30-Out-2020 09:53 - Atualizado em 30/10/2020 11:34
Treinamento 

Os três andamentos naturais do cavalo

Ainda me deparo com perguntas que estão intimamente ligadas aos andamentos naturais do cavalo.

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Ainda me deparo com perguntas que estão intimamente ligadas aos andamentos naturais do cavalo. Na última clínica, perguntei a um aluno sobre os tempos do galope, e vi que ele não sabia e justamente por não compreender estes tempos, é que ele não conseguia o entendimento necessário para realizar as mudanças de pé com o seu cavalo.

Pode parecer banal, mas observar a movimentação natural de um cavalo solto em liberdade é uma ótima oportunidade de aprendizado. Entender a mecânica de funcionamento é, no meu ponto de vista, crucial para montar e avançar nos exercícios. Afinal de contas, quanto mais intimidade tivermos com o nosso parceiro, mais facilidade teremos em transmitir o exercício e mais harmonia podemos alcançar.

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Observar a movimentação natural de um cavalo solto em liberdade é uma ótima oportunidade de aprendizado

Sempre que falo nos andamentos me refiro ao passo, trote e galope. Quando há um membro apoiado chamamos de apoio monopodal, o bipodal quando houver dois membros apoiados, seja lateral ou diagonal, e tripodal quando há três membros apoiados (tríplice apoio). Podemos identificar também estes tempos através dos sons emitidos quando os apoios acontecem durante um ciclo de cada andamento. Falando de maneira simplificada, dentro desses três andamentos, iremos considerar mais três variações. Ou seja, ao passo podemos encontrar o passo reunido, médio e alongado. Ao trote e ao galope a mesma coisa: reunido, médio e alongado. Fazendo uma analogia à caixa de marchas de um automóvel, costumo falar com meus alunos que as variantes funcionam como acelerações dentro da mesma “marcha”. Contudo, acelerações (rotações) não significam velocidade e sim amplitudes. Por exemplo: há cavalos que correm no galope alongado e não ampliam as suas passadas. A mesma coisa pode acontecer no trote. Um trote reunido, por exemplo, pode virar facilmente um trote “encurtado”. A reunião não quer dizer encurtamento e sim engajamento e impulsão. É preciso ter cuidado com os termos e com a prática desses exercícios.

O passo é um andamento natural, a quatro tempos iguais. Deve ser simétrico, com intervalos e distâncias iguais. O cavalo deverá estar direito, mantendo sempre uma vontade de avançar e o dorso deve bascular, ou seja, manter-se ativo e flexível. A vontade de avançar não deve comprometer a fluidez e a regularidade. Um passo ativo é diferente de um passo corrido (acelerado), onde o cavalo mostra claros sinais de tensão. É preciso, portanto, ter atenção aos cavalos jovens e não exigir que os mesmos consigam transitar facilmente no início do aprendizado entre o passo reunido, médio e alongado. No dorso do cavalo jovem ainda não há força e flexibilidade suficientemente adquiridas. Deve-se dar o tempo necessário para esta construção e por este motivo é importante que o passo seja livre em cavalos recém–desbastados. Nestes animais a nuca fica relativamente baixa, num equilíbrio horizontal, com uma atitude mais aberta e natural. É preciso buscar a descontração e o relaxamento muscular, desde o antemão até post-mão. O passo é um excelente andamento para o ensino e não costumo passar um exercício para o próximo andamento, neste caso o trote, se o cavalo não estiver realizando com fluidez, primeiramente, ao passo. Ensinar ao passo é muito favorável, pois consigo ter mais acessibilidade mental já que o cavalo tem mais tempo para absorver e assimilar os novos ensinamentos.

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Treinamento 76
O trote é um andamento a dois tempos, em diagonais simétricas, ou seja, com distâncias, amplitudes e gestos iguais entre cada batida. Por exemplo: considerando o anterior direito e posterior esquerdo pousando junto no solo como o primeiro tempo, (diagonal esquerda). No segundo tempo, o anterior esquerdo e o posterior direito pisam juntos (diagonal direita). Um bom trabalho de trote favorece a concentração do cavalo, auxilia a produção da cadência e da regularidade, deve aumentar a amplitude das passadas (sem correr). Para este trabalho deve buscar uma atitude de fluidez, mantendo uma impulsão regular. Para que isso aconteça o cavalo precisa estar em descontração, com a mente aberta e disponível. Muitas vezes percebo que alguns cavaleiros e treinadores confundem impulsão com excesso de pressão ou energia e dessa forma os cavalos entram num estado de tensão, comprimindo a sua musculatura, criando assim um bloqueio no dorso.

Assim sendo, a energia que foi criada faz o trabalho contrário: impede a passagem da impulsão dos posteriores. O cavalo aumenta a velocidade e as passadas tornam-se rápidas e encurtadas. Em geral, o conjunto de frente fica “esmagado”, preso e/ou engravatado e o cavalo pendura-se nas mãos do cavaleiro. O cavaleiro experiente consegue perceber que a atitude da frente reflete diretamente na descontração do dorso. Num bom trabalho de trote o cavaleiro, utilizando corretamente o quadro de ajudas, há ampliação do andamento, o cavalo mostra claramente que está “usando” mais o seu corpo, através de uma ginástica controlada e sistemática. A proposta de exercitar os cavalos é sempre para a promoção de melhorias, tanto físicas quanto psíquicas. O bom cavaleiro já deve ter o conhecimento e a sensibilidade de fazer a leitura corporal do seu animal e através desta leitura, ajustar o treinamento. Lembre-se que um cavalo jovem, em início de treinamento, poderá apresentar irregularidades no trote, principalmente em função do desequilíbrio com o peso do cavaleiro. Nesta fase costumo trabalhar com um equilíbrio mais horizontal, com a nuca mais baixa, natural, deixando que ele busque o centro de equilíbrio que seja mais confortável para ele. Auxilio na busca deste conforto para que ele esteja num estado de descontração e assim regularizar o trote e conseguir trabalhar a musculatura do dorso e rins.

O galope é um andamento a três tempos, que começa com o suporte (apoio) do posterior externo, diagonal e termina com o apoio da mão interna. Como exemplo, considerando que o cavalo está galopando à direita: 1º Tempo – posterior esquerdo; 2º Tempo – diagonal, posterior direito e anterior esquerdo ao mesmo tempo; 3º Tempo – anterior direito.
Cavalos jovens, que não se sustentam por muito tempo, podendo estar desequilibrados e rígidos, nunca deverão ser forçados a se manterem no galope durante a fase inicial do treinamento.

Nesta fase também deve-se evitar curvas fechadas. O cavaleiro deverá trabalhar em linhas retas contínuas ou em círculos grandes, podendo fazer linhas ligeiramente curvas. Alguns cavalos jovens tendem a entrar no galope por si só, geralmente quando estamos trabalhando ao trote. Quando o cavalo toma esta decisão, nesta fase do treinamento, eu permito que ele vá para o galope e depois peço a transição para o trote. Considero benéfico quando o cavalo faz naturalmente as transições crescentes, mas não permito que ele faça por si só as transições decrescentes, já que devemos estimular o desejo de avançar.

Vejo muitas cenas de cavalos com galopes encurtados e rápidos, onde o cavalo geralmente galopa a quatro tempos, com um dorso rígido, tenso e sem vida (que não bascula). O cavaleiro sensível e experiente notará logo que não há comodidade neste tipo de galope, tornando o movimento desconfortável. Este tipo de erro acontece quando os cavalos são forçados à reunião muito cedo. Neste caso o melhor a se fazer é permitir que o cavalo volte ao galope natural, permitindo com que a impulsão se encontre numa sustentação natural. Lembre-se que cavalos jovens não devem ser treinados com a ideia da reunião, pois a reunião é uma consequência natural do desejo de avançar somado às ajudas corretas do cavaleiro, tais como a qualidade das meias-paragens.

Em tempo, parece simples, mas é preciso muito tato para o trabalho ao passo, já que este andamento pode ser facilmente destruído. Já o trote é o andamento que mais podemos aprimorar em um cavalo. Sem dúvida, foi preciso resumir o artigo, assim como tenho feito mensalmente. Uma das coisas mais instigantes da equitação são as infinitas possibilidades que encontramos em cada cavalo. Por isso o estudo e a dedicação são fundamentais! (Artigo publicado na edição 76 da Revista Horse)

Revista Horse
Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

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