04-Mai-2020 10:45
Entrevista

O seleiro dos velhos e novos tempos

Bisneto, neto e filho de seleiros, Claudio Azevedo, da Kauana, faz uma leitura da evolução do mercado equestre e vê boas perspectivas para o futuro.

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O empresário Claudio Teixeira Azevedo, embora com apenas 52 anos, é do tempo em que selaria vendia basicamente equipamentos e acessórios para os cavalos de trabalho. Era o tempo dos cavaleiros de lida e charreteiros. Seu bisavô começou o negócio em 1902, com a centenária Selaria São José. Depois vieram seu avô, seu pai e irmãos. Dentro desse cenário, cresceu e viu o mundo se transformar entre cortes e costuras em curtumes e o balcão da selaria.
Em meados da década de 90, percebeu que o mercado equestre nacional já não era o mesmo. A prática da equitação no Brasil já havia ganhado corpo nos segmentos de esporte e lazer e a produção interna já não atendia as demandas dos novos cavaleiros. Foi então que deu seu grande salto e criou a Kauana, importadora de produtos equestres.
Seu primeiro item foram botas de borracha israelenses. Logo vieram outros. Azevedo apostou na variedade e fidelidade ao sistema de atacado. Hoje já são mais de mil produtos, que abastecem lojas físicas em todos os cantos do Brasil, por um sistema moderno de atendimento via Internet. A Kauana se transformou na representante de algumas das melhores marcas equestres do mundo e uma referência do segmento. Nesta entrevista exclusiva à Horse, Claudio Azevedo conta como acompanhou essa transformação do mercado que, na sua opinião, vive um de seus melhores momentos e, embora a sobrecarga de tributação governamental faça de tudo para impedir, ainda tem potencial para crescer muito mais.

Quando foi que descobriu que a selaria era o negócio da sua vida?
Sempre estive envolvido com o cavalo e com a selaria, por causa do meu avô. Então, passava meus momentos de prazer e férias dentro da selaria, aprendendo e observando como fazer sela, e convivendo no dia a dia daquilo. Também sempre gostei muito de comércio. Essa conjugação entre selaria e o prazer pelo comércio contribuiu para me envolver cada vez mais. Foi uma bola de neve e continuo no ramo até hoje.

A família também sempre manteve contato com cavalos?
Sim, meus irmãos sempre montaram, participaram do campeonato da ABQM e ganharam muitos títulos. Foram campeões nacionais, campeões do Porto Futuro. Então, sempre estive envolvido com isso. Também montei, treinei, mas nunca gostei muito de competição. Era de cocheira para a selaria e, no final da tarde, montar a cavalo. Essa foi a minha vida.

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"Atualmente, existe uma preocupação com o bem-estar dos cavalos e também dos cavaleiros. Agora, a educação é outra e isso contribui significativamente para o mercado em geral"
Como foi o seu início no ramo?
No início, trabalhei com meu tio em São Paulo. Depois, com 20 e poucos anos vim para Campinas trabalhar com meus dois irmãos, que montaram a loja Delfos e tinham, inclusive, a fábrica em Valinhos (SP). Eu administrava a loja e eles a fábrica. Trabalhei por muitos anos lá e depois decidi abrir outro negócio. Na época, o Brasil nem tinha ofertas de produtos importados. O Collor tinha acabado de abrir as importações e achei que era o momento certo de começar. Então, comecei importar produtos para equitação clássica. Hoje, temos linha para praticamente tudo.

Foi assim que surgiu a Kauana?
Sim. Em 1995, decidi fazer a primeira importação de botas de borracha de Israel. Ou seja, desde o primeiro dia que a Kauana começou foi com esta filosofia de atender lojista. Há muitos clubes, treinadores e pessoas que querem comprar diretamente da gente, mas infelizmente não posso fazer isso, para não prejudicar o lojista. Só vendemos a lojas com ponto físico e não para lojas que trabalhem apenas pela internet, pois isso também prejudicaria o lojista que mantém um estoque pago dentro da loja. Temos uma facilidade muito grande de pronta entrega e o lojista sabe que se compra hoje, a gente entrega amanhã.

Ou seja, você é um atacadista?
Exatamente. O foco e a filosofia da Kauana é atender o lojista. Por muitos anos fui lojista e sempre tive muito problema com fornecimento, tanto de produtos nacionais quanto importados. Nunca teve uma empresa que se dedicou exclusivamente para o atacado no Brasil. Todo mundo começa com o atacado, mas depois começa a fazer varejo e acaba concorrendo com seu próprio cliente. Eu, por ter passado por tudo isso, sei o que é difícil e acho que a gente cresceu justamente por essa fidelidade que tenho com o lojista. Além de facilitar a vida dele, o meu estoque é muito grande. Em números de itens, devemos estar na faixa de mil e temos uma clientela de mais de 300 lojas, das quais pelo menos 150 estão ativas. Mantemos estoque durante o ano todo, o que facilita muito para o lojista, porque ele pode trabalhar com o nosso estoque, tendo estoque mínimo na loja. Uma variedade grande de produtos e um estoque mínimo.

Como era o mercado de selaria quando começou seu negócio?
Quando comecei a Kauana já havia um pouco mais de evolução no mercado. Já tinham alguns produtos importados e uma certa facilidade de adquiri-los. Mas evoluiu muito mais depois do início do trabalho da Kauana. Hoje, colocamos à disposição do cavaleiro e do cavalo os melhores produtos do mundo. Se pensar numa proteção para o seu cavalo, nós temos a melhor proteção do mundo, que o cavaleiro número um usa em sua cavalo. A Kauana nunca trabalhou com equipamentos que não fossem aprovados pelas normas internacionais, sejam eles, capacetes, barrigueiras e outras peças em geral.

Dá para fazer um retrato de como a equitação evoluiu?
Nos últimos 30 anos houve mudanças significativas no nosso país. No início, 70% das vendas do material de selaria era voltada para o trabalho, ou seja, vendia-se mais artigos para uma carroça do que para um cavalo de passeio. Acompanhei essa mudança e isso não para de crescer, tanto nas modalidades esportivas quanto nas raças. O hipismo no Brasil evoluiu muito nos últimos anos. Hoje temos cavaleiros que podem competir em qualquer lugar lá fora. E essa evolução foi tanto em qualidade como em quantidade.

O mercado brasileiro de produtos está preparado para atender toda a demanda?
Sim. Lógico que tem muita coisa que poderíamos trazer para o brasileiro, mas infelizmente é impossível por causa de taxa tributária. O produto no Brasil, infelizmente, custa muito mais caro do que lá fora devido a taxa tributária brasileira altíssima. Não tem como brigar com isso, mas poderia crescer mais. Se o governo colaborasse um pouco, a gente poderia melhorar a qualidade dos esportes, que iam trazer produtos melhores, animais melhores, enfim, evoluir ainda mais.

Além das dificuldades do segmento, que ainda estão em formação, há dificuldades burocráticas?
Sim, hoje 99% dos itens que trabalhamos são importados de mais de 25 países. Então, se o governo facilitasse um pouquinho com tributo, tenho certeza que seria melhor para o mercado, consumidor, empresários no meio do cavalo, enfim, seria melhor para todo mundo.

Pode-se dizer que estamos vivendo uns dos melhores momentos do cavalo?
Sim, e a tendência é crescer ainda mais em todas as modalidades. Também mudaram as atitudes do brasileiro, principalmente, relacionadas à educação. Atualmente, existe uma preocupação com o bem-estar dos cavalos e também dos cavaleiros. Antigamente, não tinha essa preocupação. Por exemplo, pais que compravam equipamentos inadequados para seus filhos, como uma sela ou um capacete grande demais só para economizar. Agora, a educação é outra e isso contribui significativamente para o mercado em geral.

Você acha que esse processo de crescimento vai se perpetuar?
A tendência é continuar crescendo, afinal o Brasil é um país muito grande e, graças aos investimentos no meio equestre, hoje, qualquer pessoa pode ter um cavalo ou fazer aulas de equitação. Antigamente, o mercado tinha muitos profissionais ruins. Hoje, isto está mudando, afinal as pessoas procuram se informar e buscam os melhores profissionais e, com a evolução da educação, a criança que está começando tem uma outra visão do esporte e os pais também. Então, a tendência é só crescer.

Quando fala em crescer, podemos considerar crescer no esporte, lazer, alta performance?
Sim, tudo. Vou fazer uma comparação que não tem nada a ver com esporte e com a Kauana. Hoje, o Brasil tem um número de cavalos de passeio monstruoso. É um mercado tão grande quanto o western. O cara tem o cavalo dele como se fosse um pet, um cachorro. Tem um cavalo e tem aquele cuidado especial, lava o animal com o melhor shampoo, escova, procura botar a melhor ferradura, compra a sela mais bonita, um enfeite, a faixa vermelha para pôr na mão, a manta, roupa bonita, tudo para andar no sábado e domingo, andar com os amigos, ir a restaurantes, sentar e bater papo, tudo por puro prazer. Esse é um mercado imenso que não para de crescer.

E qual foi o pior momento do mercado equestre brasileiro?
Teve vários (risos), mas sempre enfrentei os momentos difíceis buscando novas oportunidades em vez de ficar reclamando. Tem um ditado que meu avô gostava muito: “Você tem que aprender que no comércio, sempre tem a época das vacas gordas e das magras. Então, quando você estiver na gorda, se prepare, que nunca vão parar de vir as magras”.

Como você analisa a cultura equestre do brasileiro?
Estamos engatinhando ainda. Se for comparar com o europeu, ele se preocupa muito mais com a proteção do cavalo, do que com o culote, da bota que ele usa. Infelizmente, nós não temos essa maturidade ainda. O cavaleiro está todo bonitão, mas, às vezes, o cavalo está com um equipamento inferior. Você vai à Alemanha e todo mundo tem um cavalo no fundo do quintal. A criança nasce aprendendo a limpar um casco, a cuidar, a preparar uma ração, alimentar, dar água. São pequenos detalhes que fazem a diferença. O importante é que isso vem mudando e estamos evoluindo.

O segmento do cavalo acompanha o resto do Brasil, do ponto de vista do negócio ou tem suas peculiaridades?
A gente dança conforme a música. Se o país começa a ter um barulho, alguma nuvenzinha de uma crise, problema econômico, político, isso com certeza afeta o cavalo. Principalmente, porque nós temos grandes empresários que estão envolvidos com o cavalo e em caso de crise, a primeira coisa que eles vão cortar para reduzir custos é justamente no cavalo e nós sentimos diretamente.

Uma das queixas dos promotores de eventos equestres é que os patrocinadores ainda não conseguem entender o potencial desse segmento. O que fazer para mudar isso?
Acho que há um mercado imenso para ser explorado. Muitos produtos poderiam estar sendo divulgados, muitas marcas e que teriam um retorno bom. É um meio que mexe com a emoção da pessoa. Penso que tem tudo a ver. Teria que ser feito um trabalho de convencimento, para as empresas perceberem o quão bom é investir nisso. (Entrevista publicada na edição 65 da Revista Horse)

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Claudio Azevedo

Claudio Azevedo

Bisneto, neto e filho de seleiros, Claudio Azevedo, da Kauana, faz uma leitura da evolução do mercado equestre e vê boas perspectivas para o futuro

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