26-Jun-2020 13:12 - Atualizado em 26/06/2020 13:24
Doma em progresso

Os cowboys zen

Como Tom Dorrance e Ray Hunt fizeram das atividades equestres uma filosofia de vida

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Tenho insistido nos últimos artigos em evidenciar a relação que existe entre o Horsemanship e as filosofias Zen. Não se trata de uma simples analogia subjetiva, mas sim de algo que vem se consolidando ao longo de mais de 40 anos de experiências práticas, compartilhadas com outros profissionais realmente preocupados em entender melhor como a boa relação homem-cavalo se estabelece no dia a dia.

Poderia, por certo, ficar aqui descrevendo inúmeros casos de problemas com os animais e como eles foram resolvidos. Mas não é esse o objetivo. O que buscamos é o entendimento da “essência” do horsemanship e como isso se estabelece no cotidiano de nossas atividades.

Lembro-me, por exemplo, que quando ganhei o livro “Think Harmony With Horses” do meu amigo Orlando Gonzalez, fiquei super mexido. A maneira como o Ray Hunt falava de Horsemanship era a mesma dos grandes mestres do Zen Budismo, como Alan Watts, Shunryu Suzuki e muitos outros. Mais surpreendente ainda foi quando li a dedicatória que reverenciava Tom Dorrance como seu grande mentor. Esse momento foi como um flash, e uma revolução aconteceu na minha vida.

Abordar o cavalo, colocando a importância e o significado do “Instinto de Autopreservação” como a essência de tudo, mexeu comigo de uma maneira que nunca antes havia acontecido. E desde então, minha principal ocupação tem sido mastigar esse significado e a sua importância.

O mais importante é que quanto mais mastigo esse assunto, mais percebo o Horsemanship como uma prática Zen, isto é, se o mestre explica pouco, o discípulo fica confuso; se explica muito, ele pensa que entendeu.

Talvez seja isso que mais dificulta e confunde a maioria dos estudantes de Horsemanship. Porque, na verdade, eles querem compreender a Preservação à luz do pensamento racional.

A confusão vem do fato de que, por mais lógico que possa parecer, uma análise racional a respeito do Horsemanship revela apenas uma pequena fração do seu significado.

Eu, particularmente, entendo o Horsemanship como uma bola de aço. Quer dizer, quanto mais violentamente a espada do intelecto bate nela, mais ela escapa do seu corte.

Eu, particularmente, entendo o Horsemanship como uma bola de aço. Quer dizer, quanto mais violentamente a espada do intelecto bate nela, mais ela escapa do seu corte.

Acredito que talvez seja por isso que as pessoas envolvidas com Horsemanship dizem que eles, Tom e Ray, são muito complicados, esotéricos demais. Passam a impressão de que estão ocultando da maioria o segredo fundamental.

Mas a razão de tudo isso é o grande respeito e reverência que eles tinham pelo cavalo. “Quando estou diante de um cavalo, vejo apenas um cavalo”, dizia Tom Dorrance.

Quando perguntavam a respeito do que fazer sobre um determinado comportamento de um cavalo, sua resposta era invariavelmente: Depende...Outra tônica era a Preparação. Preparar o cavalo para...

No meu entender, esse é o grande mistério a ser vivido por todos aqueles que querem usufruir da companhia dos cavalos. Mistério é mistério. Se for resolvido, deixa de ser mistério. É por isso que uma de suas grandes frases era: “ajustar-se para caber naquela situação”. Isso é puro Zen. Ajustar-se como a água, que preenche todos os espaços por onde passa. Por outro lado, não podemos pegá-la, segurá-la nas mãos.

Suas lições eram muito mais deduções do que instruções. Eles queriam que as pessoas aprendessem a pensar por si próprias, desenvolvendo a nossa capacidade de escuta.

É muito importante conseguirmos nos apresentar de uma maneira que possa ser aceitável para o cavalo.

Esse é o tesouro mais precioso que o cavalo tem para nos oferecer e que, para ter acesso a ele, precisamos respeitá-lo de forma que ele consiga se assegurar que estamos ali para garantir-lhe a Preservação.

Sua definição de respeito era baseada na compreensão das percepções, motivações, e preferências do cavalo. Para tal é preciso ler o cavalo, analisando cuidadosamente a sua expressão, a posição das orelhas, a altura da cabeça, enfim, entender que o corpo reflete o estado mental deles. É essa leitura que nos permite saber o que vai acontecer antes de acontecer.

O fato é que os efeitos dessa parceria não podem ser encontrados no mercado. Eles vão estar disponíveis apenas àqueles que querem realmente entrar por essa porta. Dessa maneira, fica absolutamente evidente que isso só vai estar disponível para um pequeno grupo de pessoas.

Na verdade, é sempre muito difícil dar uma definição exata de como essa dupla compreendia o cavalo, pois suas características residiam muito mais naquilo que eram e na impressão que provocavam naqueles que entravam em contato com eles, do que no que diziam ou faziam. Eram inconfundíveis e, no entanto, absolutamente indefiníveis, assim como os grandes mestres Zen.

Fica absolutamente claro que a mensagem deles é: “se conseguirmos compreender o cavalo como um Todo, podemos criar o nosso próprio método”. Isso é a expressão da mais pura liberdade. É ficar fora da prisão dos métodos, que os marqueteiros querem nos vender, reduzindo o Horsemanship a um mero produto de supermercado.

Praticar o Zen tem como meta nos acordar para a vida, nos libertar da prisão do Ego e das influências externas. No cerne dos ensinamentos de Ray Hunt existem lições a respeito de dar, autodisciplina, consciência de si, compaixão, prontidão, humildade, concentração e inteligência. Na verdade, é o Budismo falado no dialeto Western

Praticar o Zen tem como meta nos acordar para a vida, nos libertar da prisão do Ego e das influências externas. No cerne dos ensinamentos de Ray Hunt existem lições a respeito de dar, autodisciplina, consciência de si, compaixão, prontidão, humildade, concentração e inteligência. Na verdade, é o Budismo falado no dialeto Western.

Quanto aos seus ensinamentos, o que mais se destaca é a espontaneidade, força, e ausência de vacilação. 

Deixaram os dois livros mais importantes a respeito do significado e da importância do Horsemanship: True Unity, a Willing Communication Between Horses and Human e Think Harmony With Horses, respectivamente. Não são livros para serem lidos como se lê um romance. São livros que nos passam princípios e conceitos fundamentais. Livros que nos instigam a pensar com mais profundidade a respeito do significado do Horsemanship, e principalmente sobre como vivemos a nossa vida.

Para mim, está absolutamente claro que Horsemanship não é para entender; é para sentir. (Artigo publicado na edição 105 da Revista Horse)

 

 

 

 

 

Revista Horse edição 105
Eduardo Borba

Eduardo Borba

.Eduardo Borba é professor titular do Projeto Doma, em Capivari (SP), e colunista da Horse. E-mail: [email protected]. Site www.doma.com.br

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