07-Abr-2020 14:35 - Atualizado em 07/04/2020 15:01
Análise

OS IMPACTOS DO CORONAVÍRUS na equinocultura nacional

Veja, com base em estatísticas, quais os setores do segmento que serão mais ou menos afetados pela quarentena imposta pela pandemia

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Edição 122
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Coronavírus
Definitivamente, estamos em guerra com a saúde pública. Isso é fato e não existe como negar. Preciso começar este artigo de forma enfática e direta para chamar a atenção dos leitores sobre a importância do momento. Toda guerra traz percalços imediatos, a médio e longo prazo, em todos os setores da sociedade.

Neste caso específico da guerra ao coronavírus, entretanto, existe um alento muito particular. Trata-se de uma guerra do mundo todo contra um único inimigo e não uma guerra entre dois lados. Por isso, tenha a mais absoluta certeza de  que iremos todos sair vencedores ao final desta batalha. Porém, por mais que tenhamos a certeza de que vamos sair vencedores desta guerra, uma guerra sempre faz “feridos”. No caso específico da equinocultura, vamos

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Artigo publicado na edição 122 da Revista Horsereprodução
tentar elucidar a vocês leitores quais serão os elos mais ou menos afetados por esta guerra.

A equinocultura brasileira é um setor do agronegócio que já foi estudado e mensurado pela CNA – Confederação Nacional da Agricultura em 2006 e depois novamente em 2015. Tive a honra de participar de uma das etapas deste estudo pioneiro. Portanto, nossa reflexão neste artigo são sob sólidas bases de informações e estatísticas.

A indústria da equinocultura brasileira é a somatória de um conjunto de atividades que juntas movimentam R$16 bilhões por ano, geram 600.000 empregos diretos e outros 3.000.000 de empregos indiretos. Somente por esses números iniciais fica claro que seremos sim afetados pela urgência de uma quarentena total como a que estamos vivendo neste momento. Acompanhe no quadro ao lado quais são estes elos, suas composições e importância dentro da equinocultura.

INSUMOS: 6,14%

Este elo da cadeia da equinocultura NÃO vai sofrer quase nenhum impacto, para não falar nenhum impacto! Medicamentos, ração, feno precisam ser dados aos nossos animais por questões de sobrevivência. Os cavalos, foco deste artigo, não se contaminam com o Coronavírus e muito menos são transmissores. Sendo assim, não morrerão seja por contágio direto nem por abates sanitários. Com isso a população de equinos está assegurada, consequentemente o consumo dos itens básicos de alimentação também estão assegurados. Já os seguros por queda da renda em detrimento da paralisação da economia podem, sim, virem a ser afetados. Mas vale uma ressalva neste quesito, que é a peculiaridade dos seguros terem validade anual. Ou seja, eles vencerão ao longo do ano e deverão ser renovados também ao longo do ano. Com isso, pode ser que, sendo breve a paralisação da economia, sejam muito menos afetados do que prevemos neste cenário atual. E para perfeita elucidação, os seguros de equinos de forma isolada, representam apenas 0,03% da equinocultura.

SERVIÇOS: 3,47%

Este elo da cadeia da equinocultura vai SIM sofrer grandes impactos negativos. A quarentena obrigatória não permite que esses profissionais transitem e suas funções ficam impedidas de serem realizadas. Consequentemente, não haverá pagamento dos contratantes. No caso dos veterinários é um pouco menos impactante quando analisamos os atendimentos clínicos de emergência e ligados aos problemas de saúde dos nossos cavalos. Mas todos os atendimentos ligados à assistência reprodutiva por exemplo, ficam comprometidos. Porque não temos serviços de entrega de sêmen (motoboy) funcionando normalmente. As centrais de reprodução estão com seus efetivos reduzidos para transferência de embrião e assim por diante, como em um efeito cascata os serviços vão paralisando de forma orgânica.

ATIVIDADES EQUESTRES: 11,30%

Este elo da cadeia da equinocultura vai SIM sofrer grandes impactos negativos. Todas as atividades equestres culminam em aglomeração de pessoas, exatamente o que está veementemente proibido nesta primeira fase da quarentena e isolamento social que o combate do coronavírus exige.  Somados a isso, este elo da cadeia da equinocultura é o que mais gera empregos diretos e indiretos. Ou seja, se a equinocultura engloba 600.000 empregos diretos e até 3.000.000 de empregos indiretos, com a paralisação das provas, exposições, leilões, turismo a dispensa de funcionários ou simplesmente a não contratação de serviços trarão prejuízos ainda incalculáveis para muitas pessoas.

Apenas gostaria de ressaltar que neste elo da cadeia intitulado Atividades Equestres, os leilões podem ser os menos afetados. Uma vez que a tecnologia para a realização de leilões virtuais seja pela televisão a cabo ou até mesmo pela internet estão muito difundidas e acessíveis para todos os preços. Levando em consideração que quanto mais leilões virtuais fizermos, pior será para os transportadores, locadores de baias, vendedores de serragem, serviços de decoração, buffet e etc. que fazem parte de um evento destas características.

ATIVIDADE MILITAR E ABATE:  2,35% e 1,27% respectivamente

Este elo da cadeia da equinocultura NÃO vai sofrer quase nenhum impacto, para não falar nenhum impacto! Primeiro porque as cavalarias montadas de todo o Brasil servem para manter a ordem e estão nas cláusulas pétreas da Constituição Federal. Segundo, porque o abate de equinos, embora nos deixem muito sensibilizados só de escutarmos falar, é uma demanda mundial e faz parte da segurança alimentar. Estas duas atividades estão garantidas no plano de gestão do combate ao coronavírus.

MODA: 22,76%

Este elo da cadeia da equinocultura vai SIM sofrer grandes impactos negativos. Com todos os shoppings, galerias e comércio não essenciais fechados, as lojas especializadas em vestuário, botas e calçados estão impossibilitadas de fazerem suas vendas. O comércio eletrônico é sim uma grande saída e deve ser trabalhado pelos empresários do setor como uma solução para estes dias difíceis de reclusão social total. Mas o que vai impactar este setor mesmo é a temeridade do desemprego, a queda da renda familiar e, principalmente, a frustração do momento. Não temos que comprar roupa nova se não temos nenhum evento especial para irmos; não precisamos comprar bota, se não temos competição. Não precisamos comprar calçados novos se estamos desempregados ou sem renda. Vale lembrar que este elo da cadeia da equinocultura movimenta 22% dos R$16 bilhões de toda a atividade. Nesta esteira, gera bastante emprego direto nas confecções e fábricas de calçados, bem como nas lojas. Além dos empregos indiretos ligados à realização dos eventos onde este tipo de comércio se concentra.

LIDA: 52,71%

Este elo da cadeia da equinocultura NÃO vai sofrer quase nenhum impacto, para não falar nenhum impacto! Tenha sempre em mente que o cavalo é fundamental na lida com o gado e temos o maior rebanho comercial do mundo. Somos o segundo maior exportador de carne bovina do mundo. As fazendas de pecuária no Brasil, têm se profissionalizado na última década de tal maneira, que os cavalos de lida são criados de forma especializada, tratados e treinados para esta função. Tenha sempre em mente que é possível fazer enduro de carro, moto e até a pé. É possível saltar com varas, apenas com o corpo, de paraquedas e muitas outras maneiras. Podemos apostar corrida de carro, moto, bicicleta, de barco e até a pé. A guarda municipal pode ser feita de carro, moto, bicicleta, helicóptero, por drones até. Mas boiada só se toca com uma boa montaria! Até mesmo quando o boiadeiro resolve vender toda a sua boiada para plantar cana de açúcar, por exemplo, o último animal que sai da fazenda é o cavalo, porque até o último boi ser embarcado precisa haver um cavalo encilhado.

As atividades de pecuária estão continuando normalmente. Primeiro por serem ligadas à alimentação humana e, por isso, gêneros de extrema necessidade. Segundo porque são ao ar livre, de baixíssimo nível de aglomeração, portanto, de risco de contágio praticamente zero.

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MEDIDAS ECONÔMICAS ANUNCIADAS ATÉ O MOMENTO

1-) Linha emergencial de financiamento de R$ 40 bilhões para financiar dois meses de folha de pagamento (dois pagamentos de R$ 20 bilhões, o governo paga R$ 17 bilhões, os bancos pagam R$ 3 bilhões por mês);

1.1-) Empresas elegíveis para a linha emergencial de financiamento: faturamento de R$ 360 mil a R$ 10 milhões por ano;

1.2-) Linha para pagar o salário dos trabalhadores nessas empresas limitado a dois salários mínimos por trabalhador. O valor financiável por trabalhador é até dois salários mínimos. O dinheiro irá direto para a conta do trabalhador. A dívida é da empresa;

1.3-) A empresa que pegar a linha fica obrigada a manter o emprego durante os dois meses de programa;

1.4-) Operações repassadas ao custo do CDI, sem spread (3,75% ao ano);

1.5-) Prazo para pagamento será de 30 meses e a carência de seis meses;

2-) Auxílio mensal de R$ 600,00 por mês para trabalhadores informais durante três meses. A mulher que for mãe e chefe de família poderá receber R$ 1,2 mil.

2.1-) Apenas para trabalhadores informais, desempregados e MEI (Microempresa Individual).

2.2-) Obrigatório, ser pessoa jurídica, estar inscrito no Cadastro Único, para Programas Sociais do Governo Federal até o último dia 20 de março;

2.3-) Renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa, e de até três salários mínimos por família

2.4-) Ter mais de 18 anos de idade e não ter recebido renda tributável acima de R$28.559,70 em 2018.

2.5-) As mulheres que forem chefe de família poderão receber em dobro por mês

(R$ 1.200,00).
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E as medidas, ajudam?

Evidentemente que, com as portas fechadas e os consumidores em casa, não existe faturamento. Se não existe faturamento as contas não são pagas e os empregos não são necessários. Temendo uma crise financeira sem precedentes, os Governos do mundo inteiro têm anunciado pacotes de socorro à economia dos seus países. Aqui no Brasil não tem sido diferente. Na sexta feira, 27/3, foram anunciados dois pacotes de ajuda financeira (Veja quadro).
A princípio, acredito que mais de 90% do setor da equinocultura não seja beneficiado por esse pacote anunciado pelo Governo Federal, embora os juros e o prazo para pagamento sejam bastantes atrativos para o momento. Os motivos para a descrença são os seguintes:
1-) Os haras, em sua grande maioria, são registrados em nome de pessoa física e não jurídica. A informalidade permeia o setor e o faturamento mínimo para adesão ao programa dificilmente será comprovado. Até porque muitos haras não têm faturamento médio mensal e, sim, vendas pontuais e oportunas.

2-) As Hípicas, Centro de Treinamentos, Centrais de Reprodução, lojas de equipamentos, roupas, farmácias veterinárias, entre outros elos, terão maiores oportunidades. Primeiro porque são constituídas por pessoa jurídica, possuem faturamento mensal assegurado por serem prestadores de serviço e comércio de varejo. Mas novamente reforço a questão da informalidade permear o setor e justificar contabilmente um faturamento mínimo mensal de R$ 30.000,00 é um gargalo enorme.
3-) O pacote de R$ 600,00 por mês aos trabalhadores informais, desempregados e mulheres chefe de família, serve até para a massa ligada ao setor da equinocultura, que possa vir a ser demitido nesta fase de incertezas e choque com o confinamento obrigatório. Mas dificilmente servirá para os empresários e investidores que fazem a “máquina girar”.

Conclusões

A pandemia do coronavírus definitivamente frustra a retomada da economia brasileira que estava prevista para algo em torno de 2,0% do PIB em 2020. Evidentemente que refletirá sobre todos os setores e, consequentemente, na equinocultura. O setor de serviços e comércio será duramente afetado nestes próximos 60 a 90 dias, até que o controle do contágio esteja seguro e que as medidas de controle sejam definidas. O avanço do tratamento à base de hidroxicloriquina + Azitromicina e zinco pode encurtar rapidamente o período de quarentena e, consequentemente, as atividades voltarem ao normal com mais tranquilidade, mas isso ainda depende de testes e comprovação científica, ainda sem prazos previstos.
Os cavalos são seres vivos e, como tal, não podem ser “desligados” ou “guardados na garagem”. Precisam ser alimentados diariamente, assim como manterem uma mínima rotina diária de exercícios, cuidados com a saúde e higiene. Portanto, por mais que exista a quarentena, o consumo de alguns serviços, alimentação e insumos de higiene e manutenção se manterá igual.
É preciso que, perante o explanado neste artigo, cada um dos envolvidos identifique-se onde está inserido dentro da indústria da equinocultura e consiga identificar, o mais breve possível, quais serão os impactos positivos e negativos desta quarentena nos seus negócios e atividades profissionais.
Toda crise traz oportunidades. Não procure só os problemas, foque sempre nas possibilidades de expandir, crescer e conquistar.
Por fim, gostaria de deixar uma mensagem. O bem vence sempre o mal. O mal vence por alguns segundos, por alguns dias, por algumas semanas. Mas o bem sempre vence o mal. Não existiria sentido algum para a vida se fosse ao contrário. Nós iremos vencer o coronavírus! Enquanto isso, faça a sua parte; proteja-se! Vamos que vamos! 

Revista Horse
Daniel  Dias

Daniel Dias

é engenheiro agrônomo, sócio diretor da Agronomic Consulting, especializado em Análise de Mercado e Gestão de Empresas. Atua também como Comunicador do Agronegócio com comentários, artigos e palestras nos principais veículos de comunicação e eventos do agronegócio. Titular do Haras Arceburgo, cria cavalos Árabes desde 1989, raça da qual também é juiz oficial. Desenvolve pesquisas e estudos ligados à equinocultura de maneira geral.

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