22-Abr-2021 14:05
Veterinária

O PASSO CERTO

As doenças ortopédicas (DODs) podem prejudicar o futuro atlético do animal se não tratadas em tempo hábil

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As Doenças Ortopédicas do Desenvolvimento (DODs) ocorrem nos potros e podem ser consideradas um dos maiores conjuntos de fatores que podem acometer um animal, determinando seu futuro atlético e senil.
O termo “DODs” refere-se a qualquer anomalia hereditária ou adquirida, que prejudique o desenvolvimento, maturação óssea e articular dos potros em crescimento. Durante o desenvolvimento ósseo, ocorre uma alteração no processo de ossificação. Dentre as DODs, as fisites, osteocondroses, osteocondrite, deformidades angulares e deformidades flexurais, podem ser consideradas as mais frequentes.

Fatores de acometimento

Os fatores hereditários (genéticos), disfunções nutricionais, traumas articulares severos, exercícios físicos precoces, permanência em pisos rígidos e disfunção hormonal (hipotireoidismo) são as causas que mais contribuem para o surgimento dos distúrbios ortopédicos em potros.

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Os fatores genéticos são uma das causas que contribuem para o surgimento dos distúrbios ortopédicos em potros
Como fatores hereditários podem-se considerar a raça do animal. Pesquisas apontam uma frequência maior na raça Crioula, tanto pelo seu porte, como também pela sua funcionalidade. Mas, no geral, as raças de grande porte apresentam taxa de crescimento maior do que as demais, conformação, tipo corpóreo, estrutura óssea e massa corporal maiores, e estas são características transmitidas geneticamente, que podem gerar pressão excessiva na placa de crescimento (articulação/cartilagem).
Os fatores nutricionais são um dos principais contribuintes e os mais complicados de se notar no desenvolvimento das DODs. O fornecimento de dietas ricas em energia (concentrados) juntamente com a taxa de crescimento do animal faz com que o processo de maturação celular da cartilagem e posteriormente do osso/articulação seja insuficiente. Isto porque provoca falha na ossificação endocondral e deixa a placa metafisária “mais larga”. Além disso, a aceleração do crescimento faz com que os tecidos moles (fibras musculares, ligamentos) não acompanhem o desenvolvimento “explosivo” dos ossos.
Outro fator importante, e indicado, relacionado à alimentação, é iniciar o fornecimento de ração própria para os potros em amamentação, no máximo com três meses de idade. Isso porque nessa fase do desenvolvimento, o leite da égua já não é mais nutricionalmente completo e com isso o potro não terá uma perda de peso tão significativa quando for desmamado. Na prática, acontece que na fase do desmame, o potro tem uma grande perda de peso, e isto é geralmente compensado com o início do fornecimento ou um aumento no fornecimento de ração. Isso faz com que o animal ganhe peso muito rápido. Fase que é a mais propicia ao desenvolvimento das DODs, pois, além do ganho de peso abrupto, ocorre também um crescimento rápido.
Outro fator nutricional ligado às DODs, que se deve dar atenção, são as descompensações minerais, que estão ligadas não só às quantidades dos minerais presentes nas rações, mas também, na sua capacidade de absorção pelo organismo. Muitas dietas contêm níveis adequados de minerais, porém, a absorção é baixa e a quantidade suficiente para a manutenção do animal não é adequada; se ele ainda estiver na fase de crescimento há possibilidade de iniciarem alterações no desenvolvimento. Dentre os minerais relacionados às alterações na ossificação estão o cálcio, fósforo, zinco e cobre. O excesso de fósforo na dieta imobiliza a utilização do cálcio pelo organismo e promove deficiência do mesmo. O cálcio é fundamental para o processo de ossificação, logo, sua falta predispõe a falha no desenvolvimento ósseo. O consumo insuficiente de cobre também é prejudicial à formação óssea, já que este se encontra envolvido na estabilização do colágeno e na síntese de elastina óssea. A sua deficiência pode levar às Fisites e contratura dos tendões flexores. A ingestão excessiva do zinco diminui a absorção do cálcio e do cobre, que também está ligado às doenças de desenvolvimento.

O hipotireoidismo

A disfunção na glândula tireóide em equinos é uma anormalidade endócrina incomum e pouco compreendida, que tem sido associada a várias desordens clínicas, principalmente o excesso ou falta de iodo na dieta. O hipotireoidismo é geralmente primário, associado com enfermidade da glândula tireóide, ou secundário, resultante da secreção inadequada de hormônio estimulador da tireóide (TSH) pela glândula pituitária.
Os sinais do hipotireoidismo são muito variáveis, dependendo do estágio de desenvolvimento no qual ocorre. Na fase pré-natal, onde a dieta balanceada deve ser fornecida à égua, pode resultar em potros fracos apresentando contratura de tendões e pelos longos. Já na neonatal, pode haver ruptura do tendão extensor digital. E na fase pós-natal, ocorrem deformidades dos membros dos potros, por causa da disfunção do crescimento ósseo. Outros sinais possíveis são a contratura da articulação carpo e metacarpofalangiana, a ossificação tardia do carpo e do tarso e às vezes, prognatismo mandibular.
Potros mais velhos, com baixos índices de T3 e T4 (hormônios tireoidianos) e/ou com reduzida resposta de TSH, também podem apresentar compressão do tarso como consequência de ossificação tardia.

Prevenção

Pode-se então, concluir que a prevenção das DODs começa com uma boa alimentação da égua em gestação, principalmente no terço final da gestação, que é o momento onde ocorre cerca de 70% do desenvolvimento do feto (o potro pode chegar a ganhar até 500g por dia), aumentando assim as necessidades nutricionais da égua gestante. É frequente encontrar potros recém-nascidos que se apresentem fracos ou com alterações ortopédicas em virtude da má nutrição da mãe quando gestante. Esta égua gestante deve receber um produto com um nível maior de proteína, a fim de produzir um leite de boa qualidade e nutritivo para o potro. Contudo, devemos evitar sobrepeso nas éguas, pois isso pode contribuir na formação de deformidades angulares e flexurais no potro, devido à diminuição do espaço intra-uterino, e com isso acarretar uma maior pressão sobre o feto gestante.

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Outro fator importante relacionado à alimentação é iniciar o fornecimento de ração própria para os potros em amamentação, no máximo com três meses de idade
Para garantir que o potro esteja recebendo uma nutrição adequada nestes períodos, é fundamental que a égua seja alimentada com ração balanceada com 15% de proteína bruta, além de volumoso de boa qualidade fornecido à vontade. A prevenção continua com a nutrição balanceada dos potros desde o nascimento, iniciando o fornecimento de uma dierta bem calculada e balanceada a partir dos 30 dias de idade, com um produto apropriado para “potros em crescimento”, onde há uma boa digestibilidade, dieta que deve perdurar até aproximadamente os 18 meses de vida. A suplementação se torna ainda mais importante pelo fato do potro não conseguir digerir eficientemente a fibra do volumoso, pois não possui o ceco totalmente funcional, o que significa que o volumoso consumido pelo potro não é 100% aproveitado, fazendo indispensável o fornecimento do concentrado de boa qualidade.

Outras recomendações

Os potros que são criados a pasto com suplementação de concentrado no período da desmama ao início dos “trabalhos”, e que não praticam exercícios, têm toda a energia ingerida convertida e depositada em forma de tecido adiposo (gordura), o que leva o potro a já iniciar os “trabalhos” com sobrepeso.
Além disso, é fundamental um bom manejo e criação, evitando-se o trabalho precoce (antes de 10 meses de idade), colocando-se este potro em terrenos e/ou ambientes onde existam pisos adequados e solos sem muitas deformidades, além de sempre realizar bons cruzamentos genéticos.
Os potros que apresentarem distúrbios ortopédicos, bem como possuírem uma taxa de crescimento muito acelerado, devem receber metade da recomendação diária de ração ou em casos graves, não serem suplementados até a melhora do quadro de descompensação nutricional ou hormonal desfavorável. Para isso, tem que haver o acompanhamento de um médico veterinário, pois somente este profissional poderá acompanhar e indicar o melhor manejo e dieta, como também a melhor escolha da matriz e reprodutor à manutenção e desenvolvimento do potro. (Artigo publicado na edição 90 da Revista Horse)

Revista Horse
Taciano Couto Guimarães

Taciano Couto Guimarães

é veterinário, formado pela UFMG, especializado em plantas medicinais pela UFLA, clínico veterinário e terapeuta floral para animais

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