02-Set-2020 19:14 - Atualizado em 03/09/2020 13:40
Entrevista

O crioulo sob a perspectiva paulista

Entrevista do criador paulista de cavalo Crioulo, Onécio Prado Júnior, eleito presidente da ABCCC para a gestão de 2020/2022

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Entrevista publicada na edição 66 da Revista Horse, em maio/2014 Marcelo Mastrobuono
O empresário Onécio Prado Junior traz a vocação do campo no sangue. Neto materno e paterno de fazendeiros, aprendeu desde cedo a conviver com a criação de gado e sempre manteve atividades com cavalos. Atualmente, dirige o grupo hospitalar São Francisco, em Ribeirão Preto (SP), e mantém as atividades agropecuárias do Haras e fazenda Tamareira divididas nos criatórios de Goiás e em Santa Rita do Passa Quatro, também no interior de São Paulo.

Além da pecuária, que sempre foi o forte da família, Prado Junior vem abrindo uma frente na criação de cavalos. Desde 2005, começou a criar Crioulos, uma raça que conheceu pelos leilões da televisão e foi conquistando aos poucos.

Em 2009, resolveu ampliar os investimentos e iniciou sua própria criação com seu afixo. Hoje, são mais de 400 animais, divididos entre as duas propriedades de Goiás e São Paulo.

Em 2010, Prado ajudou o cavalo Crioulo a abrir espaço para um novo mercado: o de Rédeas, quando seu cavalo SJ Rodopio, montando por Wellington Teixeira, conquistou uma vaga para os Jogos Equestres Mundiais (World Equestrian Games - WEG), nos Estados Unidos, no qual acabou em 14º lugar, entre mais de 120 competidores. Em março deste ano, SJ Rodopio voltou a repetir a façanha, conquistando agora uma vaga para o WEG na Normandia. Está prestes a se tornar o primeiro cavalo brasileiro a participar duas vezes, consecutivamente, da conhecida “Copa do Mundo dos Cavalos”, realizada a cada quatro anos.

Paralelamente aos investimentos em Rédeas, Prado também vem se dedicando a formar cavalos do Freio de Ouro, a maior prova dos cavalos crioulos. Em 2011, conquistou o Bronze, no Bocal de Ouro, com a égua Boneca de Anita, que montada por Guto Freire, garantiu uma vaga na final do Freio de Ouro daquele ano. No final do ano passado, inaugurou seu espaço de provas em sua propriedade em Santa Rita do Passa  Quatro, com direito a pistas de Rédeas, Freio e até uma Mangueira, com estrutura para receber um grande público.

Nesta entrevista, Prado fala sobre sua paixão pelos cavalos, da façanha em levar SJ Rodopio pela segunda vez aos Jogos Mundiais e como pretende ser uma referência do Crioulo na região Sudeste. Confira!

Como começou a criação de Crioulos?

Sempre acompanhei e me simpatizei com o cavalo Crioulo. Cerca de oito anos atrás comecei acompanhar alguns leilões pela televisão, mas como o berço do Crioulo é no Sul, isso era um problema por causa dos eventos e fretes. Mesmo assim acabei comprando meus primeiros dois cavalos da raça em um leilão pela televisão, levei para a fazenda que tenho em Goiás e gostei muito dos cavalos. Após adquirir esses dois animais, fui assistir a uma prova do Freio de Ouro, na Expointer, e fiz amizade com os criadores. Tive uma recepção muito boa do pessoal e resolvi criar cavalo Crioulo.

Como se envolveu com as Rédeas?

Além de criar cavalo, sempre gostei muito de prova, da parte funcional. O Crioulo, na maior parte das modalidades, compete com força, competitividade, mas a prova forte era o Freio. No entanto, em São Paulo, o forte são as Rédeas, então partimos para essa modalidade. E desde que comecei, como tenho fazenda em Goiás, quem sempre montou pra mim foi o Wellington Teixeira, o  Eltinho.

Como foi a primeira prova de Rédeas com cavalo Crioulo?

O primeiro cavalo que o Eltinho montou foi o Pialo do Amanhecer, que comprei em Brasília. Foi o “Potro do Futuro ANCR” e nós conseguimos ser terceiro colocados.  Além desse prêmio, já ganhamos Potro Futuro da ABCCC, Potro Futuro da AGCR, fomos reservado campeões nacionais com uma outra égua. Tivemos uma série de premiações com animais da minha marca, mas sempre o puxador foi o Rodopio, que foi já bicampeão da Copa Querência, que é a principal prova de Rédeas de cavalo Crioulos.

Como foi levar um cavalo Crioulo para uma prova Internacional de Rédeas, na qual predominam Quarto de Milha?

Foi uma experiência muito diferente. Já tinham ido alguns cavalos Crioulos para os Estados Unidos, mas nos Jogos Equestres Mundiais, o Rodopio foi o primeiro a disputar. De todos os cavalos que participavam das provas de Rédeas, tinham só dois Crioulos, o resto era tudo Quarto de Milha. Foi uma parte muito bacana, porque o cavalo se saiu bem. Na primeira passagem conseguiu se classificar para final, que eram mais de 100 cavalos competindo, para classificar 15, e depois mais cinco na repescagem. Por ser um cavalo diferente do Quarto de Milha, despertou o interesse do americano e trouxe uma repercussão bacana para nós e para a raça.

Quando o cavalo foi para os Estados Unidos, você esperava essa boa performance com relação aos demais cavalos nacionais?

Ele foi o melhor dos brasileiros e foi muito bem, pois em um universo de 120 animais, ficou em 14º. É um resultado impressionante. A Rédeas no Brasil está crescendo muito, mas os americanos estão muito à frente, tanto no quesito treinamento quanto no cavalo e seleção. Nosso objetivo era fazer uma boa prova e não tínhamos a expectativa de estar entre os 20 primeiros, que acabou sendo uma grande conquista. E já ter entrado na primeira passagem entre os 15 primeiros foi uma satisfação que suplantou nossas expectativas.

Como foi a reação dos crioulistas com a performance do Rodopio?

Sensacional! Hoje, o Crioulo está tomando conta de tudo, está no Brasil todo, mas o berço dele sempre foi o Rio Grande do Sul. Esse resultado trouxe maior valorização para a Rédeas e perceberam que essa modalidade é uma forma de divulgar o cavalo no exterior. Tanto que no último ano, três diretores foram para os Estados Unidos para se inteirar do trabalho que é feito lá. A ANCR (Associação Nacional de Cavalos de Rédeas)  já faz isso, mas a ABCCC (Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Crioulo) começou a ver isso agora e está correndo atrás para continuar tendo bons resultados na modalidade. Em 2013, mais dois cavalos Crioulos disputaram provas no Estados Unidos, ver como eles trabalham, aproveitar as coisas boas.

Pode-se dizer que foi você que abriu essa porteira para os Jogos Equestres Mundiais?

Tivemos essa sorte. Sabíamos que era um resultado muito difícil, mas tanto o Eltinho como eu acreditávamos muito. Ele é um profissional sério, firme e sabia que o cavalo tinha potencial, que conseguiríamos fazer “bonito”. E agora estamos aqui, quatro anos depois, levando o Rodopio novamente para os Jogos Equestres e quebrando outro recorde, porque vai ser a primeira vez, nas Rédeas, que um cavalo brasileiro vai duas vezes, consecutivamente, para esse evento.

Como é ser um criador de Crioulo fora do reduto sulista?

No início não foi fácil, por conta da adaptação e da distância. Hoje, porém, o Crioulo está saindo do Rio Grande do Sul e, apesar de existir ainda um pouco de “bairrismo”, a diretoria da ABCCC está abrindo novos espaços. Não tem mais aquela história de falar “o Crioulo tem que ser de gaúcho”. O Crioulo hoje é um cavalo do Brasil. Hoje, a própria associação está querendo levar o cavalo para o mundo, além de ser excelente para o pecuarista trabalhar com boi, é um cavalo para esportes. Está indo bem em diversos esportes, como Enduro, Rédeas, Team Penning. A ABCCC também está incentivando seus associados, realizando diversos tipos de provas. Eu mesmo, na minha propriedade, voltei a realizar provas de Freio. Todo ano vamos ter uma prova em dezembro. Tenho total apoio em todos os sentidos da Associação. Também voltamos a ter exposições, que são chamadas de “Passaporte”, para classificar o animal para ir à final da Expointer, que é a grande feira do Crioulo, no Rio Grande do Sul. Temos hoje no Mato Grosso, em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo e esses “Passaportes” têm o apoio da Associação, inclusive financeiramente. Para se ter uma ideia, a ABCCC vai dar uma ajuda de custo no valor de R$ 20 mil para todo cavalo da raça que se classificar para os Jogos Equestres Mundiais. Independente do apoio que temos da Confederação Brasileira de Hipismo, que providencia toda a parte de exportação, os trâmites para enviar os cavalos para a Europa, veterinário e tudo mais, a associação dará este apoio para as despesas extras que sempre existem.

O que acha do Freio de Ouro?

Gosto muito, pois acho que é uma prova bem dinâmica. Tenho pouco tempo de criação, pois entrei no cavalo Crioulo há uns nove anos, mas mesmo assim, já tive a felicidade de ganhar um Bocal de Bronze, no Freio de Ouro, que é um bocal difícil. O Bocal de Bronze é a mesma prova do Freio de Ouro, só que com cavalos inéditos. Então tem uma prova do mesmo ciclo, com os animais que correm pela primeira vez.

O Freio tem toda sua peculiaridade, mas ele mudou muito, absorveu a técnica de Rédeas, do Western, e se percebe que os ginetes gaúchos montam diferente?

Sim. O gaúcho tem aquela doma típica deles, que é completamente diferente da nossa. De uns 12 anos para cá, com a vinda de dois ou três ginetes que são muito importantes hoje, que realizaram curso aqui, o Marcelo Móglia, Guto Freire, fizeram uma mudança, incorporaram um pouco a teoria da Rédeas, juntaram e deram uma mudada na forma de se trabalhar com o cavalo Crioulo.

Você vê que ainda tem espaço para evoluir nesse processo de transformação?

Acho que sim. Para mim, todo radicalismo é ruim. Ainda é possível encontrar pessoas no Sul que acreditam que a Rédeas atrapalha o cavalo. Mas a grande maioria percebe que essa modalidade acrescenta ao treinamento e que o cavalo ganha muito. O máximo que pode acontecer é que a doma que visa o cavalo mais para o Freio, faz o animal trabalhar mais de lado, diferente um pouco da Rédeas. O que temos visto acontecer e inclusive estamos fazendo lá em casa é deixar um gaúcho trabalhar com o cavalo primeiro, depois ele vai para a Rédeas e aí volta para correr o Freio novamente. Isso ajuda muito. Se um cavalo vem bem da Rédeas, sabendo esbarrar, ele vai ter um benefício grande nas provas. Depois ele vai ter que trabalhar um pouquinho no boi, mas já sai com vantagem, se estiver bem trabalhado nessas duas provas.

E a rivalidade entre o Crioulo e o Quarto de Milha ainda existe?

Para mim não existe! Mas têm uns que olham torto. Tem o radicalismo dos dois lados, mas acho que não deveria existir. São duas raças fenomenais. O Quarto de Milha na Rédeas está 10 anos à frente do Crioulo, isso faz diferença, mas o importante é que o Crioulo veio e está encostando.  Podem dizer que tem muito mais Quarto de Milha ganhando do que Crioulo, mas é lógico, porque tem muito mais Quarto de Milha concorrendo do que Crioulo. Está incomodando porque eles são similares em termos de resultados. O outro é bom, não adianta falar que não é bom.  O Quarto de Milha espina melhor, concordo; mas têm uns Crioulos que espinam muito bem e podem ir chegando perto. Essa competição pode ficar boa, se for saudável, cada um procurando ficar melhor. Gosto do cavalo, sou um criador de Crioulo, mas tinha Quarto de Milha. Mudei meu plantel de trabalho na fazenda, mas ainda tenho uma égua Quarto de Milha, Topazina Jiggs que todo ano tiro dois, três embriões.  Foi ela que fez o nome do Eltinho como corredor de Rédeas.

Como avalia a Rédeas no Brasil?

Faz tempo que vem evoluindo muito, mas nestes últimos seis anos, que o Peter (Christians) está na presidência da ANCR, tem feito um trabalho excelente. Parece-me que ele não vai continuar, mas deveria. Acredito que em curto prazo de tempo vão conseguir colocar a Rédeas na Olimpíada, não ainda na do Rio, mas por parte do Brasil está tendo todo o apoio possível para se conseguir isso e aqui está crescendo muito.

 

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