10-Ago-2020 09:19 - Atualizado em 10/08/2020 09:56
Doma em progresso

O refinamento da interação

Quanto mais soubermos ouvir e sentir as respostas do nosso cavalo, melhor será nossa comunicação

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Na edição passada, falamos sobre os princípios da interação e os primeiros passos para desenvolver a linguagem que vai compor o programa de treinamento do nosso cavalo. Feito isso, o próximo passo é desenvolver e aprimorar a comunicação, de forma que ela possa ficar cada vez mais sutil e precisa.
Em hipótese nenhuma quero que o meu cavalo seja um robô. Quero que ele goste de estar comigo e tenha vontade de colaborar. Para isso, tenho que desenvolver a minha capacidade de escuta. Tenho que ouvir e perceber como o meu cavalo recebe aquilo que estou pedindo.
São essas habilidades que vão determinar o quão sutis e sofisticadas vão ser nossas ajudas e sinais. O grau de dificuldade do cavaleiro vai aumentando conforme o programa vai se desenvolvendo. Paulatinamente, o cavalo vai aprendendo a responder automaticamente a sinais e ajudas muito mais sutis do que no início. Ele aprende que, quando sente um sinal, existe uma resposta que faz com que aquilo tenha um fim.
Trabalhando dessa maneira estamos levando em conta a importância e o significado do instinto de autopreservação, no qual substituímos reações e instintos naturais por um programa de respostas condicionadas muito mais consistentes daquelas quando começamos.

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Quanto mais praticamos, mais o cavalo vai aprendendo a responder automaticamente a sinais e ajudas de forma sutil
Quero construir um grau de confiança no meu cavalo que, mesmo quando se defrontar com um cenário que lhe desperte insegurança, desconfiança ou preocupação, possa manter-se concentrado, sabendo que pode confiar em mim, no que diz respeito à sua segurança. Mesmo quando ele estiver estressado, essa rotina organizada vai lhe ajudar a sair do estresse. É isso que faz com que um treinador habilidoso, montando um potro de quatro anos (Potro do Futuro, por exemplo), diante de uma plateia enorme, possa tirar dele uma grande performance.
Na verdade, ele sabe que construiu uma confiança tal que é muito mais forte do que o medo do cavalo pelo desconhecido. Esse é um exemplo concreto da frase do Ray Hunt: “confiança é estar preparado para o desconhecido”.
Assim que o cavalo vai se sentindo cada vez mais confortável no que diz respeito ao que esperamos dele, diminui as possibilidades de ser influenciado negativamente pelo que está à sua volta. No meu entender essa é a chave para o sucesso do programa de treinamento do cavalo de performance.

Sensibilidade, Timing & Bom Senso

Na prática, não vamos conseguir montar melhor se não estabelecermos uma conversação ativa e contínua com o nosso cavalo. Precisamos desenvolver a cada dia a nossa capacidade de ouvi-lo. De pensar do seu ponto de vista e conseguir perceber com precisão as suas respostas. Só assim vamos conseguir responder de volta de uma maneira que lhe faça sentido.
Quase sempre ignora-se a mente do cavalo, que é um elemento essencial e determinante na forma de como se comporta. A regra é básica: se ele não estiver disponível mentalmente, não vai ter vontade de colaborar.
Por isso voltamos sempre aos princípios que regem a boa relação entre homem e cavalos. Acredito que bom senso e equilíbrio estão diretamente ligados não só à disciplina, mas à auto-disciplina. São fatores de grande importância no que diz respeito ao sucesso do programa. Isto é, todas as vezes que vamos dar um sinal ao nosso cavalo, precisamos tomar cuidado para que seja aquela mesma pressão para conseguir aquela mesma resposta.
Timing significa sentir o momento exato para responder de volta, aliviando imediatamente quando o cavalo nos dá a resposta correta.
Não podemos nos esquecer de que toda e qualquer reação do cavalo ao ser humano é o resultado daquilo que fizemos ou o que alguém fez com ele no passado.
Se procedermos sempre da mesma maneira e, de repente, perdemos a paciência e usarmos as esporas e as rédeas de maneira grosseira, imediatamente criamos uma situação de preocupação e apreensão que vai abalar a confiança que foi construída e vamos precisar de, no mínimo, duas ou três semanas para trazê-la de volta. Melhor, então, manter a cabeça no lugar, tanto a do cavalo quanto a nossa. (Artigo publicado na edição 68 da Revista Horse)

Revista Horse
Eduardo Borba

Eduardo Borba

.Eduardo Borba é professor titular do Projeto Doma, em Capivari (SP), e colunista da Horse. E-mail: [email protected]. Site www.doma.com.br

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