07-Jan-2021 14:05 - Atualizado em 13/01/2021 11:35
Entrevista

O estudante dos cavalos

O mexicano Rudy Lara conta como ser um bom cowboy dressage e fala que aprendeu mais com os cavalos do que os ensinou

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Muitas pessoas falam que os cavalos foram os responsáveis por salvá-las do abismo. Parece exagero, mas para algumas pessoas é a pura verdade. Esse é o caso do mexicano Rudy Lara, 46 anos. Rudy teve um contato com cavalos muito superficial na infância no México.

Quando mudou-se para o Estados Unidos, alistou-se na Marinha e acabou lutando na Arábia Saudita, durante a tempestade do deserto. Ao voltar e deixar a Marinha, viu-se perdido e se autodestruindo até conhecer Seven, uma égua Quarto de Milha, que o ajudou a voltar nos trilhos e deu o impulso inicial para uma carreira bem-sucedida como Horseman.

Desde então, Rudy começou a estudar sobre os cavalos e aperfeiçoar suas técnicas, alcançando excelentes resultados com seu método “No Strings Attached”, que significa que o cavalo deve ser domado naturalmente. Nesta entrevista, concedida com exclusividade à Horse, no Royal Gypsy Horse, Rudy conta sua história de vida, seu método de doma, os desafios do Cowboy Dressage e sobre sua experiência no Brasil durante o Global Equus International. Confira!

Como se envolveu com os cavalos?

Tive contato com os cavalos ainda na infância, no rancho dos meus avós, no México, mas foram muito superficiais. Depois meus pais mudaram-se para os Estados Unidos e esse contato tornou-se esporádico. Depois de um tempo me alistei na Marinha e fui enviado para servir na Arábia Saudita, durante a tempestade do deserto. Quando voltei e deixei a marinha com honras acabei tendo transtorno pós-traumático, mas não percebi de início. Nessa fase, acabei trabalhando com uma égua Quarto de Milha, chamada Seven, que salvou minha vida.

Como assim?
Nesta época eu estava me autodestruindo, fazendo várias loucuras, mas não consegui perceber como aquilo estava me prejudicando. Quando comecei a ter contato com Seven, pude ver nela, o meu reflexo, um ser que precisava de autopreservação e que mostrava nos olhos todo o sofrimento que estava vivenciando. Então, sempre que me sentia mal, ia até ela e apenas de estar com ela e trabalhar com ela, me sentia melhor. Seven me ajudou a me recuperar e me fez enxergar que eu poderia ser mais e que eu seria, mas precisava correr atrás.

O que fez?
Comecei a fazer um curso com Denis Reis, que era dividido em quatro estágios e cada estágio tinha mais quatro fases. Já na primeira parte, Reis percebeu minha capacidade e ambição para aprender e em menos de um ano me tornei um instrutor licenciado e passei a ensinar suas técnicas para estudantes.

Como foi essa experiência?
Era ótimo e pude perceber que a técnica era boa, mas podia ser aprimorada. Nessa fase também vi que não estava sendo justo com os cavalos, fazendo com que eles me ajudassem apenas por mim mesmo e não fazendo nada por eles.

O que fez em seguida?
Resolvi aprender com os cavalos, em vez de ensiná-los. Então, antes de qualquer coisa, principalmente, de montar, é preciso conhecer e entender os cavalos, suas virtudes, seus medos e respeitar sua autopreservação. Não podemos simplesmente ordenar as coisas aos cavalos. É preciso que emanemos confiança, pois assim eles podem nos respeitar e colocar suas patas a nossa disposição.

Como assim?
A primeira parte do cavalo que ele deve disponibilizar são suas patas. Por que? Porque com elas podem fugir ou nos agredir, dando um coice quando não estão felizes com alguma situação. No nosso caso, as patas do cavalo fazem a vez das nossas pernas, já que elas estarão no estribo, então também precisamos ter confiança nele. Quando montados somos como o Centauro (metade homem e metade cavalo). Por isso, sempre explico que o trabalho de chão é essencial nesse processo.

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Rudy: “Usamos o método “No Strings Attached (NSA)”, que significa que o bom horsemanship deve ser natural, ou seja, o cavalo é livre para nos mostrar os caminhos que devemos seguir”
Qual método usa para domar cavalos?
Como em uma faculdade de arte, todos os alunos aprendem a mesma técnica, mas se convidados a pintar um quadro de um lugar específico sairão vários desenhos diferentes. Cada um usa a técnica aprendida, mas com seu estilo pessoal. Então, faço o mesmo. Tenho as técnicas que aprendi ao longo dos anos, com grandes mestres como Reis, Buck Branaman e outros, mas uso meu estilo e vejo cada caso como único, afinal é impossível classificar todos os animais de uma única forma, pois são seres únicos.

O que é cowboy dressage?
É um método que agrega tanto a equitação clássica como a western. Quando falamos de Doma, não tem como usar uma sem associar a outra, pois ambas se correlacionam e se complementam. Lógico que quando você vai treinar para um esporte específico, pode utilizar mais de uma do que da outra, mas ambas são importantes para se alcançar sucesso e bons resultados com os cavalos.

Quantos animais já passaram pelas suas mãos?
Já treinei e ajudei milhares de cavalos e porque não dizer que eles também me treinaram e me ensinaram também. Cada animal que passou por minhas mãos, deixou uma marca em mim e no meu trabalho, porque através deles pude aprimorar minhas técnicas e crescer tanto como pessoa, como horseman.

Como assim?
O cavalo nos ensina coisas novas todos os dias, mas você precisa estar aberto para receber toda essa informação. A maioria das pessoas está preocupada em ensinar os cavalos, mas deveria estar preocupada em aprender com ele. Através desse animal, você pode aprender a ser mais gentil, educado, respeitoso e confiante, tanto na sua vida pessoal, como profissional. O cavalo pode ensinar uma pessoa a se tornar um bom líder e a motivar seus funcionários e alcançar resultados que nunca esperaria.

Você vê muito disso nas clínicas que ministra nos Estados Unidos?
Sim, costumo fazer workshops para empresários, baseados nessa situação, onde eles entendem que não basta apenas ordenar, é preciso pedir e pedir com gentileza, afinal os cavalos, como os seres humanos têm sentimentos e eles sabem se você é confiável ou não. E se eles confiarem em você vão se colocar ao seu lado para o que der e vier. Caso contrário, você terá o dobro de trabalho e os resultados serão bem inferiores.

Qual é o seu maior público nesses cursos?
99% do meu público é formado por mulheres. Elas gostam de melhorar sempre, estão abertas a novidades e querem ter uma relação melhor com o cavalo, principalmente baseada em confiança e respeito. Já boa parte dos homens acredita que não precisa melhorar, que estão indo bem, e perdem, muitas vezes, de aprender coisas novas e melhorar no dia a dia.

O que é mais importante da relação homem e cavalo?
Confiança e respeito. Sem um deles, a relação fica prejudicada, afinal é uma via de mão dupla, não funciona se ambas as partes não estiverem unidas em um objetivo só. Então, é preciso trabalhar junto e não um mandando no outro. É preciso ser parceiro, sempre e em qualquer lugar.

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“Sou um estudante do cavalo e onde tem conhecimento, gosto de estar lá para aprender, afinal a vida é um aprendizado sem fim”
O que faz para ajudar as pessoas a serem bem-sucedidas com os cavalos?
Educação. Mostro que elas precisam se educar sobre os cavalos, precisam conhecê-los, precisam respeitá-los e serem justas com eles. Sem isso, a relação fica prejudicada e ninguém sai ganhando. Recebo em meu rancho muitos cavalos abusados, tanto fisicamente, como mentalmente. O instinto desses animais é de autopreservação, então eles não confiam em ninguém e, às vezes, são agressivos ou arredios. É preciso fazer um trabalho muito sério com esses animais, mas também com os proprietários deles, para que entendam que existem vários tipos de agressão, principalmente mentais.

Pode citar algumas agressões mentais mais comuns?
As físicas podem ser notadas a olhos vistos, mas as mentais são aquelas que afetam o equilíbrio do animal. Por exemplo, animais que são iniciados prematuramente em competições e não estão preparados para aquilo, animais que treinam exaustivamente, outros que são negligenciados tanto no manejo, como na alimentação etc.

O que fazer nesses casos?
Como disse, é preciso educar primeiramente a pessoa que convive com esse animal, para que ela possa entender e respeitar esse cavalo como deveria. Quando a pessoa tiver esse entendimento, aí sim começa o treinamento no chão e só depois o montado. Animais abusados tendem a demorar um bom tempo para terem seus machucados cicatrizados.

Você pode treinar qualquer tipo de pessoa com seu método? Como isso funciona?
Sim, posso treinar qualquer pessoa que esteja disposta a aprender. A pessoa precisa ter a mente aberta para o conhecimento e entender que o respeito pelo animal vem em primeiro lugar.

O que as pessoas podem esperar do seu treinamento?
As expectativas são muitas, mas, no geral, nosso objetivo é que cavalo e cavaleiro se unam em uma parceria que trará benefícios para os dois lados.

Como transferir as habilidades aprendidas no chão para a sela?
Quando você conhece seu animal, tudo que você aprende no chão fica fácil para passar para a sela, porque vocês se tornam uma unidade e trabalham em harmonia e equilíbrio. Não é uma missão difícil, mas é preciso ser dedicado, como tudo na vida.

Como seu filho começou a trabalhar com você?
Meu filho nasceu no lombo do cavalo e desde pequeno já participava de várias disputas. Aos 5 anos, ele se machucou e decidiu que iria aprender tudo sobre o horsemanship, mas voltado para o Ranch Roping. Desde então, ele vem treinando, dia após dia, para se tornar o melhor e, em 2015, ele ficou entre os seis melhores nos Estados Unidos. Então, apesar de seguir numa carreira diferente, me sinto muito orgulhoso por ele.

Esta foi a primeira vez que veio ao Brasil?
Sim, foi a primeira vez e fiquei encantado com este país maravilhoso, rico de fauna e flora e com pessoas tão gentis e apaixonadas pelos cavalos.

Como foi sua palestra no Global Equus International?
Foi muito boa. Pude compartilhar um pouco do meu conhecimento, com pessoas realmente interessadas em aprender novas técnicas e mostrar um pouco do meu trabalho aos brasileiros, o que foi, sem dúvida, sensacional. Como sempre digo sou um estudante do cavalo e onde tem conhecimento, gosto de estar lá para aprender, afinal a vida é um aprendizado sem fim.

O que achou do evento?
Muito bem organizado e excelente no sentido do aprendizado. Tive a oportunidade de assistir a algumas palestras de vários colegas internacionais e brasileiros e fico feliz de ver que muitos, como eu, têm seguido a filosofia de cuidar, amar e respeitar o cavalo, não apenas o ensinando, mas aprendendo com eles.

Que tipo de trabalho desenvolve atualmente nos Estados Unidos?
Trabalhamos com o método “No Strings Attached (NSA)”, que significa que o horsemanship deve ser natural, ou seja, o cavalo é livre para nos mostrar os caminhos que devemos seguir. Ministro clínica por todo o país e, a partir desse momento no Brasil, espero que possa estar sempre por aqui, porque amei esse país e muito. Já meu filho também ministra clínicas na área de Ranch Roping e tem treinado vários americanos para melhorarem suas técnicas e alcançarem melhores resultados em provas.

Teve alguma oportunidade de conhecer alguns horsemen brasileiros? O que achou do trabalho deles?
Sim, já tinha ouvido falar de alguns deles, mas conhecê-los pessoalmente foi uma experiência única, pois pude perceber quão comprometidos estão com o horsemanship e que estão sempre em busca de conhecimento e isto é fundamental para nossa área, pois sem educação não há evolução.

Qual sua opinião sobre os haras que visitou no Brasil?
Nossa, foi uma oportunidade única ter conhecido alguns haras no Brasil. Pude ver como os brasileiros estão levando a sério a criação e investindo pesado em genética, manejo e treinamento. Gostaria que isso também ocorresse com mais frequência nos Estados Unidos. Fiquei muito feliz pelo convite e espero voltar ao Brasil muito em breve. (Entrevista publicada na edição 85 da Revista Horse)

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