25-Jun-2017 11:40 - Atualizado em 25/06/2019 15:07
Entrevista

O TESOURO DO JOCKEY

Benjamin Steinbruch, CSN, Jockey, Revista Horse,
edição 100
Quando Benjamin Steinbruch, 64 anos, presidente da CSN, uma das maiores empresas siderúrgicas do mundo, decidiu assumir a direção do Conselho Administrativo do Jockey Club de São Paulo, despertou logo a curiosidade de amigos mais próximos, com uma pergunta em comum: “Aonde está escondido o ouro?”. A questão segue uma dedução aparentemente óbvia no mundo empresarial: por que um dos empresários mais bem-sucedidos do Brasil assumiria um clube de turfe endividado, desgastado e desacreditado aos olhos da maioria das pessoas?

Depois de pouco mais de cinco meses à frente da instituição, Benjamin revela a resposta com a segurança de quem tomou a decisão correta e sem nenhum tipo de arrependimento: “Isso aqui é mais que uma mina de ouro; é um diamante a ser recortado e lapidado”, afirma. Em sua visão, a metáfora do tesouro está exposta à flor da terra, em mais de 64 hectares do metro quadrado mais caro do Brasil.

Mas não é apenas o patrimônio físico que lhe abastece as esperanças. Benjamin traz das raízes a paixão pelo agronegócio, em especial os cavalos. Filho de fazendeiro gaúcho, de Santa Maria, comprou sua primeira égua Puro Sangue Inglês quando tinha apenas 17 anos. Logo depois adquiriu sua primeira fazenda, em Bragança Paulista, interior de São Paulo, onde mantém os laços com o ambiente rural, com a criação de cavalos PSI.

Nesta entrevista exclusiva à Horse, Benjamin Steinbruch revela que o desafio foi mais difícil do que imaginava, mas não tem dúvida de que tomou a decisão correta e conseguirá colocar o Jockey Club de São Paulo no lugar de destaque que merece. Fala, também, da polêmica dívida de IPTU e como será solucionada. Sua grande aposta está direcionada ao projeto desenvolvido em parceria com a Prefeitura de São Paulo, que transformará o hipódromo de Cidade Jardim em um grande parque aberto ao público, com vários atrativos, mantendo as atividades turfistas e agregando os interesses de todos que estão à sua volta. Confira!

 

Como começou sua relação com os cavalos? 

Meu pai nasceu em fazenda, no Rio Grande do Sul. Desde pequeno comecei a frequentar esse ambiente e gostava muito de tudo. Sempre tive uma vida muito mais para o agronegócio do que para a indústria, mas, no fim, a vida nos leva para outro rumo. Quando tinha entre 17/18 anos, queria comprar uma fazenda e fui consultar meu pai, que sempre foi uma pessoa muito especial, a melhor que conheci. Ele nunca falava não; sempre deixava ir e negociava do outro lado. Ele falou: “você quer? Então ótimo, vai procurar e se achar, me fala”. Comecei a procurar e, numa dessas, acabei chegando em uma fazenda em Amparo, que tinha uma potranquinha despaletada. Resumo: não comprei a fazenda, mas comprei a potrinha. Não tinha nem onde levar, mas enfim... 

Que potrinha era essa? 
Era Puro Sangue Inglesa, chamada Bruskense. Era filha de ZenabreBrusk. Comprei porque ela estava abandonada. Foi minha primeira égua. 

Nessa época você já se interessava por cavalos de corrida? 
Sempre gostei de cavalo, gado, fazenda e bichos. Andava a cavalo, mas não tinha nenhuma caída especial pelo Puro Sangue Inglês. Aconteceu dessa potranca ser PSI. O curioso nessa história é que meu pai tinha dois irmãos, um pró-fazenda, e o outro pró-indústria. Então, quando meu pai achava que era bom, mandava o pró-fazenda. Quando achava que era ruim, mandava o pró-indústria. No fim, achei uma fazenda que agradou a ambos, a Fazenda Alvorada, em Bragança Paulista (interior de São Paulo). Compramos quando eu tinha 18/19 anos. A partir daí, começamos a criar o PSI por causa dessa potranca.

Essa paixão pelo cavalo, desde a época dos 18 anos, foi uma forma de compensar isso? 

Foi. Meu pai era um cara muito sábio, muito diferenciado e, na medida em que ele via que eu tinha interesse e queria, ele dificultava, mas depois, acabava apoiando. Quando comprei a Fazenda Alvorada, em Bragança, por exemplo, e ele disse: “comprou? Muito bem, então cuida”. Com 18/19 anos, eu ia para a Fazenda aos finais de semana. Era uma fazenda de leite e café; ficava sozinho num casarão antigo, que rangia à noite e eu morria de medo. Acordava às 5h para ver a ordenha, acompanhava vaca em concurso leiteiro e desenvolvi uma parte da minha juventude nos afazeres. Estudava durante a semana e ia sozinho para lá nos finais de semana. Me apaixonei por esse negócio. A gente tem essa fazenda até hoje com café e leite. Meu pai trabalhou muito, deu muito duro na lida, mas constituiu e nos proporcionou coisas fantásticas, tanto na indústria quanto na agropecuária. Eu sou fã do agronegócio. Sempre tive um olho para a indústria e outro para o agro. E deu tudo certo dos dois lados. 

Ainda hoje tem essa rotina de ter um tempo para a fazenda, de curtir? 

Perdi isso com as responsabilidades. Mas os meninos (filhos) foram criados na fazenda. Todo final de semana levava-os para lá. Depois foram ficando maiores, cada um vai para um lado. Foi muito bacana o fato deles terem sido criados lá. Eu não fui, mas eles foram. Isso dá um apego à terra, à natureza, à vida, que só mesmo quem vive isso sabe o que representa no futuro. Essa parte eu fiz por eles e gosto muito de poder ter ofertado isso a eles. Eles também gostam e, hoje em dia, compramos outras fazendas, desenvolvemos os dois braços, industrial e agronegócio. Agora eles podem optar e escolher. 

Por que que resolveu assumir o Jockey Club? 

Peguei o Jockey porque são muitos anos que a gente tem os cavalos de corrida. Não que fosse frequentador do clube ou que participasse da administração, pelo contrário, nunca tive essa proximidade. Sempre gostei do Jockey Club, que, em geral, vêm em um período decadente há muito tempo. A questão não é culpar essa gestão ou aquela. A verdade é que nos últimos 20, 30 anos, houve uma decadência muito grande na atividade, na população, nos que gostam de turfe, dos que gostam de cavalos. Achava que se nós não tivéssemos uma oportunidade de colaborar, tinha chance de o Jockey fechar. Não pensava em ser presidente, mesmo porque tenho tantas outras coisas que me obrigam a estar por perto, mas queria ajudar. Na última hora, aceitei participar de uma das chapas, ganhamos a eleição e os companheiros acharam por bem me colocar como presidente.

E hoje, passados alguns meses, qual a avaliação que faz?

Foi engraçado. Depois que ganhamos, meus amigos chegavam para mim e perguntavam: “Benjamin, qual é? Por que você está assumindo o Jockey Club, uma bomba dessas? Tem alguma coisa, você sabe de alguma coisa...”. Não sabia de nada. Entrei para dar um suporte a esse grupo que acreditava que podia fazer uma proposta diferente para o Jockey Club de São Paulo. Hoje, eu te digo que realmente isso tem um potencial fantástico, uma realidade imobiliária única em São Paulo. O melhor e mais valorizado terreno de São Paulo, certamente do Brasil. São 64 hectares dentro de São Paulo, nessa localização, com área verde, potencial de crescimento e construção, segurança, logística melhor possível. Isso aqui é uma joia, um brilhante que vai ser cortado agora. E é claro que precisa saber cortar. A situação é muito crítica, mas o potencial que existe aqui é inacreditável. Isso aqui é uma mina de ouro que sabendo se explorar, vai dar muita satisfação e vai perpetuar o clube por várias gerações. 

Essa é a ideia que deu a origem ao projeto que está sendo desenvolvido junto com a prefeitura? Como é que foi costurado isso? Quem fez o projeto? 

Isso já vinha de muita conversa anteriormente das outras gestões e nós tivemos a sorte de ter o prefeito João Doria, que abraçou a ideia e está desenvolvendo de uma forma incrível. Já fizemos mais de 10 reuniões do conselho Jockey Club com a Prefeitura e as secretarias, com muita boa vontade, muita dedicação do prefeito em nos ajudar com o problema do Jockey Club em relação ao IPTU, que é uma dívida antiga que vem se acumulando desde a época do Presidente Jânio Quadros. Somos o único Clube de São Paulo que paga IPTU, pelo fato de ter apostas aqui. Acumulou-se uma dívida muito grande.

Gostaria que você falasse um pouco sobre a questão do IPTU, que virou quase um mantra nos comentários sobre o Jockey

Existe uma dívida acumulada do Jockey desde que o prefeito Jânio Quadros, que queria ser presidente, colocou um imposto territorial no clube e isso trouxe um passivo grande até hoje pela cobrança que os outros clubes não têm. Ou seja, acumulou uma dívida grande com a prefeitura. Ao mesmo tempo, com a desapropriação da Chácara (do Jockey) e com a desapropriação da Marginal, o Jockey acumulou créditos. Agora vamos fazer esse encontro de contas e estamos pedindo para que seja analisado pelo secretariado e pelo prefeito. O Jockey Club estará desobrigado de pagar IPTU daqui para a frente, sendo assim, igualado aos outros clubes. Isso vai fazer parte do pacote. Nós temos condições de resolver o passado, em termos de encontro de contas, e deixar de ter no presente a cobrança do IPTU, o que nos coloca em outra posição.

Como será a condução desse projeto?

Vamos passo a passo. Hoje, a gente está em uma situação supercrítica de liquidez. Quer dizer, os problemas são enormes. Termos de dívidas, de falta de liquidez e tem um patrimônio absurdo. Temos que passar esse primeiro momento, retomar as atividades do clube. Hoje já estamos fazendo duas corridas por semana, aos sábados e segundas-feiras. Estamos fazendo coisas urgentes e prioritárias para o clube, em termos de manutenção e melhorias. Conseguimos acertar o problema da greve, pois quando assumimos os funcionários estavam há nove meses sem receber salários. Mas o pessoal do Jockey é fantástico. Tem muita gente boa aqui dentro e que gosta do clube. A coisa está indo. Quer dizer, a cada dia outro dia, e estamos vencendo essa fase inicial e vai se abrir um leque de boas oportunidades. Tenho a impressão de que o pior já passou e nós vamos conseguir evoluir rápido.

O que foi o pior que já passou, na sua concepção?

Ah, sem ter dinheiro para nada, tudo vencido... Imagina você pegar e ter nove meses de salários atrasados, em greve?  Com tudo, parte de fornecedores e proprietários, todo mundo sem receber nada. Estava um quase caos aqui, não sabia nem por onde começar. Mas, graças a Deus, nós temos um conselho bastante unido, trabalhando junto e se dedicando para reverter. Aquilo que era tendência de baixa, desanimo e desagregação, conseguimos reverter para um clima positivo e uma convergência de interesse. Os profissionais, os sócios, a Prefeitura e os fornecedores estão sendo atendidos e é isso que nos permite pretender essa transformação em um período curto de tempo.

Foi mais difícil do que imaginava quando assumiu?

Clube é clube. Você, em uma empresa, pode pegar e, respeitando a hierarquia, fazer o que quiser. Em um clube não é bem assim. Primeiro você tem que conquistar a confiança, tem que motivar, convergir nos interesses e trabalhar junto, no sentido de conseguir direcionar todos para aquele objetivo. Graças a Deus conseguimos nesse primeiro momento, mas dentro de uma dispersão muito grande. Foi muito difícil, ainda mais sem dinheiro para nada. E em um clube, não adianta você querer fazer milagre, não tem.

Teve que por dinheiro seu aqui no Jockey?

Não. Mas tivemos que vender a escola do Jockey e pretendemos vender o posto de gasolina (vizinho ao clube). São dois imóveis aqui perto. Nós temos uma coisa que foi mérito deixada pela direção passada: um valor grande em TDC e precatórios, pela desapropriação da marginal. OsTDCs são referentes à parte tombada do Jockey Club. Há também uma discussão de desapropriação em termos da Chácara do Ferreira. Esses TDCs têm liquidez e foram mantidos pela diretoria passada. Estamos fazendo o mesmo, até definir a melhor forma de conduzir isso.

Podemos dizer que o Jockey está apostando todas as fichas nesse projeto?

Com certeza! Na verdade são dois projetos. Nós temos o projeto de Campinas, que é o Mini Jockey, 340 mil metros, que pertence ao Jockey Club de São Paulo. Hoje é o centro de treinamento. Gostaria de fazer lá um hipódromo com mesmo projeto de São Paulo. Nós pretendemos fazer aqui muito entretenimento, muitos restaurantes, bares, hotel, centro de convenção, aproveitar as partes tombadas das cocheiras e fazer um shopping. Tem prédios de escritórios, prédios de residência e Campinas pode fazer a mesma coisa. É o mesmo projeto que pode ser feito lá. São coisas que vão andar juntas e é um desafio grande.

Dentro desse novo projeto, está de pé a ideia de tentar aproximar outras raças de cavalos aqui para o Jockey, com eventos equestres?

Estamos trabalhando muito isso. O Jockey Club é uma referência, uma marca. Não só do ponto de vista de trazer coisas para cái, mas poder servir às outras raças. Temos condição de oferecer para as outras raças coisas fantásticas para os admiradores do cavalo, entretenimento e instalações que permitem isso. Devagar vamos construir essa convergência. Do ponto de vista equestre, o Jockey vai ser, no futuro, a referência do cavalo em São Paulo.

A pergunta que todos fazem: o Jockey tem jeito, então?
Tem. Tem que ter paciência, determinação, mas tenho certeza de que tem jeito, sim. É um desafio grande. Está acontecendo em outros clubes também, mas se você olha para fora, você tem a perspectiva de ver que aqueles que sofreram bastante, hoje estão numa situação boa. Então temos modelo a seguir. Claro que será trabalhoso, dificultoso e vai levar tempo, mas temos certeza onde vamos chegar.

 

Quer dizer, então, que o Jockey é uma mina de ouro?

 

Isso aqui é mais do que uma mina de ouro. Na verdade, o ouro você tem que extrair. Isso aqui já existe, é uma realidade. É claro que têm muitos desafios e bastante trabalho, mas com uma equipe coesa, com o nosso conselho trabalhando de forma determinada e transparente, tenho certeza de que vamos chegar lá.

 

 

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Benjamin Steinbruch

Benjamin Steinbruch

O empresário Benjamin Steinbruch revela por que resolveu assumir o desafio de dirigir o “desacreditado” Jockey Club de São Paul

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