01-Fev-2021 10:54
Entrevista

Os desafios de um HORSEMAN

O treinador californiano Richard Winters fala que atividade é muito mais que montar e domar; é preciso saber apresentar ideias aos cavalos

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Diferente da maioria dos meninos da escola, que sonhavam em ser bombeiro ou astronautas, o californiano Richard Winters sempre quis ser um cowboy. E mesmo morando na cidade com seus pais, que não sabiam nada sobre cavalos, não desistiu do sonho. Durante o fim da década de 80 e início de 90, viu sua carreira decolar ao se destacar com clínicas de equitação. Hoje, há mais de 30 anos como horseman, é dono de títulos do Campeonato Mundial na Cow Horse Association, juiz com classificação AA e detentor de programação no canal 398 chamada Winters Horsemanship­, em HRTV, e tornou-se uma referência na modalidade.
Influenciado pelos mestres Ray Hunt e de seu mentor Tom Dorrance, com os quais teve o privilégio de montar e “passar um pouquinho de tempo”, como diz, Winters teve sua introdução neste universo com Troy Henry, conceituado horseman de Clóvis, na Califórnia. Com ele, aprendeu um dos ensinamentos que considera primordial para o desenvolvimento de seu trabalho, que é a ideia de que o horseman é um apresentador de ideias aos cavalos.
Pela primeira vez no Brasil, Winters, um dos palestrantes internacionais do Global Equus International 2016, conta que o que viu aqui ultrapassou suas expectativas.
Nesta entrevista exclusiva à Revista Horse, você confere a trajetória de Winters, que o tornou um dos profissionais mais respeitados no segmento.

Como começou sua história com cavalo?
Desde que era pequeno, era tudo que queria fazer. Vivíamos na cidade e pegava minha bicicleta e ia até um estábulo, onde por $ 2,50, poderia montar um cavalo por uma hora. Aí, passava o dia todo lá. Com o tempo, de pouco em pouco, comecei a ajudar os mais velhos com os cavalos e este foi meu começo.

Em que região foi isso?
Na Califórnia. E, na época do ensino médio, no verão, subia a montanha e ficava três meses lá, montando os cavalos e trabalhava para dar passeio. Ainda no ensino médio, fui para uma escola especial, para aprender a colocar ferraduras nos cavalos. Nesta época, consegui trabalhar para um homem que era muito conceituado como Horsemanship (Troy Henry­). Com isso, tive oportunidade de trabalhar com cavalos bons, que já eram prontos. Depois de muitos anos, consegui refazer esta experiência no treinamento. Desde esse tempo, foi tudo que fiz na vida. É interessante como crianças são diferentes. Tenho uma irmã e ela não se importa nada com cavalos, porque meus pais não sabem nada sobre eles. Nos Estados Unidos, na maioria das vezes, são as mulheres que se importam com cavalos. Fui um dos poucos homens que queria ser um horseman.

Richard Winters,
Winters: “estou trabalhando a vida toda para me tornar um horseman e ainda estou tentando chegar lá”
Quando descobriu que queria ser um horseman?
Durante o tempo que estava trabalhando para o Troy Henry, já achava que era um horseman, mas, era só um montador de cavalo. Descobri que era um horseman quando o Troy me mostrou a diferença entre montar um cavalo e de ser um horseman. “Qualquer um pode montar um cavalo, é só você não cair”. Mas ser um Horseman é muito mais importante que isso”. Foi nessa época que entendi e percebi que não estava feliz apenas montando cavalo, queria ser um horseman. Só não esperava que esse processo fosse durar todo este tempo, estou trabalhando a vida inteira para me tornar um Horseman e ainda estou tentando chegar lá. Com toda essa experiência no Brasil, na qual vi os outros palestrantes, percebi que ainda tem muita coisa para fazer, para chegar naquele nível. Talvez eu seja melhor que alguns, mas têm muitos que são melhores que eu. Então, vou passar minha vida inteira tentando chegar neste lugar.

Quais foram as pessoas no Brasil que mais chamaram sua atenção, no sentido de evolução, de ser uma referência positiva?
Todas as apresentações foram ótimas, mas uma que se destacou foi a do Ndzinji Pontes, que fez a demonstração de Dressage. Ele foi muito impressionante, assisti e fiquei encantado. Ele trabalha muito duro pra ter seus cavalos mudando de mãos, indo da direita para a esquerda. No padrão americano tem que mudar da esquerda para direita e assim você tem que trabalhar o dobro. Assisti este mestre no domingo e ele mudou 38 vezes de mão, sendo que trabalhei para mudar duas vezes. Então, eu tenho um longo caminho a percorrer.

Muitas pessoas costumam diferenciar a equitação clássica da western, e o Ndzinji fala que a boa equitação é a única. Você concorda?
Sim. Apesar de ter a equitação inglesa e a western, um bom horsemanship é um bom horsemanship. Têm pessoas que gostam de dividi-los e falar que não há nenhuma similaridade, mas para mim não tem diferença se você monta em uma sela western ou numa inglesa. Não me importa se tem um chapéu de cowboy ou um capacete de montaria, se você está mostrando que tem um bom horsemanship, sei apreciar. Sempre têm coisas boas que podemos aprender com cada disciplina. Por isso que a exposição foi muito boa, vimos muitas disciplinas diferentes. Eu perguntei às pessoas, durante minha segunda apresentação, se elas estavam começando ver as similaridades de todas as demonstrações: Este homem pode fazer iniciação de potro, curring, Rédeas ou Dressage, mas o princípio, a filosofia de um bom horsemanship são as mesmas. As técnicas e ferramentas podem mudar, mas os princípios são os mesmos.

Richard Winters,
"Passamos a vida inteira tentando aprender como a mente dos cavalos trabalha. Se pudermos apresentar as coisas de maneira que possam compreender, é incrível o que podem fazer para a gente”
Muitas pessoas confundem horsemanship com essa coisa de mimo com o cavalo. Qual é a diferença do bom horsemanship?
Acho que a definição é apresentar uma ideia ao cavalo, de uma forma que ele possa entender. Eles pensam de uma maneira, mas não como nós. Por isso, passamos a vida inteira tentando aprender como a mente deles trabalha. Não é sempre: “Há, você é legal”, mas certamente, crueldade não tem vez. Os cavalos não são lutadores, brigões, eles só querem se dar bem com as pessoas, ficarem confortáveis. Assim, se nós pudermos apresentar coisas de uma maneira que eles possam compreender, é incrível o que podem fazer para gente. Então, Horsemanship, junto com as técnicas e ferramentas, como trocar diagonal, mudar da direita para esquerda, é exatamente esta junção de saber como ensinar o cavalo.

Qual sua impressão geral da parte equestre do Brasil, não somente do evento, mas dos haras, das coisas que visitou?
Acho que não é tão diferente de todas as partes do mundo. Todos nos juntamos, pois amamos cavalos. Diria que 90% das pessoas que conheci são como eu. Eles amam os cavalos desde que eram pequenininhos, todos seguiram caminhos diferentes na vida, mas o amor ao cavalo os une. Por isso, acho que somos mais parecidos do que diferentes.

A pessoa nasce um horseman ou se torna um?
Você, com certeza, se torna um horseman. Isso porque é preciso trabalhar muito e é necessário muito tempo para trabalhar com isso. Mas é claro que há pessoas que têm isso naturalmente nelas, elas possuem essa sensibilidade. Já conheci bastante pessoas que trabalharam muito, muito e conseguem fazer coisas legais com cavalos, porém, não há aquela coisa natural nelas. E já conheci outros que tinham esta naturalidade, mas não trabalhavam, não tinham paixão por isso. Eu também me pergunto se estas pessoas que vi terem esta naturalidade, se não tinham também com futebol, dança, ou para lidar com pessoas, por exemplo. Acredito que a naturalidade deles não seja apenas com cavalos.

O que é essencial para se tornar um horseman?
Para os que desejam chegar neste nível, como mencionei antes, é um trabalho para vida inteira. Mas, falando de uma maneira mais prática, você tem que decidir se está comprometido com isso, independente do dinheiro ou do tempo que será gasto nisso. Nos EUA não temos Universidades ou Escolas que você pode conseguir um certificado de horsemanship, mas como um jovem quer chegar neste nível de mestre de horsemanship, é preciso ter a atitude de falar “Eu quero me tornar um horseman”. Tem um jovem na minha casa neste momento, ele tinha 20 anos quando chegou e não sabia muito sobre cavalos, mas dizia que queria muito se tornar um horseman. Eu lhe perguntei: “Você quer mesmo se tornar um Horseman? Sim, eu quero! Ok, então vem para o meu rancho, se você trabalha muito, muito bem, por muito, muito pouco dinheiro, eu lhe ensino. Mas não se sinta mal, se for para a Universidade, você terá que pagar. Eu vou te dar 10 dólares!”. Ele já está lá há um ano e meio trabalhando duro, mas está ficando melhor. E ele vai chegar num lugar que, provavelmente já terei terminado com ele e ele comigo, mas, possivelmente, não estará pronto para ser um profissional. Irá para outro lugar, talvez fará um pouquinho mais de dinheiro, mas vai trabalhar duro, para aprender mais. E de pouquinho e pouquinho, se ele continuar trabalhando, as pessoas vão começar a vê-lo e dizer: “Hei, aquele cara tem entendimento. Vou ver se consigo chamá-lo, para me ajudar com meus cavalos”. Aí ele vai fazer parte do clube do Horsemanship.

Um dos apresentadores, o Eduardo Borba, falou da diferença dos cowboys californianos e dos texanos. Sendo californiano, como você faz esta leitura. Existe mesmo essa diferença?
Eu adorei a apresentação do Borba. Pelas vezes que foi aos EUA e pelo que estudou, ele tem um ótimo entendimento dos princípios da tradição do vaqueiro. Caso você seja um horseman ou um cowboy nos EUA, posso ver alguém com os cavalos, o formato dos seus chapéus, da capa na calça, o tipo de sela, o comprimento da corda que carregam e dizer que é de algum lugar do país, porque cada parte do país tem seu próprio estilo. Contudo, cada vez mais consigo menos definir isso, porque as pessoas viajam mais, têm muito mais informação disponível e um homem que aprendeu ser cowboy em Nevada, não terá dificuldade de se mudar para o Texas e levar seu estilo. E não é da mesma maneira na América do Sul? Na Argentina, a gente viu os rapazes fazendo demonstração com o cavalo Crioulo e quem olhava para eles, para seus cavalos e equipamentos, sabia de qual parte do país são. E você vai para outro lugar no Brasil, olha a sela, o estilo e eles estão influenciados por outras coisas. Então, eu acho que é verdadeiro no mundo inteiro, diferentes regiões têm um estilo diferente.

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Winters: “Sim, tive o privilégio de montar e viver momentos com Tom Dorrance e Ray Hunt”
Quais as outras referências que ajudaram em sua formação?
Fui influenciado por Ray Hunt e por seu mentor Tom Dorrance. Nos EUA, há quem diga que eles começaram essa revolução do horsemanship. Eu conheci ambos, quando estavam mais velhos e tive o privilégio de montar com eles. E como milhares de outros, eles tiveram uma grande influência sobre mim. Porém, agora eles se foram e apesar de muitas pessoas nos EUA saberem seus nomes, tem cada vez menos pessoas que podem falar: “Sim, eu os conheci, montei com eles!”. Por isso, para mim, foi um privilégio ter passado um pouquinho de tempo com esses dois homens.

Durante sua apresentação, você enfatizou mais de uma vez, que as pessoas que estavam ali não iriam ver um rodeio. Quando algumas pessoas se propõe a fazer uma apresentação de cavalo, talvez não tenha um excesso de tentar transformar aquilo em um espetáculo, em vez de passar informação?
No Congresso, eu não senti isso, mas, na maioria das vezes, as pessoas na plateia, só pela natureza humana, querem ver ação. A gente quer ver. Todos no evento estiveram aqui para educação, então é uma maneira diferente de pensar. Porque se as coisas ficassem muito excitadas, talvez eu não tivesse feito algo certo. Dizendo isso, às vezes, as coisas ficam empolgantes. Não é culpa do meu cavalo, pode não ser nem minha culpa também. Mas, se você assistiu por tempo suficiente, algo pode acontecer. Durante minha demonstração de colocar meu cavalo no trailer, ele ficou um pouco confuso, tentou fugir, acabou enrolando as patas e caiu no chão. As patas foram lá para cima e aí ele pulou de volta para cima. Por alguns segundos foi empolgante. E aí eu disse: “Está tudo bem!”. Fiz carinho nele, falei: “Sem ressentimentos” e continuamos com a lição.

Existem cavalos mais fáceis e mais difíceis. Existem aqueles que são impossíveis?
Não. Você tem razão, há cavalos que são muito fáceis, me fazem pensar que eu sou “Uau”, o melhor treinador de cavalos. E há cavalos que são muito difíceis, “Oh, não consigo treinar nada!”. Às vezes têm cavalos que são tão difíceis, que você pode até pensar: “Sim, ele poderia ser ajudado, mas tenho poucas unidades de vida. Além disso, tenho outros oito cavalos em meu estábulo e preciso seguir em frente. Oh, vamos deixar assim!” (Risos). (Entrevista publicada na edição 86 da Revista Horse)

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Richard Winters

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Há mais de 30 anos como horseman, é dono de títulos do Campeonato Mundial na Cow Horse Association, juiz com classificação AA e detentor de programação no canal 398 chamada Winters Horsemanship

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