30-Dez-2020 11:07
Entrevista

Os desafios e aventuras do "Cavaleiro das Américas"

O jornalista e cavaleiro Filipe Masetti Leite fala como nasceu, se desenvolveu e concretizou o sonho de atravessar continentes a cavalo

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Horse

edição 128, Filipe Masetti, Cavaleiro das Américas, Reprodução
Entrevista está publicada na edição de dezembro da Revista Horse, em circulação nas versões Digital e Impressa Reprodução

A inspiração ele buscou na lendária história do suíço Aimé Félix Tschiffely que, em 1925, montando os Crioulos Mancha e Gato, partiu de Buenos Aires e atravessou 21,5 mil quilômetros até chegar em Nova Iorque, no dia 22 de setembro de 1928. Quase 90 anos depois, o jornalista e cavaleiro Filipe Masetti Leite concretizou o sonho de atravessar as Américas a cavalo.

Na realidade, o sonho do cavaleiro começou aos quatro anos, quando ouvia seu pai, Luis Leite, contar com todos os detalhes a “façanha” do suíço e seus companheiros de jornada Gato e Mancha. Em entrevista à Revista Horse, ele revela como os cavalos entraram em sua vida mesmo antes de nascer, e como foi a realização do seu grande projeto, que virou livro, documentário e em breve estará nas telonas. Confira!

Como começou sua relação com os cavalos?

Desde antes de nascer! Meus pais escolheram meu nome Filipe pelo seu significado, “um amigo dos cavalos”. Antes de poder caminhar com as minhas próprias patas, já estava em cima de um cavalo Quarto de Milha, na sela com meu pai Luis Leite. Mais conhecido como Izo, originário de Espírito Santo do Pinhal (SP), quando jovem, ele montou em touro, bareback, laçava bezerro e fazia apartação. Quando criança, eu queria ser um cowboy como meu pai!

Quanto decidiu em fazer a jornada pelas Américas?

A jornada fazia parte do meu destino. Meu propósito. Quando tinha uns 4 anos de idade, meu pai começou a me contar a história de Lima Tschiffely, Mancha e Gato. O professor suíço, que ao lado dos dois crioulos de Emilio Solanet, cruzou as Américas a cavalo, saindo de Buenos Aires em 1925 e chegando nos Estados Unidos dois anos depois. Essa história deu asas à minha imaginação e se tornou o sonho da minha vida fazer uma cavalgada de longa distância como Tschiffely. No último ano da faculdade, estudei jornalismo em Toronto, no Canadá, graças a uma bolsa, tirei esse sonho de dentro de mim e comecei o planejamento. Se tornou um projeto! 

Como foi o processo de viabilização econômica da viagem?

Antes de sair do Canadá em 2012 para fazer a primeira parte do trajeto (Calgary, Alberta a Barretos-SP) passei dois anos trabalhando dentro do meu quarto de guerra no projeto. Não tinha os cavalos, as selas, o equipamento, dinheiro… Não tinha uma ferradura. Trabalhava em dois empregos para pagar as contas e, à noite, no planejamento estratégico da cavalgada. Dois meses antes de sair, finalmente consegui vender o projeto para uma produtora americana para filmar um documentário para eles e dois ranchos de Montana doaram os cavalos. O Long Riders Guild (Associação de Cavaleiros de Longa Distância) me emprestou o cargueiro e a sela veio da Circulo R Selas.

Que tipo de suporte você contou durante as viagens?

Durante a primeira jornada, do Canadá ao Brasil (2012 - 2014), fiz grande parte do trajeto sozinho com os cavalos. Já a segunda, de Barretos a Ushuaia, Argentina (2016 - 2017) e a terceira, do Alaska a Calgary no Canadá (2019 - 2020) fiz com carro de apoio. Com o suporte, podia carregar água, ração e feno para os animais!

Desde o início já planejou as três fases ou isso foi se desenvolvendo durante o próprio percurso?

Não, meu sonho era viajar do Canadá ao Brasil a cavalo. Quando cheguei a Barretos em 2014, me levaram para conhecer o Hospital de Amor e saí de lá já pensando em como poderia ajudar esse hospital que salva tantas vidas. Decidi cavalgar até o extremo sul do continente para arrecadar fundos para o hospital e alertar as pessoas pelo caminho sobre a importância do diagnóstico precoce. Quando estava chegando a Ushuaia, um ano e três meses depois de sair de Barretos, ficou muito claro para mim que tinha que fazer a terceira e última jornada do Alaska de volta para Calgary, onde tudo começou. Era o que faltava para me tornar o primeiro brasileiro a cruzar as Américas a cavalo.

Em que sua formação de jornalista ajudou em todo esse processo?

Sem a minha formação eu não estaria aqui hoje! Primeiro, paguei o meu sonho graças a minha profissão. Filmei um documentário para uma produtora americana, produzi 6 episódios para o Fantástico da Rede Globo e escrevi matérias para o maior jornal do Canadá, o Toronto Star. Foi com o dinheiro que ganhava desses trabalhos que financiei as jornadas. Minha formação também me ajudou a compartilhar minha história em dois best-sellers em português e inglês Cavaleiro das Américas e Cavaleiro das Américas rumo ao Fim do Mundo. E agora o primeiro livro está sendo adaptado para o Cinema!

Que tipo de informação você procurou antes de encarar o desafio?

Durante os dois anos que passei dentro do meu quarto de guerra fazendo o meu planejamento estratégico para a primeira jornada, não só tinha que conseguir o dinheiro, mas também o “know-how.” Entrei em contato com cavaleiros de longa distância do mundo inteiro como o Pedro Luis de Aguiar (Pedroca) no Brasil, a Americana Bernice Ende, Stan Walchuk no Canadá, entre outros. Li todo tipo de literatura que conseguia encontrar sobre como viajar a cavalo, sempre com a saúde animal em primeira mão. Aprendi muito como o tipo de sela e baixeiro que deveria usar, quantos quilômetros cavalgar por dia e por semana, o que fazer se não encontrasse água para os animais. A terceira parte foi traçar a minha rota e fazer contatos em todos os países que iria atravessar. Fiz isso para as três jornadas.

Quais foram as maiores dificuldades para colocar em prática o projeto?

Conseguir os recursos! A vontade eu tinha. A garra. Perseverança. Horsemanship. Foco. Disciplina… Mas para dar o primeiro passo, precisava de dois cavalos e um pouco de dinheiro. Com 23 anos de idade, quando apresentava o projeto para possíveis patrocinadores, muitos riam da minha cara. Tive que acreditar muito em mim mesmo para não desistir desse sonho “maluco” antes de dar o primeiro passo.

 

 

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