27-Mai-2021 10:30 - Atualizado em 27/05/2021 11:08
Comportamento

O corpo fala

Usar o nosso corpo para nos comunicar com os cavalos é primordial, mas para isso também é preciso entender a linguagem corporal deles

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Todos os que amam cavalos e convivem com estes belíssimos animais sabem que são altamente sensíveis e perceptivos e essas qualidades não existem por acaso. Os cavalos são animais de fuga, ou seja, quando algo parece ameaçador, eles sempre optarão por escapar da situação em vez de enfrentá-la.
Por isso, se não tivessem uma excelente habilidade em decifrar a expressão corporal de outros seres vivos que estão a sua volta, teriam que sair correndo, a todo momento, em disparada.
Ao longo dos anos, as adaptações anatômicas, fisiológicas e comportamentais tornaram o cavalo um perfeito corredor. E seus sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) foram especialmente desenvolvidos para detectar qualquer sinal de perigo.
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Esta percepção aprimorada também é a responsável por manter o equilíbrio relacional da tropa. Disputas, brigas e confrontos são muito prejudiciais, pois além de promover um desgaste energético imprevisto, despertam a atenção de predadores, provocam a desunião do grupo e podem resultar em feridas, deixando os animais susceptíveis a doenças.
Ou seja, quando a posição de cada membro da tropa está bem estabelecida, os cavalos sempre evitarão situações desconfortáveis e arriscadas. Para isso, utilizam da sua acurada capacidade de decifrar os sentimentos através da observação comportamental.
Foi no ano de 1872, a primeira vez que um cientista ousou escrever sobre um assunto tão delicado e polêmico para a época: as emoções dos animais. Charles Darwin, com o seu livro “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”, rompeu barreiras e enfrentou seus colegas intelectuais por meio da comparação detalhada de expressões corporais dos seres humanos que são totalmente similares a observadas em outras espécies de animais.
Hoje, os melhores domadores equestres admitem que os cavalos têm sentimentos. Com o conhecimento, eles passaram a rever métodos obsoletos de “quebrar” os cavalos e começaram a empregar técnicas de comunicação corporal para iniciá-los de forma mais gentil, sem grandes traumas e emprego de força bruta.
Um estudo recente (2014), da Universidade de Sussex, no Reino Unido, comprovou que os cavalos utilizam as expressões faciais, sobretudo, olhos e orelhas, como pistas essenciais de comunicação. No trabalho, foi observado que a posição das orelhas é um sinal visual fundamental para a comunicação equina.
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Ainda que as orelhas dos seres humanos não sejam móveis, os cavalos conseguem captar informações de suas faces, da posição e movimentos corporais, e do tom, frequência e volume da voz.
O cavalo coleta dados da expressão corporal do homem, muito mais do que este imagina. Sabendo disso, devemos aprender a interpretar o que ele está tentando nos dizer e reagir de maneira adequada, a fim de aprimorar a comunicação interespecífica.
Por isso, conseguir empregar o nosso corpo para nos comunicar com os cavalos é primordial, tal como entender a sua linguagem corporal. Desta forma, será possível evitar acidentes, identificar dor e enfermidades antes de um estágio avançado e otimizar grandemente a relação que construímos.
Por exemplo, será que todas as pessoas que lidam com equinos conseguem reconhecer quando estão aborrecidos, tristes, alegres ou com medo? A seleção de características abaixo, auxiliará a distinguir os diferentes estados físicos e emocionais dos equinos.

Relaxado/Dormindo: O sistema muscular do cavalo está descontraído, o pescoço toma uma posição mais horizontal, a garupa está baixa, os membros anteriores unidos e um dos membros posteriores dobrado, com somente a extremidade do casco tocando o chão. Os olhos estão fechados ou semicerrados, os lábios ficam pendentes. A distância entre a base das orelhas fica menor do que a distância entre as pontas e elas estão voltadas para o lado ou para trás. O movimento é mínimo e raro.
Eles também podem se deitar para dormir de decúbito esternal ou de decúbito lateral, sendo este último mais comum em potros.

Satisfação: o cavalo apresenta todos os músculos relaxados, inclusive a cauda e a boca. Pode suspirar e lamber os lábios. O olhar é suave.

Grande alegria: o cavalo pode correr, empinar, escoicear o ar. Os relinchos são agudos, repetidos, modulados a “plena voz”. A cauda pode estar bandeira e agitada. As orelhas estão eretas, voltadas para frente.

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Aborrecimento/Estresse/Inquietação: Todos os músculos do corpo estão tensos, os ombros estão voltados para trás e as orelhas também. Pode agitar a cauda rapidamente. O olhar é mais rígido e contraído. Pode demonstrar relinchos graves, roucos e sem modulações ou soprar com as narinas, de forma curta, infrassonora e repetida (na inquietação). Pode raspar e/ou bater o casco no chão repetidamente.

Agressividade: Todos os músculos estão fortemente contraídos. O cavalo volta suas orelhas para trás, de maneira que quase se escondem entre a crina. Pode esticar o pescoço horizontalmente e mostrar os dentes quando se prepara para morder ou ainda, arquear o pescoço e manter a cabeça na posição vertical, com o queixo em direção ao peito. Os olhos estão esticados e tensos. Narinas contraídas, respiração forte. A cauda fica erguida e pode ser agitada rapidamente. Um relincho grave, alto e longo indica fúria.

Medo/Pavor: Músculos contraídos. O pescoço é elevado verticalmente e, muitas vezes, a cabeça também. Os olhos estão arregalados e a esclera (branco do olho) fica evidente. As orelhas podem estar voltadas para trás ou eretas, voltadas para o que está causando o medo. Um relincho grave, curto e repetido pode ser ouvido. A cauda é contraída contra as nádegas, entretanto, quando o pavor é grande, o cavalo pode sair correndo com a cauda em bandeira. As narinas estão dilatadas ao máximo, respiração forte e ofegante.

Alerta: as orelhas estão eretas e apontam para a mesma direção que os olhos, cabeça e pescoço. O cavalo para tudo o que estiver fazendo para se concentrar, o pescoço está erguido. A cauda pode estar um pouco elevada também.

Enfermo: as orelhas podem estar caídas e voltadas para trás, como quando o cavalo está sonolento, mas neste caso, as narinas, os olhos, os lábios e os músculos faciais estão tensos. O pescoço e a cabeça vão abaixando, conforme a intensidade dos sintomas, até o ponto de quase encostar no chão. Podem permanecer muito tempo em decúbito esternal e em casos mais graves, decúbito lateral.

Um sinal importante é a contração do músculo acima dos olhos (músculo levantador do ângulo medial do olho), dando o aspecto de tristeza.
Se dedicarmos atenção à linguagem corporal dos equinos, poderemos entender o seu estado físico e emocional e, assim, teremos a oportunidade de criar um vínculo ainda mais estreito e harmônico com estes incrivelmente perceptivos animais. (Artigo publicado na edição 95 da Revista Horse)

Revista Horse
Paula de Andrade Kogima

Paula de Andrade Kogima

É médica veterinária formada pela Universidade Estadual de Londrina, atua como profissional autônoma, ministrando palestras, minicursos e consultorias na área de Comportamento e Bem-Estar de Equinos.
E-mail: [email protected]

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