08-Fev-2021 09:22 - Atualizado em 09/02/2021 09:45
Entrevista

O pensador da Apartação

Francisco Carlos Taboga fala da sua filosofia de trabalho para atingir a mente do cavalo, que o tornou um dos treinadores mais requisitados para a doma de animais de Apartação

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Viver profissionalmente fazendo o que gosta é o sonho da maioria das pessoas, porém, conseguir este ideal não é nada simples nos dias de hoje. Além do investimento financeiro que é preciso para ter uma carreira bem sucedida, as poucas oportunidades que o mercado oferece nem sempre fornecem a remuneração esperada. Isso obriga, muitas vezes, o indivíduo a aceitar uma situação “de risco” ou seguir em outra carreira. Para contornar este cenário, é preciso usar bem a mente. E, literalmente, foi isso que o empresário e treinador, Francisco Carlos Taboga, 55 anos, fez.

Atuando na área da Apartação desde 1989, ele conta que no início trabalhou de empregado em alguns lugares e ajudou a construir centros de treinamentos de alguns Haras. Mas, afirma que sua carreira decolou mesmo a partir de sua ida para Fazenda Berrante, em Assis, do proprietário Renato Eugênio Resende Barbosa. Mesmo já tendo vencido campeonatos nesta época, Taboga afirma que foi Renato que o fez pensar e saber viver do ofício que ama. “Lá foi a minha grande escola, com aquele excelente professor, que é o Seu Renato. Ele me ensinou muitas coisas, não só sobre apartação, mas a alavanca que me deu para eu seguir em frente e os desafios que ele me dava, me levou a ter melhores ideias e oportunidades”, diz.

Nesta entrevista exclusiva à Revista Horse, ele conta sua trajetória, seu histórico grandioso nas competições de apartação, que o tornaram um dos profissionais mais respeitados e requisitado para o treinamento de cavalos para a modalidade no Brasil.

Há quanto tempo está envolvido com o cavalo?
O primeiro cavalo que eu montei foi num Quarto de Milha em 1976. Já na Apartação, o primeiro cavalo que levei para a pista foi em 1989.

Como era a apartação nessa época?
Haviam alguns animais que eram treinados e trazidos dos Estados Unidos, então, tinham algumas boas apresentações e outras que eram apenas razoáveis. Mas, aos olhos de nós brasileiros, como não tinha muita coisa, era bom, era bonito e eu gostei bastante dessa modalidade, que, em 89, tinha apenas alguns campeonatos pequenos.

Você já treinava seus próprios cavalos?
Não, eu nunca fui proprietário de cavalo. Sou proibido de ter cavalos. Porque sou um profissional, vendo meu trabalho e, a partir do momento, que sou proprietário de cavalo, eu passo a gastar dinheiro com eles. E também, se um cavalo meu chegar a ganhar uma competição, vai soar um pouco desonesto, porque tem alguém que estaria pagando a minha conta, para eu treinar o meu cavalo e eu não quero isso.

Em 1989 você já tinha clientes?
Eu trabalhava de empregado num pequeno centro de treinamento.

E como passou desse pequeno CT para o seu próprio?
Comecei trabalhando de empregado em alguns lugares e construi alguns centros em alguns haras. Depois, mudei para um criatório muito grande, a Fazenda Berrante, em Assis (SP), do Seu Renato Eugênio Resende Barbosa. Lá, mesmo eu tendo ganho algumas competições, foi a minha grande escola, com aquele excelente professor, que é o Seu Renato.

Quanto tempo você ficou na Fazenda Berrante?
Fiquei oito anos trabalhando para o Seu Renato e mais dois anos por conta própria. E foram nestes dois anos que adquiri meu pedacinho de terra e construi o meu centro de treinamento, que nomeei com meu sobrenome.

Você também treinou seus filhos?
Não. Tenho dois filhos: o Luís Fernando e o Rodrigo e eles sempre me viram trabalhando, então se apaixonaram pela modalidade e seguiram os meus passos. Hoje estão junto comigo no meu CT.

Você nunca foi para outra modalidade western, como Rédeas, Tambor?
Não. Teve uma época da minha vida, da minha carreira, que eu montei cavalo de Working Cow Horse, porque eu admiro demais essa modalidade. Mas, na verdade, no início da minha vida com cavalo, eu não comecei só na Apartação. Tentei outras modalidades, mas não me faziam pensar.

Por que a Apartação faz você pensar?
Porque se eu não tiver o pensamento, não entro na mente do cavalo e o animal de apartação é a mente que é treinada e não somente o corpo. Ele precisa olhar para o boi e saber que ele é bom e satisfatório. Ou seja, o cavalo não depende da minha direção, depende da direção de seu olho para com o boi.

Como você faz para que o cavalo entenda isso?
Reforço positivo e negativo. Exemplo: quando algum movimento que o boi faz e meu cavalo faz sozinho, vou liberando-o, estimulando-o a fazer isso. E o negativo eu o seguro, não deixando o cavalo fazer da maneira dele. O animal tem que fazer da maneira que o boi deixa ele fazer.

Dentro das modalidades western, a apartação é uma das mais difíceis? Por que você falou que tem de treinar a mente do cavalo e não o corpo. E nas outras, a maioria, você acaba treinando mais o corpo do que a mente, certo?
Nós temos que entender que inteligência não anda junto com obediência. O cavalo que é inteligente jamais faz aquilo que eu quero, mas ele vai ter a atitude benéfica, que depende da minha mente, para ver se aquilo é bom ou não. E se eu pegar um cavalo que é muito obediente, mas sem atitude, isso não vai adiantar nada, ele será limitado, porque nunca vai criar nada. Isso é igual a você ter um funcionário em uma empresa que não cria nada, ele só é obediente.

Essa técnica usada na apartação pode ser usada no meio empresarial?
Sim. O seu Renato me fez um pequeno empresário, pois ele me fez pensar. A pressão que ele fazia sobre mim, sabia como pressionar e como tirar a pressão.

Ele usou a técnica do alívio e pressão em você, que é a mesma que você usa nos seus cavalos?
Eu acredito que seja a mesma técnica de Ray Hunt, Pat Parelli e de todos os outros grandes profissionais que estiveram no Congresso da Global Equus.

Você ainda compete, faz workshop, palestras?
Não, treino os cavalos em casa e, se tiver pessoas que queiram ir lá assistir meus filhos treinando e como a gente inicia os potros, podem ficar à vontade. Nunca cobrei nada de ninguém, pois, tudo que sei, recebi pela Graça de Deus, pela saúde que tenho, pela mente sadia que ele me dá.

Que comparação faz da modalidade, desde que começou até hoje?
Ela deu um pulo grande, porque há uma maior facilidade de se importar cavalos muito bons. Agora, o que é o cavalo ruim? O cavalo ruim é quando você o limita. Todo cavalo tem uma função, seja ela para subir ao pódio ou para te dar prazer. Por isso, a apartação não é um negócio, porque toda prova ganha e qualquer competição no Brasil que você vença, não irá pagar a conta do animal. É um esporte que não dará lucro.

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Então o cavalo não pode ser visto como um negócio para dar rentabilidade?
Perfeito. Quem tem que ter lucro com o cavalo é quem o cria. Eu tenho que usar o cavalo como usuário, igual quando o cara tem uma moto, uma raquete de tênis, ou uma bola de basquete. Ele precisa ver o cavalo como isso aí. O cachorro, o animalzinho de casa, ele tem que dar lucro? Agora, se você levar o cavalo em uma competição, ele for bom e ajudar a pagar a sua comida do dia a dia, aí é legal, é uma satisfação. Mas não pode ter a visão de ir para competição para ganhar dinheiro, porque aí vira um negócio. Nessa situação, não prevalece o amor pelo cavalo.

Para o senhor que vive nesse mercado há tantos anos, a maioria das pessoas não tem essa visão? O que fazer para mudar essa visão mercantilista para uma que preze o amor, o respeito, como um pet mesmo?
Você me pegou agora, hein. Precisaria ter consciência dos criadores que trazem cavalos para o Brasil. Não trazer apenas para negócio, mas para o melhoramento de raça sempre pensando na genética.
Os Estados Unidos ainda são os tops na apartação?
Sim, mas temos cavalos tão bom quanto eles, mas por ser brasileiro acaba não sendo valorizado.

Quantos cavalos têm no seu centro hoje?
Somos em três que montam cavalos e mais alguns funcionários. Nós temos em torno de 90 a 100 cavalos.

Todos estes cavalos já estão treinando para participar de provas?
Sim, não podemos ter animais que não sejam montados, pois lá é um CT e não um shopping. São 30 cavalos para cada um. Qualquer treinador tem de 25 a 40 cavalos para treinar.

E dá para dar conta?
Dá conta se você usar o raciocínio para treiná-los. Se usar a força você não aguenta.

Como funciona o treinamento diário?
Eu acredito que há um tempo de aprendizado. Existe uma literatura internacional que fala que o cavalo aprende de 14 a 16 minutos. O que passar disso, o animal passa a desaprender.

Quem são seus ídolos da apartação?
Não tenho ídolos da apartação, tenho ídolos do cavalo. Em primeiro lugar, o americano Bobby Ingersoll, pois seus vídeos ficaram na minha mente desde que comecei no cavalo. Outro é o Mister Aldannin. E depois outros treinadores que estão na minha mente, que copiei uma coisinha de cada um deles.

O senhor acredita que o que é bom deve ser copiado?
O que é bom deve ser obrigado a fazer. Você tem por obrigação em saber que é bom, se você acredita que é bom e é confirmado, é obrigação.

Como se sente ao ver seus dois filhos entre os melhores?
Me sinto orgulhoso. É um trabalho de família.

Sua família foi importante para sua carreira?
Sim, minha família trabalha muito e sempre me apoiou, em especial, minha esposa que me atura. Se não tivesse o cavalo, tenho certeza de que minha esposa não iria me aturar dentro de casa. Não é uma vida difícil, mas tudo que você faz com amor, fica mais fácil.

O segredo para o sucesso é esse?
Sim. Entrar de cabeça naquilo que gosta, acreditar, porque vai ser um mundo de convívio melhor.

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Você é uma pessoa muito religiosa?
Eu não sou um religioso, pois a religiosidade afasta o homem do Deus. Porque, neste caso, você segue aquilo que homens lhe falaram para seguir. Eu quero saber realmente o que agrada o meu Senhor. E a única coisa que agrada o meu senhor é conhecer o filho dele, pois ele mesmo disse: “Eis o meu filho amado, a quem me compras”. Isso significa que eu preciso conhecer Jesus, ter uma vida com ele. Por quê? Porque, na verdade, ele é o modelo de todas as coisas. Então, não adianta eu ir dentro de uma igreja, dentro de um templo, ou fazer parte disso, ou parte daquilo, sendo que não tenha na minha mente os mandamentos de meu amado. Daquele que já sofreu tudo que sofreu e meu deu preferência de estar com ele.

Como vê a ANCA hoje? Está bem organizada?
Muito organizada. Existe um cara lá, com nome de Pitty, que é muito honesto, gosto muito da conduta dele. Só que eu vejo que precisa ser feito algo para aumentar o consumidor do cavalo.

Hoje tem quantos treinadores?
Eu não consigo falar em números, mas, as duas mãos, acho que está sobrando dedo. Leva-se tempo para você fazer um conceito sobre o treinamento do cavalo de apartação. Exige-se muita coisa, que se pense muito. É uma modalidade um pouco mais cara, porque os cavalos são mais caros, tem o uso do boi. Por isso, não é qualquer infraestrutura que vai abrigar cavalos de apartação.

Esse treinamento que o senhor faz em casa, não usa boi, não é?
Uso a bandeira. O Rodrigo e o Luís Fernando aprenderam a trabalhar 90% com a bandeira (o boi mecânico).

Por isso que fica caro para manter um CT?
É, a infraestrutura é cara. Precisa de investimentos, mas vale a pena, quando faz o que se ama. (Entrevista publicada na edição 88 da Revista Horse)

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Francisco Carlos Taboga

Francisco Carlos Taboga

Atuando na área da Apartação desde 1989, trabalhou em vários lugares e ajudou a construir centros de treinamentos de alguns Haras.

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