10-Mar-2021 12:02 - Atualizado em 20/03/2021 10:31
Doença equina

O que é o vírus Herpes equino EHV-1

O veterinário Luís Eduardo do Santos Ferraz, diretor técnico da Dechra Brasil, explica o que é o vírus do EHV-1, seus sintomas, prevenção, transmissão e tratamento

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O médico veterinário Luís Eduardo Ferraz é diretor técnico da Dechra BrasilArquivo pessoal
Formado pela Universidade Federal de Viçosa (MG) e doutor em Clínica Médica pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp de Jaboticabal (FCAV-UNESP), o médico veterinário Luís Eduardo Ferraz
tem um profundo conhecimento do vírus herpes equino EHV-1, tema que acompanha em muitos anos de carreira.

Atualmente como diretor técnico da Dechra Brasil, multinacional especializada na produção de vacina animal, ele lembra que o vírus que já matou pelo menos oito cavalos no surto ocorrido há 15 dias na Europa é antigo e também existente no Brasil. Nesta entrevista à Revista Horse, Luis Eduardo explica o que é o EHV-1, seus sintomas, possíveis tratamento e as melhores formas de prevenção. Confira!

O que é o herpes equino? No Brasil também é chamada de Rinopneumonia e Rinopneumonite? Trata-se da mesma doença?

O Herpes equino é um vírus que afeta equídeos em geral e é responsável por diversas manifestações clínicas entre elas a Rinopneumonite que seria a forma respiratória. Além da Rinopneumonite propriamente dita, o Herpes é considerado a principal causa de aborto infecto-contagioso na égua, além de natimortos e mortalidade neonatal. Outra manifestação seria a mieloencefalopatia (forma neurológica).

Quais os tipos existentes e como atuam no organismo?

Existem vários tipos de Herpes que afetam equinos. O Herpes 1 estaria ligado a enfermidade respiratória, aborto e doença neurológica, sendo que a doença neurológica é preferencialmente associada a uma cepa mais virulenta que apresenta uma mutação. Os Herpes 2, 4 e 5 geralmente estão associados a enfermidades respiratórias e o Herpes 3 seria o agente etiológico do exantema coital (herpes genital).

Quais os sintomas?

Os sintomas variam de acordo com a enfermidade observada. A doença respiratória é bem similar a Influenza, com febre, corrimento nasal, tosse, sendo que normalmente a doença provocada pelo Herpes 1 tende a ser mais intensa que a provocada pelo Herpes 4. Já o aborto provocado pelo Herpes ocorre no terço final da gestação e costuma ser um aborto agudo e limpo com descolamento precoce da placenta. A manifestação neurológica se apresenta com ataxia, perda de tônus muscular, principalmente de posteriores, geralmente precedida ou acompanhada de febre. O animal pode pressionar a cabeça contra objetos. Incontinência urinária e perda de tônus na cauda e no ânus são achados frequentes.

Existem sequelas?

Normalmente a infecção por herpes, uma vez que o animal se recupere, não deixa sequelas. No entanto, um animal que tenha contraído o herpes se torna portador o resto da vida, assim como acontece com o herpes em humanos. O vírus permanece latente, podendo se reativar diante de situações de stress e queda de imunidade.

Como são as formas de transmissão?

A principal forma de transmissão é a respiratória, por contato entre os animais. Restos fetais e placentários oriundos de um aborto causado por herpes também são fonte importante de transmissão. O vírus no ambiente tem viabilidade reduzida (até 30 dias) e pode ser facilmente eliminado por desinfetantes comuns.

Existe tratamento e como seria?

O tratamento geralmente é sintomático com uso de anti-inflamatórios, hidratação e cuidados de enfermagem. Há alguns anos foi reportado o uso benéfico da heparina em casos neurológicos.

Quais as formas de prevenção?

A principal forma de prevenção seria evitar o contato entre animais enfermos (em viremia) e os saudáveis, pois estes estarão eliminando o vírus no ambiente e seriam a principal fonte de infecção. Para isso é importante a adoção de medidas de isolamento e quarentena para animais que entram na propriedade ou rebanho, principalmente os que retornam de concursos hípicos. O animal pode eliminar o vírus até 15 dias após remissão dos sintomas.

Outra estratégia de prevenção seria a vacinação. A vacinação tem se mostrado uma ferramenta importante no controle e diminuição da ocorrência de abortos e doenças respiratórias, no entanto, a vacina não oferece uma proteção completa contra a forma neurológica, uma vez que a cepa causadora da doença neurológica apresenta uma mutação que a torna um pouco diferente das cepas vacinais além do fato de ser mais virulenta.

Qual o exame utilizado para diagnosticar a doença?

O diagnóstico pode ser realizado associando-se o quadro clínico a exame de RT-PCR positivo em material colhido na nasofaringe. Exames sorológicos podem auxiliar o diagnóstico, principalmente quando se observa soroconversão em sorologia pareada.

Onde e como vacinar os animais?

As vacinas contra Herpes 1 e 4 são facilmente encontradas e a melhor pessoa para estabelecer um protocolo vacinal é o Médico Veterinário. Geralmente, os potros são vacinados a partir dos 4 meses com duas doses com intervalo de 30 dias, seguido de reforço semestral. As éguas prenhes recebem 3 doses durante a prenhez, no quinto, sétimo e nono mês da gestação. Animais de esporte devem receber a vacina semestralmente.

Já sabemos que se trata de uma cepa diferente e as vacinas existentes não têm eficácia comprovada. Como fica então o trabalho de contenção da proliferação da doença?

Como foi dito, a principal maneira de conter a doença seria evitar o contato dos animais sintomáticos (em viremia) com animais saudáveis. Por isso, a recomendação de isolar os animais envolvidos em um surto e estabelecer medidas de isolamento e quarentena. Por outro lado, é impossível evitar que o vírus esteja presente nas diferentes populações de equinos, devido a particularidade do mesmo permanecer latente no hospedeiro. Boas práticas de manejo, boa alimentação e um manejo sanitário eficiente diminuem as chances de reativação do vírus. As vacinas, mesmo não sendo 100% efetivas tem um papel importante em manter a imunidade do animal diminuindo as chances de reativação do vírus.

Qual a expectativa de termos uma vacina para prevenir esse tipo de cepa?

Sem dúvida as vacinas podem ser melhoradas, com a inclusão de novas cepas, desenvolvimento de novos adjuvantes e tecnologias que melhorariam a resposta imune celular. O maior problema é que por mais importante que seja a indústria do cavalo, ela está muito aquém em potencial de faturamento, quando comparada com animais de produção e animais de companhia, o que muitas vezes limita os investimentos.

Por que ocorrem surtos?

As causas de um surto geralmente são multifatoriais, envolvem a presença e virulência do agente, imunidade do hospedeiro, condições ambientais, densidade populacional da propriedade (lotação), etc. Quando pensamos no herpes o mais provável é que um animal portador (latente) tenha passado por uma queda de imunidade, possibilitando a reativação do vírus. Este animal em viremia, passa a eliminar o vírus, se tornando fonte de infecção para outros animais susceptíveis.

A comunidade europeia entrou em um estado de pânico quando foi identificada a doença e o surto nas provas de Hipismo em Valencia, na Espanha. Há razão para isso?

O pânico é de certa forma justificável, uma vez que você tem animais de alto valor envolvidos, além de se tratar de uma doença que pode ser letal e de difícil controle.

Qual o risco que o Brasil corre? Devemos nos preocupar?

Toda e qualquer enfermidade infectocontagiosa deve ser motivo de preocupação para aqueles que estão envolvidos com equinos de alto valor zootécnico. O risco de termos um surto no Brasil não é muito diferente do risco de outros países. A variante neurológica já foi isolada e identificada por aqui e estima-se que seja a segunda causa mais importante de enfermidade neurológica em equinos no país, ficando atrás apenas da Raiva. Por outro lado, até o momento não foi verificado nenhum surto importante que envolvam os hipódromos ou as grandes Hípicas.

Mas nós já tivemos registro de casos de EHV-1 no Brasil. São o mesmo tipo do surto europeu?

O que se sabe é que o Herpes Tipo 1 neurológico apresenta uma mutação (ORF30), que o torna mais virulento e com maior tropismo pelo Sistema Nervoso Central. Como eu disse este vírus já foi isolado no Brasil. No entanto, a virulência da cepa que hoje aflige a Europa pode ser diferente. Somente após o sequenciamento do vírus poderemos afirmar que realmente trata-se de uma cepa nova ou simplesmente um surto envolvendo a cepa neurológica já conhecida.

Durante o surto na Europa ouvimos casos de animais com sintomas, mas que deram negativo nos exames? Isso é comum, o “falso negativo”. Como lidar com essas situações?

O falso negativo pode acontecer em qualquer exame. O PCR irá confirmar a presença de material genético do vírus na amostra enviada ao laboratório. Caso o animal não esteja eliminando o vírus no momento da coleta, ou haja alguma falha no transporte e conservação do material, podemos ter um exame negativo. O diagnóstico deve ser pautado na presença dos sintomas, dados epidemiológicos e também nos resultados dos exames.

Esse tipo de problema também traz à tona a importância da vacinação preventiva e, pelo que sabemos, a comunidade equestre não é muito regulada nesse sentido, com baixíssima porcentagem de animais vacinados em nosso rebanho, que é o quarto maior do mundo? Pode falar sobre isso?

Sem dúvida a vacinação é uma das medidas mais barata e eficiente para controle de enfermidades infectocontagiosas. O grande problema é que não temos vacinas para prevenir todas as doenças. Quanto à utilização de vacinas no rebanho equino nacional, estima-se que apenas cerca de 5% da população é vacinada, o que limita sensivelmente o controle de enfermidades como Influenza, por exemplo.

O que mais poderíamos comentar e destacar sobre o assunto?

Como em toda enfermidade infectocontagiosa, é muito importante a conscientização de todos os envolvidos na cadeia do cavalo. Não só o Ministério da Agricultura é responsável pelo controle das doenças, mas todos os médicos veterinários, proprietários, criadores, treinadores etc. Uma população esclarecida e atuante é a maior arma para podermos lidar melhor com este tipo de ocorrência.

 

Revista Horse
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