17-Mar-2020 15:12
Entrevista

Os novos passos da podiatria

O veterinário Marcelo Miranda fala sobre as descobertas e tecnologias que deram novo rumo à podologia

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O médico-veterinário Marcelo Miranda sempre teve um quê de inventor. Ainda na faculdade, chegou a criar um equipamento de filmagem para carros de corrida, uma de suas paixões de infância. Foi ao lado da futura esposa Marcela Martins, entretanto, que descobriu a ideia que determinaria os futuros passos de sua vida: uma palmilha inovadora, capaz de, além de amortecer quase 200 kg/cm, devolver uma parte desta energia em forma de impulso aos cavalos, melhorando diretamente a performance dos cavalos.
A proposta, desenvolvida no Centro de Treinamento da então namorada de faculdade, foi apresentada a Thomaz Montello, um dos mais renomados veterinários de hipismo do mundo, que achou o produto excelente e começou a indicá-lo a clientes de todo o Brasil e no exterior. O próximo passo foi patentear o produto junto ao INP, que recebeu o nome de palmilhas veterinárias ESE- Eliminador de Shock Equestre. Hoje, já são mais de 500 modelos disponíveis para diferentes situações esportivas, preventivas e terapêuticas.
Nesta entrevista, Miranda fala de como chegou à fórmula das palmilhas e como a chamada podiatria - uma variante da podologia - vem interferindo na qualidade de vida e performance de animais, sejam eles de trabalho, passeio ou atletas de alta performance das mais diferentes modalidades. Confira!

O que vem a ser podiatria equina?
A podiatria equina é a ciência veterinária que estuda o dígito do cavalo. Muitos institutos vêm surgindo em todo o mundo, buscando cada vez mais a interação entre os médicos-veterinários e os ferradores profissionais. Com isso, cada vez mais denominam-se podiatras ou podólogos, pessoas que têm como objetivo o cuidado com os cascos dos cavalos.

Como você chegou à fórmula das palmilhas?
No Centro de Treinamento da família da Marcela (esposa), acompanhei e estudei por mais de 10 anos o ferrageamento de 60 a 80 cavalos por mês e comecei a observar as particularidades dos cascos, suas variações em seu formato, influência do meio ambiente, atuação de diferentes ferradores, diferentes ferraduras e o que cada variável produzia nos cascos. Buscava nas literaturas correspondência que justificasse uma determinada alteração no casco ou problema que surgia. Com estas observações, em 2007, comecei a criar o meu próprio caminho de casquear e equilibrar os cascos, que hoje denomino Balanceamento Conformacional.

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Podiatria
O que você conseguiu observar pelas suas pesquisas pelo mundo nesse segmento?
Observei que o ferrageamento de cavalos ainda é muito rústico e conservador. O conhecimento é passado de geração em geração, baseado pela vivência de cada um. Observo que muitas vezes o veterinário e o ferrador não costumam trocar ideias. Um vê o outro como inimigo. Nos EUA, por exemplo, os veterinários observam e atendem os cavalos da coroa do casco para cima, como se os cascos não fossem sua responsabilidade nem tivessem interação com o resto do corpo do cavalo. Vejo ainda uma carência gigantesca de ferradores profissionais em todo o mundo. Faltam profissionais e, principalmente, cursos que realmente preparem o médico-veterinário e o ferrador a atuarem na podiatria. Percebo ainda que a vida útil de trabalho de um ferrador é absolutamente curta, muitas vezes obrigando-o a abandonar o trabalho com 50 anos de idade, devido a gravíssimos e irreparáveis problemas de coluna ou joelho. E o pior: nem existe o reconhecimento pelo Ministério do Trabalho brasileiro e de outros países do ferrador como uma profissão, ou seja, este profissional, quando se machuca, não tem a quem recorrer. Apesar da nobreza e importância do trabalho, muito ainda tem que se profissionalizar e evoluir nesse segmento.


Quais foram os avanços nessa área nos últimos anos?
Na podiatria e no ferragemento de cavalos inúmeras pesquisas vêm sendo realizadas em todo o mundo, a fim de buscar novos modelos de ferraduras compostas de novos materiais que otimizem a performance dos cavalos com menos dano possível. Há muitos estudos com moléculas novas, com o objetivo de buscar a cura ou melhorar o tratamento da laminite, doença grave em equínios e que causa milhões de reais de prejuízo em todo o mundo. Recentemente, um veterinário brasileiro apresentou nos Estados Unidos seus achados em relação ao uso de uma medicação experimental utilizada em transplantes de órgãos e que pode ser a grande esperança para o tratamento da laminite.Novos estudos sobre a biomecânica e os efeitos das ferraduras, produtos para casco a base de kevlar (faz os coletes a prova de bala), adesivos para a fixacão de ferraduras sem cravos e palmilhas amortecedoras são alguns dos exemplos da evolução da podiatria e do ferrageamento. A grande evolução, porém, está no fato de médicos-veterinários e ferradores estarem somando seus conhecimentos e experiências a fim de criarem uma cadeira do conhecimento cada vez mais abrangente em prol da equinocultura mundial.

Qual o maior desafio que enfrenta para difundir a linha de trabalho do Balanceamento Conformacional no Brasil?
O medo da mudança. Estudei e ensina-se até hoje na medicina veterinária que o casco de cavalos adultos não devem ser alterados em seu formato, alinhamento, ângulo ou no seu eixo de suporte de peso, pois, “...pode-se mancar para sempre um cavalo etc etc ... ”. Este é justamente o paradigma que temos que mudar. Quem garante que durante toda a vida de um cavalo, com inúmeras situações patológicas ou fisiológicas, com diferentes ferradores, seja possível se manter sempre as medidas exatas e ângulo de um casco? Impossível! Seria o mesmo que nós cortássemos sempre as nossas unhas no mesmo comprimento. O casco muda seu formato espacial de acordo com o estímulo que recebe, e é justamente o que o Balanceamento Conformacional busca fazer: aplicar o correto estímulo no ponto correto do casco, a fim de buscar um casco mais equilibrado e saudável em relação a estrutura corporal de um determinado cavalo.

Que tipo de animal pode utilizar a técnica do Balanceamento Conformacional que você desenvolveu?
Todo o cavalo que tenha condições articulares e ósseas atestadas radiograficamente em que a giroversão ou o reposionamento do membro em um eixo mais equilibrado de suporte de peso não gere fragmentos ósseos intraarticulares, ou ainda, provoque pressão articular em áreas já com lesões. Outro cuidado ainda deve-se ter em relação aos tecidos moles como as tensões nos ligamentos e tendões.

Quais os distúrbios mais comuns ultimamente observados nos cascos?
Em se tratando do casco propriamente dito, observa-se muito frequentemente a presença de cascos muito pequenos devido a utilização de ferraduras erradas. Outra situações são: cascos “achinelados”, cascos encastelados, cavalos com a sola chata, cavalos com dor no osso navicular. Além disso, vemos muitos danos na parede do casco devido aos cravos, presença de grande quantidade de fungos na parede e podridão ou infecções na ranilha. Em se tratando de balanceamento conformacional, os desvios de membros, as rotaçoes de pinças, baixa performance e as interferências (toque entre os membros) são bastante recorrentes.

É possível corrigir problemas de andaduras pelos cascos?
Sim, sem dúvida e é um dos aspectos mais importante e fascinante da podiatria. Os comentários e observações dos cavaleiros e amazonas confirmam o distúrbio podiátrico e são fundamentais para alcançar o devido ajuste. Cavalos que se alcançam, que tiram o cavaleiro da sela quando galopam e outros que são desconfortáveis em uma mão ou outra são, na verdade, passíveis de correção pelos cascos. Lembro que, se temos a base de suporte e apoio desequilibrado, todo o sistema biológico acima tende a ruir, mais tempo ou menos tempo, semelhante a um edifício que tem suas fundaçoes desalinhadas ou ainda um carro que tenta andar a 110 km/h com cada pneu com uma calibragem. Adicionalmente a isso, membros que rotacionam os casco no ar de maneira desequilibrada, cavalos que param sempre desapoiando um casco, que dão coice quando fazem mudancas ou ainda não fazem mudanças, são outro exemplos onde o ferrageamento e a podiatria podem corrigir.

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Miranda: “o casco muda seu formato espacial de acordo com o estímulo que recebe”
Quanto tempo leva o processo de recuperação?
Varia sempre em relação ao dano provocado no casco e no resto do sistema ósteo articular do cavalo. Muita vezes, com uma correção o cavalo retoma seu equilíbrio e, em alguns casos, como no encastelamento, se faz necessário sete a 10 meses de trabalho para se obter o sucesso do tratamento. Devemos sempre lembrar que devido a resposta proprioceptiva dos equínos, qualquer correção realizada nos cascos demora até sete dias a apresentar seus melhores resultados e alterações desejadas. Os profissionais, proprietários e criadores de cavalos devem entender que o casco de um cavalo adulto cresce em média 10 mm e a paciência é fundamental para algumas condições, bem como, a continuidade do trabalho se faz necessário.

Em que tipo de modalidade a podiatria mais interfere?
Em todas as modalidades, pois o cavalo tem no mover-se uma aptidão e está nos casco a responsabilidade da conversão da energia alimentar e genética em movimento.(Entrevista publicada na edição 63 da Revista Horse)

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Marcelo Miranda

Marcelo Miranda

O veterinário Marcelo Miranda fala sobre as descobertas e tecnologias que deram novo rumo à podologia

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