23-Mar-2020 19:41 - Atualizado em 24/03/2020 12:26
Veterinária

O uso do calor como terapia

Ele pode ser usado para tratar lesões musculares e ligamentares, entorses articulares, estiramentos, edemas e para ajudar na organização de hematomas a partir da fase subaguda

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Assim como o uso do frio (gelo ou crioterapia) o uso do calor também tem seu lugar como agente terapêutico. Para aplicar corretamente esta modalidade, precisamos conhecer como ocorre o processo de cicatrização de uma lesão para aplicar o calor no momento certo. O processo de cicatrização é composto de três fases: inflamatória (ou aguda), proliferação (ou subaguda) e a de maturação (ou de remodelamento).

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Antes da aplicação
A fase aguda ocorre nas primeiras 48 a 72 horas. Esta fase é caracterizada pelo aumento de vascularização no tecido que traz como consequência o aumento de temperatura do mesmo. Assim, o uso do calor nesta fase seria contraindicado, a melhor opção seria controlar essa inflamação inicial com o uso do frio.
Nas fases seguintes, o uso do calor traz vários benefícios. Na subaguda, que pode durar aproximadamente duas a três semanas, o calor promove uma vasodilatação no local de aplicação que proporciona um aumento do fluxo sanguíneo e, consequentemente, um maior aporte de oxigênio e nutrientes para a área em cicatrização. O calor aumenta a permeabilidade dos vasos. Com isso, mais células de defesa chegam na região e ajudam a remover o “lixo” celular (enzimas, células mortas etc.). Esse aumento da permeabilidade também ajuda a absorver o edema (inchaço provocado pelo acúmulo de líquido nos tecidos) que é uma consequência do processo inflamatório. O calor também aumenta do metabolismo do tecido, o que contribui para que a cicatrização ocorra de forma mais rápida. Ele também tem um efeito sob a parte neurológica, aliviando dor e espasmo muscular.
A fase de maturação ocorre a seguir e pode durar até dois meses. O uso do calor nessa fase, combinado com exercícios terapêuticos promove um melhor remodelamento do tecido cicatricial, tornando-o mais elástico e funcional. Quando o colágeno é aquecido, ele tem a propriedade de se tornar mais elástico. Isso pode facilitar os exercícios como o alongamento muscular ou a extensão de um tendão. O calor torna a cápsula articular mais elástica e o líquido sinovial menos viscoso. Essa combinação de fatores, facilita a flexão de uma articulação e aumenta a amplitude de movimento da mesma.
O calor pode ser aplicado através dos agentes de calor superficial ou profundo. Os superficiais aumentam a temperatura apenas dos tecidos logo abaixo da pele, o efeito não ultrapassa 0,5 cm de profundidade. Assim pode ser utilizado em
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Aplicação de pad quente
tendões, ligamentos, articulacões superficiais, tratar músculos que estejam com espasmo (apesar do músculo ser mais profundo, a ação sobre os receptores na pele vão gerar uma resposta de diminuição do espasmo), e alívio da dor.
São exemplos de agentes de calor superficial as ligas ou pads quentes, as lâmpadas infravermelhas, os cataplasmas de linhaça utilizados nos cascos. No caso dos pads, deve-se tomar muito cuidado com a temperatura do material aquecido. A mão humana deve conseguir ficar em contato com o material por um longo período. É como se estivéssemos preparando uma bolsa de água quente para nós mesmos, ela deve estar numa temperatura agradável, caso contrário pode transformar o calor num instrumento de tortura. A temperatura do material aquecido jamais deve superar 40 a 45
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Resultado após aplicação
graus, temperaturas acima destas poderão provocar lesões de pele. O tempo de aplicação é cerca de 15-20 minutos. Não devem ser utilizados pads elétricos em equinos, pelo risco deles pisarem no fio e levarem um choque. As lâmpadas infravermelhas, necessitam de uma distância correta (30 cm), angulação (perpendicular à superficie da pele) e dose correta para terem efeito, e este é muito superficial (até 0,5 mm da pele). Assim sua função terapêutica é limitada.
Os agentes de calor profundo, aquecem até 5 cm de profundidade e o mais comum para equinos é o ultrassom terapêutico, que deve ser utilizado apenas por médicos veterinários que trabalhem com fisioterapia veterinária. Com esta modalidade é possível aquecer tecidos mais profundos e isso é muito útil para a realização de exercícios terapêuticos logo em seguida. O uso incorreto pode provocar lesões no animal.

Indicações e contraindicações
As principais indicações clínicas do uso do calor seriam: lesões musculares e ligamentares, entorses articulares, estiramentos, edemas (inchaços) e para ajudar na organização de hematomas na fase subaguda.
O calor também alivia a dor, ajuda a reduzir espasmos musculares, diminui rigidez articular, facilita o alongamento de músculos, tendões e ligamentos.
Já as contraindicações são para lesões na fase aguda, nem em áreas onde ocorreram sangramentos ou hemorragia recentes. O calor também não é utilizado sobre feridas abertas, problemas vasculares (áreas que não estão sendo corretamente irrigadas) ou sensitivos (áreas com a sensibilidade comprometida).
É importante conhecer os benefícios do calor para saber quando encaminhar o cavalo para fisioterapia veterinária para a utilização do calor profundo ou explorar melhor o uso do calor superficial. O superficial tem uma penetração muito pequena, mas ele tem bastante ação nos tecidos próximos à pele. As ilustrações mostram o mapa térmico do animal, realizado com uma câmera infravermelha antes, durante a após a aplicação de um pad quente. A utilização do pad foi capaz de elevar a temperatura da pele em 10 graus.
Para a prática esportiva é importante lembrar que o exercício também aumenta a temperatura dos tecidos. Um estudo foi realizado para que se comparasse o aquecimento interno do músculo Quadríceps em humanos sob três diferentes formas de aquecimento: o exercício ativo (bicicleta estacionária), com o uso de uma modalidade de calor profundo (ondas curtas) e com uma modalidade de calor superficial (pad quente). A modalidade mais efetiva para elevar a temperatura interna do músculo foi o exercício ativo, seguida do calor profundo e depois do calor superficial. Isso também mostra a importância dos exercícios de aquecimento na rotina do cavalo, pois os tecidos ficarão mais elásticos e haverá menos probabilidade de ocorrer lesões.

Solange Mikail/Revista Horse
Solange Mikail

Solange Mikail

é veterinária, proprietária do Espaço Equus e especialista em Termografia veterinária

E-mail: [email protected]

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