em si mesmo, impondo hábitos humanos. Vejamos, por exemplo, a questão da alimentação dos animais, que passaram ser “refeições”, com medidas padronizadas. “A Inteligência Biológica é ter a noção de que você é mais um indivíduo a compor toda natureza. Ela propõe que você seja um membro desse círculo, não o centro”, afirma, destacando que o objetivo fundamental é entender a natureza como um todo.

Braune propõe, na verdade, uma releitura de todo o processo da evolução da humanidade, que, queiramos ou não, ainda está presente em nosso dia a dia, embora imperceptível a olho nu. “A cultura humana tem o vício de sempre definir alguma coisa, mas a biologia vai na contramão da definição, porque no mundo não há nada definido. As coisas sempre mudam de acordo com a pressão ambiental, como o próprio Charles Darwin preconizou há séculos”, relembra.

Um bom ponto de partida para entender como esses conceitos se fazem presentes na atualidade é o que Gustavo Braune chama de “Manejo Biológico”. Novamente, um bom exemplo está na alimentação.  “Se você desmama mais cedo o potro e começa a dar ração, você impede que ele siga seu ciclo de evolução como indivíduo. A ontogenia, ou seja, a evolução do indivíduo, é um espelho da evolução da espécie. Na verdade, o potrinho nasce como se fosse um ancestral e vai evoluindo até virar um herbívoro que culmina com a condição de ter autonomia e liberdade de ser um herbívoro desmamado”, compara.

 Ainda no exemplo do potro, Braune lembra o caso de um recém-nascido que tinha dificuldade de ficar em pé. A primeira ação, de boas intenções, seria ajudá-lo a se sustentar em pé para mamar o colostro. “Se fizermos uma leitura a partir da biopaleontologia, podemos constatar que isso pode ter ocorrido porque ele não teve tempo suficiente para fazer o ‘download’ desse novo ciclo”, explica. Nesse caso, sugere Braune, a alternativa seria mantê-lo em um ambiente escuro, favorável à reprodução de hormônios do crescimento sem interferência humana. “Em pouco tempo teria chances de completar o “download” biológico e seguir naturalmente sua trajetória de evolução como indivíduo”, afirma.

Dentro dessa linha, o “manejo biológico” está presente em praticamente todas as atividades com os cavalos, inclusive na equitação, como veremos mais adiante. O veterinário faz questão de destacar que não se trata de novas referências, mas sim de conhecimentos antigos que se perderam com a cultura dos novos tempos. “Quando eu proponho uma mentalidade nômade, não quero dizer que todo mundo tem que virar nômade. O mundo já estabeleceu uma sociedade sedentária de se fixar em cidades, mas você pode ter uma visão nômade sobre as coisas”, considera.

Podemos dizer, então, que devemos retomar alguns aprendizados empíricos desenvolvidos por antigas gerações? Para Braune, sim, esse é um dos caminhos. “Toda visão que é dita cientifica pela sociedade humana, é uma ciência acadêmica, das academias de ensino, e não necessariamente indica a verdade. São, na verdade, conhecimentos antigos altamente científicos, mas não acadêmicos. Então, essa palavra empirismo é um termo criado pela cultura acadêmica. Ah, isso é empírico e não tem prova cientifica. Essa é a grande defesa da cultura acadêmica para atender o mercado”, explica

Evidentemente, não se trata de dizer que tudo que é empírico pode ser cientificamente comprovado. Para Braune, o que falta são espaços e oportunidades para  desenvolverem estudos, em razão de uma política hierárquica nas academias que impede que as ciências naturais evoluam. “Já fiz 3 pré-projetos para entrar em pós-graduação em escolas de veterinárias. Não foram aceitos, sabe por quê? Porque não tinha orientador. Porque aquele assunto ninguém entendia. Um era fisiologia do Exercício. Na época que fiz o projeto, ninguém trabalhava com isso. Como é que ele vai ser meu mestre, orientador, se entende menos que eu. Então ele não aceita a pesquisa e corta”, relembra.

Se faltam espaços nas academias, por outro lado também falta interesse dos profissionais da área em se aprofundar no assunto. “Não sou ninguém especial, mas consigo visualizar essas coisas porque pego todas as matérias que eu aprendi desde o curso primário e as coloco a favor das minhas observações”, justifica. “Não dá, por exemplo, para você falar de clínica de cavalos, em ortopedia de cavalos, se você não tiver uma base de biofísica no item termodinâmica. Quem não conhece termodinâmica não conhece nada. Ele vai clinicando no embalo, vai pegando receita de bolo e também acerta. O que me faz entrar para esse mundo é porque sou uma pessoa completamente inquieta”, complementa.

Biologia da equitação

Entre alguns pontos que considera distorcidos, Braune critica inclusive algumas nomenclaturas que foram incorporadas ao glossário da equitação.  A cultura zootécnica sedentária humana, exemplifica, chama o membro anterior do cavalo de mão. Para ele, isso é um completo absurdo neurológico. “O cavalo tem quatro patas. Duas anteriores e duas posteriores. A mão do cavalo, neurologicamente migrou para a boca. Quando se coloca um bridão delicado na boca de um cavalo e uma amazonas de menos de 60 kg faz miséria com um cavalo de 700 kg no adestramento, é porque ela está numa sintonia fina de mão com mão”, compara.

Há quem possa achar esse tipo de abordagem hermética demais, mas para quem entende a equitação em sua essência faz sentido. Segundo o veterinário, o cavalo existe em nosso mundo para formar um sistema simbiótico, dos mais sofisticados que a natureza criou. Nessa linha, ele afirma que não existe nenhum sistema simbiótico tão sofisticado e surpreendente quanto o da equitação. “São dois seres que se complementam. Essa é a grande sacada. Você tem que dar ao cavalo aquilo que ele não tem e o cavalo dar a você aquilo que você não tem. O que a inteligência do homem tem de sobra é o poder de discernimento, de reflexão sobre as coisas. E o cavalo tem o poder da dinâmica sobre as coisas. Ele é tão perfeccionista em seu poder de dinâmica, que toma uma atitude antes mesmo de saber por quê”, complementa.

Braune reconhece que se trata de uma questão de difícil compreensão para o ser humano compreender, de tão diferente que é. “Quando você faz um sistema biológico de equitação, você proporciona ao cavalo a sensação de ele ter o poder de reflexão. E o cavalo proporciona a você a sensação de ser um grande e poderoso dominador da dinâmica. Um ser vivo que tem no seu ataque a própria fuga, foge a compreensão do ego do primata humano”, argumenta.  E tem uma triste constatação: “O que se faz com o cavalo hoje na cultura humana é brincadeira, circo ou é escravidão”, critica

Por outro lado, quem consegue ver além das obviedades do cotidiano e busca um aprofundamento, consegue uma expressão diferenciada e reconhecimento, mesmo que não se dê conta com isso ocorre na prática. “Temos nesse meio existem grandes personalidades que compreendem isso, que fazem dos cavalos serem extremamente diferenciados”, afirma.

Como exemplo ele cita as amazonas de adestramento, que ganham medalha de ouro e se destacam com bastante relevância na modalidade. “Algumas mulheres fazem isso com uma preciosidade absurda. Tem que aplaudir essa gente em pé”, sugere. Para ele, o cavaleiro Nelson Pessoa também foi um dos que conseguiram colocar em prática uma forma diferenciada de se relacionar com os cavalos. “É um mago para conseguir fazer o que ele fez”, considera. Não obstante, quando um de seus cavalos se contunde ou quando está preparando um potro para ser um futuro campeão e enfrenta contratempos, cai nas malhas da visão convencional da medicina veterinária. “Muitas vezes o trabalho dele artesanal, cai na mão de uma mentalidade do ritmo industrial. Aí fica complicado”.

Diante do exposto, como podemos, então, definir o que é Inteligência Biológica”? Segundo Braune, não podemos definir, mas podemos conceituar: “é uma maneira lúcida de se entender instinto. O homem é tão soberbo que o que ele pensa é inteligência, e o que o animal pensa é instinto, porque não pensa como ele. Ou seja, quando os animais às vésperas de um tsunami fogem para o interior, o ser humano, na sua soberba inteligência morre afogado na praia”, compara.

 

Evidente que ao assunto “Inteligência Biológica” é complexo e merecerá novas abordagens nas edições da Horse, que serão feitas em tópicos específicos. Está aí, entretanto, um bom começo para exercitar a inteligência ou, se preferir, os instintos.

 

 

 

 

Revista Horse/Gustavo Braune
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