27-Jul-2020 11:46 - Atualizado em 03/08/2020 17:32
Treinamento

O problema está no "cavalo" ou em "mim"?

Para adquirir um bom cavalo deve-se buscar ajuda de um profissional que o instruirá a fazer um bom negócio

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O artigo deste mês é um convite à reflexão. Ao longo dos anos e, em especial, neste semestre, tenho recebido inúmeras queixas de pessoas que estão insatisfeitas com seus cavalos. Há poucos dias também presenciei um problema similar com outra pessoa, amadora, que adquiriu o cavalo em um leilão. Constato que realmente é uma situação vivenciada por um número expressivo de proprietários de equinos. Preocupei-me e, estudando os casos apresentados ou observados no ambiente em que atuo, concluí que, em geral, são pessoas leigas ou iniciantes.
São pessoas bem intencionadas, apaixonados por cavalos, mas que, em geral não possuem o conhecimento necessário para adquirir um animal sem uma supervisão especializada, muito necessária para uma avaliação criteriosa, séria e segura.

Imagine esta cena. Ela lhe parece familiar? Uma bela família sentada numa mesa de leilão, atentos à apresentação das boas características de um cavalo que foi - é claro - devidamente preparado para o evento. Ficam fascinados por sua beleza, pela performance na apresentação e o compram, desculpem, muitas vezes num ato impulsivo e precipitado. Saem entusiasmados e ansiosos com a chegada do novo cavalo. E quando o esperado animal chega, a filha, uma pequena cavaleira amadora, monta-o e o cavalo sai em disparada...

Se a cena não lhe parece familiar fico feliz, mas eu, como profissional experiente no ramo, conheço, infelizmente, inúmeros casos iguais ou similares a esse. Além de conhecer os casos, já recebi alguns cavalos para serem trabalhados e “recondicionados”. Costumo dizer que preparar um cavalo xucro, sem traumas ou vícios, não é uma tarefa fácil. Requer muito conhecimento, estudos, técnicas, experiência, tato, tempo, paciência etc. Imaginem, então, reconstruir?

Não aconselho ao amador ou iniciante a compra de cavalos em leilões. Não estou dizendo que os leilões sejam eventos ruins, mas é pelo fato de o comprador não ter conhecido o cavalo em si, não ter a oportunidade de conversar calmamente com o vendedor, nem tampouco de montar e experimentar o cavalo. O leilão acontece de maneira muito rápida e o comprador inexperiente não consegue identificar possíveis características que no futuro podem tornar-se problemas. Em leilões, o ideal é conhecer o catálogo, fazer uma visitação com antecedência ao local onde o cavalo se encontra, montá-lo e, de preferência, levar um profissional capacitado para verificar as demais condições.

Uma frase que escuto com frequência é: “Este cavalo não serve“. Como se o mau desempenho do animal fosse responsabilidade exclusiva do vendedor, do criador ou do domador, menos de quem o comprou no impulso. O curioso é que, muitas vezes, esse mesmo cavalo, em mãos de profissionais experientes, tornam-se grandes cavalos. Não estou descartando a possibilidade de um cavalo apresentar problemas físicos ou psíquicos, mas é exatamente por esses motivos que há necessidade de solicitar uma consultoria especializada, com profissionais qualificados para que avaliem criteriosamente e deem seu parecer técnico.

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O futuro comprador deve fazer uma avaliação honesta de si mesmo, qualidades e deficiências como cavaleiro e do seu nível de educação equestre
Não é assim que fazemos quando estamos propensos a adquirir um bem? Para que a aquisição seja segura, pedimos o aval do profissional competente. Por que com os cavalos deveria ser diferente? Ao contrário, os critérios e cuidados deveriam ser ainda maiores visto que estamos lidando com um ser VIVO.

Voltemos ao exemplo comparativo: a compra de um carro usado ou um imóvel com rachaduras, infiltração, etc. Um bom mecânico, um excelente engenheiro, fariam o reparo nos bens que adquirimos e - quem sabe? - ficariam muito bons.

Mas, sendo o cavalo um ser vivo, ele sente, percebe, age e reage de acordo como foi tratado, estimulado, habituado ou até condicionado. Pessoas com pouca experiência no ramo ou amadoras habituam-se a trocar de cavalo ao primeiro sinal de que ele não correspondeu às suas expectativas.
Assistindo a um vídeo trazido por uma aluna, no qual ela me mostra os problemas do seu cavalo, eu não consegui ver problema algum no animal. O que ela dizia ser do cavalo era exatamente aquilo que faltava a ela como cavaleira. Ela dizia que o cavalo era “duro”, mas como é a qualidade do seu assento? O cavalo é “pesado”, mas como é a comunicação de suas mãos com a boca do cavalo? Ele não faz uma mudança de pé, mas como ele poderá fazer uma mudança de pé, se ele nem consegue se autossustentar no galope?

Por isso, convido o futuro comprador a fazer uma avaliação honesta de si mesmo, qualidades e deficiências como cavaleiro, do seu nível de educação equestre, na qual poderá colocar-se como iniciante, intermediário ou avançado. Potros e cavalos jovens pouco experientes podem ter um preço atrativo, mas se é iniciante, esse cavalo muito provavelmente não irá lhe servir. Esse potro ou jovem cavalo necessitará de um profissional experiente para iniciá-lo de maneira correta e sólida. Cavaleiros iniciantes e amadores devem procurar cavalos mais maduros, estáveis, descomplicados, conhecidos como “professores”, pois há cavalos para cada tipo de cavaleiro.

A responsabilidade pelo êxito ou não da compra do cavalo deve ser questionada, primeiramente, a partir da nossa própria conduta. Quem deseja adquirir um bom cavalo, deve buscar ajuda de um profissional que, além de solicitar o histórico do animal, observará características que “não saltam aos olhos” do comprador, mas que, certamente, serão constatadas e bem avaliadas por quem é especialista no ramo.  (artigo publicado na edição 66 da Revista Horse)

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Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

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