26-Out-2020 09:05 - Atualizado em 26/10/2020 09:40
Equitação especial

Os princípios básicos da equoterapia

O condutor deve aprender as técnicas necessárias do cavaleiro montado para substituí-las adequadamente no comando pelo chão

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O condutor ou auxiliar-guia, profissional responsável pela condução do cavalo durante uma sessão de Equoterapia, deve dominar os princípios básicos da condução do cavalo pelo chão. Para isso, tem de manter a qualidade do passo em todas as suas variantes de amplitude e frequência e ainda executar todas as mudanças, de andamento ou de direção, de forma correta, respeitando sempre as limitações morfológicas do cavalo e preservando o equilíbrio do praticante, exceto quando este for desestabilizado por uma proposta terapêutica.
Para a execução correta da condução torna-se necessário o desenvolvimento de técnicas específicas, estudo etológico e treinamento. O cavalo deve estar apto a executar com perfeição o passo, engajado, calmo e atento bem como as mudanças de direção e as figuras de pista.

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O posicionamento correto do condutor, respeitando a zona limite, deve ser alinhado às espáduas mantendo apenas uma distância de segurança
O treinamento do cavalo é realizado pelo equitador habilitado, porém o condutor deve aprender as técnicas necessárias para substituir os comandos do cavaleiro montado pelos comandos dados do chão.
Para executar tais comandos com exatidão o condutor deve conhecer o posicionamento e a distância correta para a condução, bem como sincronizar seus passos, manejar as rédeas e a guia (e o chicote) e posteriormente executar as mudanças de direção, de lado, as figuras de pista utilizadas na Equoterapia. Deve também ter conhecimento sobre o uso correto das embocaduras e a linguagem universal das ajudas.
O início de um bom treinamento de condução é entender o comportamento equino, qual o espaço seguro e o limite de pressão, bem como entender as suas reações mais singelas.

Comunicação na condução

O processo de desenvolvimento de uma condução técnica inicia-se, preliminarmente, com uma estruturada relação de comunicação entre homem e cavalo, que se dá por isopraxia e isoestesia.
A isopraxia (ação igual) é a transmissão gestual de um animal para outro. Ela pode ocorrer entre o homem e o cavalo, se o contato entre eles for adequado e agradável e sem interferências estranhas ou inadequadas. Por isso, os movimentos do condutor podem promover movimentos homólogos no cavalo e por isopraxia recíproca, também o cavalo pode transmitir movimentos semelhantes para o condutor.
Entretanto, atividades sincrônicas não ocorrem somente no sistema sensório-gestual, mas também no sistema afetivo. Semelhantes comportamentos emocionais com transmissões bilaterais podem ocorrer entre humanos ou entre humanos e cavalos.
Este fenômeno é chamado: isoestesia (iso: igual e estesia: sensibilidade). Isto é mais bem explicado e entendido quando se observam comportamentos entre crianças e animais ou entre pessoas doentes e que são controladas por sistemas afetivos e por um sistema intelectual imaturo ou pouco desenvolvido.
A utilização lógica de tais recursos determina a base da comunicação, ou seja, se o comportamento daquele que conduz for afoito, brusco ou agressivo, teremos um cavalo de comportamento semelhante e, portanto, inapto ao trabalho de Equoterapia. Contudo, se tivermos um comportamento franco, direto e calmo, teremos um cavalo executando movimentos corretos, tranquilo e flexível.
Na mesma premissa, o andamento do condutor influencia o andamento do cavalo durante a condução. Em um conjunto entrosado, toda vez que o condutor aumentar ou diminuir o ritmo de suas passadas, o cavalo tende a acompanhá-lo.
Para que o entrosamento do conjunto se dê por completo, deve-se entender quais as zonas de espaço que serão ocupadas por cada um, condutor e cavalo, durante a condução.

Respeitando os espaços

Durante o trabalho de solo, o cavalo aceita o homem em seu espaço social interpessoal abrangente e dividem uma mesma zona, pois o cavalo permite proximidade em suas zonas de proteções (flancos e garupa) e o homem permite a proximidade do cavalo ao seu corpo. Membros de ambos chegam a se tocar e, não havendo nenhuma situação de ameaça, o cavalo tende a permanecer próximo.
Já a zona limite ou de pressão varia de cavalo para cavalo, porém todos possuem um limite de proximidade que deve ser respeitado, do contrário, os espaços se tornam insuficientes, com zonas alteradas e, consequentemente, desorganizados e agressivos. O cavalo tende a afastar-se.
O posicionamento correto do condutor, respeitando a zona limite, deve ser alinhado às espáduas mantendo apenas uma distância de segurança evitando ser pisado, sempre pelo lado de dentro da pista.
Utilizando esses conceitos, o condutor pode promover a aproximação do cavalo, assim como aumentar o impulso dos posteriores aproximando-se de seu flanco e colocando-se na sua retaguarda, ou diminuí-los até a parada, colocando-se a sua frente.
Entender a zona social e a limite de cada cavalo, portanto, é fator contribuinte para uma condução bem-sucedida, porém de forma isolada seus efeitos são irrisórios. O sucesso da condução depende também de como manejar a embocadura através das rédeas.

Uso das Rédeas

A condução se estabelece também pelos comandos transmitidos ao cavalo através da “conexão neurofisiológica”, que as embocaduras estabelecem entre as mãos do condutor e a boca do cavalo, órgãos que biologicamente têm fins semelhantes, pois são utilizados na apreensão de alimentos e que, por isso, são bem dotados de coordenação motora fina.

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A rédea conectada entre as mãos sensíveis do condutor e a boca sensível do cavalo é o “fio de conexão” que leva e traz informações do cérebro humano para o do equino
Assim, o uso correto da embocadura vai progressivamente estabelecendo uma série de reflexos condicionados que vão se refinando até que seja possível para o condutor comunicar suas intenções para o cavalo com um mínimo de força física, porém com um máximo de precisão e sutileza.
Quando o cavalo é bem adestrado, o condutor assume o comando das decisões para as mudanças de velocidade e direção com muita facilidade. Ou melhor: a decisão do condutor substitui a do cavalo para acionar o seu sistema reflexo que dará início à cadeia de movimentos.
A rédea conectada entre as mãos sensíveis do condutor e a boca sensível do cavalo é o “fio de conexão” que leva e traz informações do cérebro humano para o do equino e faz o cavalo perceber a indicação dos movimentos desejados.
A rédea permite ao cavaleiro sentir os movimentos horizontais do cavalo – o alongar e o reunir do seu corpo – para que este transmita, com pressões exatas nos momentos certos, os seus comandos de alongamento e reunião em forma de leves contrações dos dedos, sinais que a embocadura retransmite para o cerebelo do cavalo, que o decodifica e ajuda a deflagrar automaticamente a ação reflexa solicitada, e que foi automatizada durante os treinamentos.
Por estas razões, o cavalo não deve ser controlado através da ação bruta da embocadura, porque isto destrói a sensibilidade dos seus terminais nervosos e reduz a sua capacidade de dar respostas reflexas aos comandos do cavaleiro.
Portanto, a ação mais complexa é a de manejar as rédeas do solo simulando o contato de montaria, utilizando apenas uma das mãos em vez das duas. As rédeas devem estar em descanso no pescoço do cavalo enquanto por baixo, estará cruzada nas mãos de forma a permitir que um simples movimento de punho simule uma ação de rédeas convencional.
A mão do condutor que empunhar as rédeas deve respeitar uma distância mínima de 10 cm da parte posterior da face, mantendo o braço em flexão de 90 graus controlando assim o cavalo por completo e promovendo inclusive o engajamento dos posteriores.
A mão oposta deverá segurar a guia de segurança que deve estar presa em anel mediano e mosquetão de giro, deixando folga entre a extremidade presa ao cavalo e a mão do condutor.
O condutor pode contar com o auxílio de um chicote para efetuar eventuais correções e impulsionar o animal. O chicote deve alcançar a ponta das ancas, sendo essa sua medida ideal.
A condução desta forma irá manter o cavalo na frequência e amplitude desejada ao seu passo, engajado e flexível, bem como calmo e atento. Manter essas características depende da lógica geométrica e da preservação dos limites morfológicos do cavalo.
O cavalo não é só conduzido em linha reta e na mesma direção. As figuras de pista do adestramento são utilizadas como recursos terapêuticos bem como as frequentes mudanças de direção.
Ao condutor caberá saber como atuar nessas diferentes ações. Para tanto, o conhecimento das figuras de pista, das mudanças de direção e das transições são primordiais.
Nas mudanças de direção, nos cantos e na execução das figuras, o cavalo deve ajustar a encurvatura de seu corpo à curvatura da linha que ele segue, conservando-se flexível e seguindo as indicações do condutor sem qualquer resistência ou mudança de andadura, de ritmo ou velocidade.
Ao mudar de direção, o condutor deve alterar sua posição mantendo-se sempre do lado interno da pista. Existem duas maneiras viáveis para a mudança de lado do condutor, que deve ocorrer cada vez que o cavalo inverter a mão de direção.
A primeira, com o condutor olhando para frente, no ritmo do cavalo, passa pela frente deste passando a guia de uma mão para outra pelas costas; a outra, também no ritmo do passo do cavalo, o condutor executa um giro ficando de frente ao chanfro do cavalo e completando o giro para o outro lado passando a guia pela frente do corpo.
As mudanças de direção podem ser executadas nas seguintes situações:
• Volta em ângulo reto, incluindo passagem de canto (um quarto de volta de aproximadamente 6 m de diâmetro).
• Diagonal curta e longa.
• Meia voltas e meio círculos, com mudança de mão.
• Laços de serpentina.

Figuras de pista

As figuras de pista quando utilizadas como recurso terapêutico necessitam de estrita correção quanto as suas execuções. São utilizadas basicamente quatro figuras de pista, sendo as Voltas, Círculos, Serpentinas e o Oito de conta.
A Volta (Figura 1) é um círculo de 6, 8 ou 10 metros de diâmetro. Se maior de 10 metros, usa-se o termo Círculo.

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A Serpentina (Figura 2), com vários laços tocando o lado maior do picadeiro, consiste de semicírculos ligados por uma linha reta. Ao cruzar a linha do meio, o cavalo deve estar paralelo ao lado menor. Dependendo do tamanho dos semicírculos, a linha reta que os liga varia de comprimento. Serpentinas com um laço no lado maior do picadeiro são executadas com 5 m ou 10 m de distância da pista. Serpentinas em volta da linha do meio são executadas entre as linhas de quarto.
O Oito de Conta (Figura 3) consiste de duas voltas ou círculos de igual tamanho, como prescrito na reprise que são tangentes no meio do oito. O cavaleiro deve endireitar seu cavalo por um instante, antes de mudar de direção no centro da figura.
O condutor de posse desses conhecimentos estará apto a promover uma condução preservadora das qualidades do movimento e contribuinte das ações multidirecionais exercidas pelo passo do cavalo.
Porém, o trabalho com cavalos e mais especificamente com a Equoterapia deve, além de ser baseado em fundamentos técnico-científicos, fundar-se no amor e respeito pelo animal com o objetivo de promover o desenvolvimento humano. (Artigo publicado na edição 75 da Revista Horse)

Revista Horse
Eduardo Colamarino

Eduardo Colamarino

é membro da Associação Nacional de Equoterapia, membro da CBH, especialista em Equitação para Equoterapia pela UNB, coordenador técnico do Programa Equus
e-mail: [email protected]

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