07-Jan-2021 14:47 - Atualizado em 13/01/2021 11:38
Manejo

Os benefícios do imprinting

Lúcio Sérgio Andrade considera o método essencial para quem busca criar cavalos com base no bem-estar animal

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Até a década de 80, ou seja, cerca de 35 anos atrás, predominava na equinocultura brasileira, a doma irracional, bruta, através de métodos violentos. Inicialmente, a doma racional foi introduzida no estado de São Paulo, pelos criadores da raça Quarto de Milha. Rapidamente, o método se expandiu para outros estados e para diferentes raças. Todavia, ainda hoje alguns procedimentos inseridos no que se entende por doma racional são errados, agressivos para o bem-estar do animal. Como exemplos, cito o uso do cachimbo para a contenção, o uso inadequado de esporas e talas, as embocaduras severas ou, até mesmo, as de ação moderada, ou branda, em mãos de treinadores brutos.

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Colocar o dedo na boca várias vezes, até que a cria aceite. No futuro, o potrinho aceitará com mais facilidade a embocadura
A tônica da atualidade é o manejo com bem-estar. Com base neste princípio, entendo que não há método melhor do que o Imprinting para iniciar a doma de cabresto. O método é aplicado nos recém-nascidos, de preferência a partir do primeiro dia de vida. A terminologia “Imprinting” significa gravar e, no caso dos equinos, é gravar algo na memória dos recém-nascidos. A duração deste procedimento, em média, dura uma semana, em uma ou duas seções diárias de treinamento.
O método do Imprinting é relativamente recente, pela primeira vez divulgado em um livro escrito por Robert Miller, formado em Zootecnia pela Universidade do Arizona em 1951 e Doutorado em Veterinária Equina na Universidade do Colorado em 1956. O livro foi publicado em 1991 com o título - “Imprinting Training of the Newborn Foal” - Treinamento de potros recém-nascidos pelo Imprinting. Como toda novidade, e considerando que a orientação do Dr. Miller era o treinamento nas primeiras horas do nascimento, a técnica demorou um pouco a ser adotada. E ainda hoje, fora dos países mais desenvolvidos, o Imprinting é adotado em poucos haras.
O princípio do Imprinting é gravar na mente do recém-nascido a proteção também pelo ser humano, além da proteção do instinto natural da mãe. A metodologia é fácil, acessível para qualquer pessoa, com ou sem experiência. De fato, em haras dos Estados Unidos e Europa, o Imprinting é feito com mais frequência pelos familiares do criador, principalmente a esposa ou a filha. A vantagem é que o procedimento é flexível, ou seja, a metodologia varia muito. Na minha prática desenvolvi um procedimento padrão, acessível e de fácil aprendizado para as pessoas inexperientes, que é o seguinte: após o nascimento e o potrinho ter mamado pelo menos uma vez, estando caminhando com equilíbrio, começa o massageamento da cabeça, pescoço, corpo e membros, nesta sequência. As etapas são as seguintes:
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No dorso, uma boa massagem de mãos, e com um saco plástico, masseando também os costados e ventre, ajuda no futuro a boa aceitação da colocação da manta, da sela, do início da pressão de pernas da equitação
1 - Contenção: Dentro de uma baia espaçosa, se necessário a égua deve ser contida em um dos cantos, dependendo das reações de proteção à cria. O instinto da cria é estar próxima da mãe, mas no primeiro dia a “mente está aberta” para aceitar a aproximação fácil, sem medo, dos seres humanos, porque a proteção somente da mãe ainda não foi consolidada na memória. A contenção da cria é fácil, mas precisa de um ajudante. Simultaneamente, o ajudante passa um braço pela garganta e o outro segura a cauda.
2 - Massageamento: A massagem começa na cabeça, nas partes mais sensíveis, como as orelhas e a boca, colocar várias vezes o dedo na boca, até que a cria esteja aceitando, até mesmo “mamando” no dedo. No futuro, o potrinho aceitará com mais facilidade a embocadura. A massagem bem feita na cabeça tem como objetivo facilitar a colocação do cabresto­. No dorso, uma boa massagem de mãos, e com um saco plástico, masseando também os costados e ventre, ajuda no futuro a boa aceitação da colocação da manta, da sela, do início da pressão de pernas da equitação. Nos membros, uma boa massagem nas articulações, nas canelas, cascos, alternar flexão e extensão, facilita o manejo futuro dos cascos, deixando levantar com facilidade cada pata. A seção de massagem dura em média 15 minutos e pode ser repetida à tarde. Logo após uma primeira seção bem feita, o potrinho já estará apegado à pessoa, até mesmo seguindo-a na baia ou fora da baia.
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Já no primeiro dia, ou no máximo no segundo, o cabresteamento ao passo poderá ser conduzido fora da baia
3 - Colocação do cabresto: no segundo ou terceiro dia, dependendo das reações de cada potrinho, colocar e retirar a cabeçada do cabresto várias vezes, até que esteja bem acostumado. Importante que seja um cabresto de corda macia e bem ajustado na cabeça, com a parte superior da faceira sobre a nuca.
4 - Cabresteamento ao passo: puxar o cabo do cabresto com suavidade, para o cabresteamento ao passo dentro da baia. Se o potrinho não caminhar, o procedimento é passar o cabo do cabresto por trás das nádegas, fazendo pressão, e com a outra mão fazer pressão na base do cabo do cabresto, junto ao queixo, puxando adiante. Já no primeiro dia, ou no máximo no segundo, o cabresteamento ao passo poderá ser conduzido fora da baia.
5 - Cabresteamento no trote ou marcha: dependendo da reação do potrinho, o cabresteamento no trote ou marcha, conforme seja a raça, poderá ser facilmente conduzido, bastando aumentar a pressão da mão na base do cabo do cabresto.
Como sempre, há pessoas que criticam o Imprinting, mas são poucas em relação às que elogiam o método. O argumento dos críticos é que os potrinhos podem se transformar, quando adultos, em cavalos, ou éguas, linfáticos, muito mansos. De fato, se houver excesso de massageamento, criação intensiva, alta frequência das seções de treinamento, o temperamento linfático futuro poderá ser desenvolvido. Porém, somente se a égua for linfática, pois se for uma égua com temperamento ativo e mantida nas pastagens, os potrinhos serão naturalmente condicionados a serem cavalos (ou éguas) também de temperamento ativo. Quanto à crítica de “ser muito manso”, não é defeito, mas sim qualidade, sendo outra das muitas vantagens do Imprinting­ – formar cavalos e éguas mansos, para qualquer­ pessoa manejar, cavalgar.
O Imprinting é mais do que um simples método da doma de cabresto. Futuramente, todas as etapas do manejo serão facilitadas, a começar pela contenção ao cabresto nos piquetes, o casqueamento, medicações, treinamento de cabresto, início da doma de sela e todas as demais etapas do manejo geral e especializado. Na verdade, se o haras adota manejo 100% de bem-estar, o Imprinting é imprescindível. (Artigo publicado na edição 85 da Revista Horse)

Revista Horse
Lucio Sergio Andrade

Lucio Sergio Andrade

é escritor, pesquisador, árbitro internacional de equideos marchadores, autor de livros impressos, livros em cd e dvds sobre diversos temas do manejo geral e especializado de equídeos marchadores

E-mail: [email protected]

www.equicenterpulicacoes.com.br

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