12-Ago-2019 08:49 - Atualizado em 13/08/2019 10:44
ESPECIAL PAN 2019

O salto da boleia ao Ouro do Pan

Conheça a trajetória do cavaleiro brasileiro Marlon Modolo Zanotelli, medalha de Ouro no Salto no Pan de Lima na sela de Sirene de La Motte

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PAN DE LIMA 2019

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Marlon Zanotelli, com Sirene de La Motte: conquista históricaFagner Almeida/Revista Horse

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Pela primeira vez na história, o Brasil conquistou uma medalha de Ouro Individual no hipismo dos Jogos Pan-americanos. O fato inusitado veio com o crivo de uma trajetória bem ao estilo brasileiro, com dedicação, sacrifícios, superação e, sobretudo, talento. O cavaleiro Marlon Modolo Zanotelli, 31 anos, é fruto de uma vida dedicada à paixão pelo hipismo. Filho de pai gaúcho, nasceu no Maranhão, morou em Fortaleza e Rio de Janeiro, até se radicar na Bélgica, onde vive nos últimos 11 anos. No meio desse caminho, mais de um ano na boleia de um caminhão, construindo o seu sonho e levando as cores nacionais ao posto mais alto do pódio das Américas.

Filho mais velho de quatro irmãos, Marlon Zanotelli traz no sangue a paixão por cavalos. A tradição começou com o avô, militar que montava na cavalaria do Rio Grande do Sul, e se perpetuou com o pai, que aprendeu a montar no Regimento, foi cavaleiro de Concurso Completo e se tornou instrutor e dirigente de uma escola de equitação em São Luiz, capital maranhense. Foi onde Marlon começou a montar aos cinco anos. Moraram no Rio de Janeiro e depois em Fortaleza.

Aos 12 anos, o garoto já tinha decidido que queria ser cavaleiro profissional. De início o pai não concordou. O garoto não desistiu, e seu pai Mário vendo a desenvoltura do filho em cima de uma sela resolveu investir no sonho do filho. Vendeu a casa, comprou um caminhãozinho e foi desbravar o Brasil em busca de competições. Na boleia, os pais e o tratador do cavalo. Foram milhares de quilômetros percorridos, e a cada competição começou a se moldar um cavaleiro que aliava talento natural dedicado aos treinos, esforçado e muito disciplinado.

"Seguindo o conselho do meu pai terminei o 2º grau, estudei inglês para somente depois ir para Europa, e acabei me formando em marketing em curso online", lembra Marlon. Aos 20 anos, o cavaleiro foi estagiar na Bélgica com o cavaleiro olímpico Ludo Philippaerts. Nos dois anos em que ficou no centro de treinamento do cavaleiro olímpico começou a aprender como funciona o hipismo na Europa, acompanhou o dia a dia de seus ídolos no esporte como Rodrigo Pessoa, Doda Miranda e Pedro Veniss. Queria aprimorar sua equitação e um dia competir de igual para igual com eles. Não demorou em que isso acontecesse.

O aprendizado se consolidou quando começou a trabalhar na Ashford Farm, centro de treinamento do empresário irlandês Enda Caroll, na Bélgica. Trabalhava e competia no circuito europeu nos mais importantes concursos internacionais. Na Ashford Farm, Marlon não apenas evoluiu como cavaleiro, mas também foi onde conheceu Angelica Augustsson, amazona sueca de ponta com quem casou em 2015. Hoje, os dois têm um centro de treinamento próprio, o Augustsson Zanotelli, em Bree, Bélgica.

"Na vida há altos e baixos e esse é um grande aprendizado. É preciso acreditar e trabalhar para conquistar", pondera Marlon. "Desde 2013, eu trabalho com uma psicóloga do esporte suíça, uma pessoa incrível, que tem me ajudado muito no esporte para me preparar para essa hora de estresse, ansiedade e tensão. Assim tento me deixar o mais pronto possível para alcançar os meus objetivos", revelou Marlon, enfatizando ainda o papel inegável de seu pai na conquista. "Desde moleque sempre treinei com meu pai, ele me ajuda bastante junto com minha esposa que compete em alto nível. Mas sempre que tenho algum problema quem resolve é esse cara (meu pai). Vamos Brasil, essa medalha é de todos nós, vamos rumo a Tóquio!"

Marca histórica

No Pan de Lima, no Peru, na sela da égua Sela Francês Sirene de La Morre, de 13 anos, Marlon conseguiu o que nenhum outro brasileiro do hipismo obteve ao longo da história jogos, incluindo nomes consagrados como  Nelson Pessoa, seu Filho Rodrigo Pessoa, Doda, entre outros. Foi o primeiro a conquistar o cobiçado Ouro individual na disputas individuais. Antes, foram duas foram de Prata e três de Bronze. A primeira Prata foi em 1967, em Winnipeg, com Nelson Pessoa Filho, o Neco, montando Gran Geste. Em 2007, no Rio de Janeiro, Rodrigo Pessoa (filho de Neco), montando Rufus, conquistou a segunda Prata. Dos três bronzes, dois foram conquistados por Vitor Alves Teixeira, em 1991, em Havana, montando Zurquis, e em 1999, em Winnipeg, com Jolly Boy. O terceiro bronze individual foi de Bernardo Resende Alves, com Bridgit nos Jogos de Guadalajara 2011.

O histórico Ouro de Zanotelli veio com uma campanha impecável, somando-se ao Ouro de Equipe, o sexto do Brasil, no time formado juntamente com a Pedro Veniss/Quabri de L'Isle, Rodrigo Lambre/Chacciama, Eduardo Menezes/H5 Chaganus, liderados pelo técnico suíço Philippe Guerdat e chefe de equipe Pedro Paulo Lacerda.

Na grande final, na sexta-feira (9/8), foram 32 os conjuntos habilitados para fazer dois percursos, com obstáculos temáticos do Peru de 1.60 metro, com armação do brasileiro Guilherme Jorge. Após a primeira passagem na pista da Escola Equestre Militar  La Molina, sede do hipismo nos Jogos, quatro conjuntos viraram sem faltas, entre eles Marlon, e nove com um derrube, incluindo Pedro. No segundo e decisivo percurso, Marlon e Sirene foram o primeiro dos conjuntos zerados a entrar em pista na corrida pelo pódio. Com mais um percurso impecável, com o tempo de 62s64, viria a ser o único a garantir dois percursos sem faltas. 

O argentino José Maria Larocca com Finn Lente foi vice fechando com apenas 1 ponto perdido na 2ª volta. Outros quatro conjuntos habilitaram-se para o desempate pelo bronze, três saltaram e ao final valeu a experiencia da top norte-americana Elizabeth Madden, campeã olímpica e mundial por equipes, montando Breitling LS que zerou em 42s47. O brasileiro Pedro com seu Quabri de L Isle zerou a 2ª volta, mas perdeu um ponto por excesso, fechando com 5 pontos perdidos em 7º lugar. 

"Foi uma semana incrível: a equipe toda está de parabéns, não tenho palavras para explicar o que aconteceu aqui. É o resultado de um trabalho que vem de longe, da união da equipe brasileira, tratadores, treinador, chefe equipe, minha família e time na Bélgica, minha esposa Angelica Augustsson, unidos com foco único. Agradeço também ao Arnaud Dessain, proprietário da minha égua Sirene de la Motte, por toda a confiança", destacou o Marlon, ao lado do pai Mario, ambos bastante emocionados.

VEJA ABAIXO ENTREVISTA DE ZANOTELLI À HORSE LOGO APÓS A CONQUISTA


 

Revista Horse/Assessoria CBH/Fotos: Fagner Almeida
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