22-Nov-2019 17:11
Entrevista

PACCOLA: Por que o Brasil se auto-intitulou o "País do Mormo"

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O médio veterinário Walnei Miguel Paccola, 54 anos, é considerado um dos maiores especialistas em cirurgias em equídeos do Brasil. E não é por acaso. Com 33 anos de atuação profissional, já realizou algo em torno de 4 mil operações só de casos de cólicas. Somados a outras patologias, os números saltam para 7 mil. Grande parte desse trabalho foi realizado à frente do Hospital Equicenter, que comanda desde 1986.

Também em consequência dessa atividade, o hospital, situado à margem da Rodovia Castelo Branco, no Interior de São Paulo, se tornou uma referência nacional para caso crônicos, em especial cólicas equinas. No início deste ano, entretanto, o local acabou sendo interditado pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) sob a suspeita de um caso de Mormo, a doença polêmica que ainda suscita muitas dúvidas sobre a forma como vem sendo tratada no Brasil.

Paccola, como é conhecido no meio, sempre teve opiniões e posições muito contundentes sobre o assunto. Depois de sua experiência pessoal com o ocorrido, se profundou ainda mais no tema, destrinchando os aspectos técnicos, mas sem deixar de lado as questões políticas e econômicas que estão envolvidas. Nesta entrevista exclusiva à Revista Horse, o cirurgião faz uma imersão profunda e traz à tona diversos pontos que merecem ser melhor discutidos por toda a comunidade do cavalo no Brasil. Confira!   

Desde quanto começou a se interessar sobre o Mormo?

O Mormo me assombra por três motivos distintos. No caso das instalações de atendimento, é preciso destacar que muitas emergências chegam sem exames preparatórios, nos tornando vulneráveis. Segundo, porque não escolhemos pacientes. Seria ingenuidade pensar que nunca entrou cavalo com leptospirose, salmonelose, coli patogênica, pseudomonas etc. Estamos numa região de criatórios, portanto, recebemos muitos potros com Rodococcus. Acredito que temos reação cruzada quando falamos de Mormo. A própria Burkholderia até pouco tempo era classificada como Pseudomonas. Como terceiro ponto, de forma mais geral, não acredito na doença Mormo como se apregoa. Desde 2015 venho combatendo ao meu modo.

Como foi o processo de interdição do Equicenter?

Este é um ponto muito delicado. Não me sinto preparado e protegido para expor minhas opiniões. O que posso dizer com segurança é que um hospital, seja de humano ou veterinário, é um local de apoio amplo e irrestrito. Inimaginável você precisar de assistência e ser negada por discriminações de natureza secundárias. O conceito de acolher sempre está na minha essência.  Cabe ao hospital promover ações que neutralizem ou minimizem os riscos inerentes ao ato.  A saber, doenças infecto contagiosas não são as principais patologias dos equinos.  

Que tipo de problema isso lhe acarretou ou acarreta ainda?

Os prejuízos são de várias formas. Concretos ou abstratos. De curto, médio e longo prazo. Imensurável, com reflexos e desmembramentos. Imagine clientes que foram para outros hospitais. A descontinuidade na rotina, começando pelo seu despertador. Receita cessando e custos continuando. Preencher a ociosidade. Acomodar interesses dos clientes envolvidos no seu problema. Ouvindo “um monte” e falando nada. Por traz do Mormo existe um grande tabu e misticismo. Uma cortina de mistério e incertezas. Me senti desprestigiado, desvalorizado e discriminado. Muita coisa que fazíamos perdeu a razão de uma hora para outra. Pra você retomar a rotina e metodologia de trabalho leva tempo. Digo que é dramático para quem está envolvido. Você perde o chão.

Como conseguiu a liberação para voltar a atuar no hospital?

Uma vez interditado passamos a “área de foco”. Nos submeteram a exames seriados. Quase seis meses depois, cumprido a (cruel) legislação, fomos desinterditados.


Até que ponto a interdição o influenciou na forma de entender o que se passa no Brasil hoje com relação ao Mormo?

A interdição é ainda mais cruel e danosa que o abate do cavalo.  Entendo como abusivo e absurdo. Inaceitável num país que se diz democrático. Por ser veterinário e acompanhar a conjuntura nacional, me via como vulnerável. O pesadelo com este cenário sempre me atormentou, portanto, não fiquei espantado pela interdição. Fiquei perplexo pela contextualização de tudo que me envolveu. Passei noites em claro a perguntar o que havia me atropelado. Vejo que mais cedo ou mais tarde o que ocorreu comigo acontecerá com todos que têm trânsito intenso de equinos. Inclusive, sou consciente que continuo vulnerável. Exatamente no mesmo patamar. Ninguém veio até aqui me orientar sobre o que devo ou não devo fazer para que isto não se repita. Ninguém veio até aqui para dizer onde foi que eu errei. O que eu deveria ter feito de diferente. A única palavra nesse sentido foi: “você não pode pegar cavalos suspeitos”. Que ótimo conselho! Vou colocar a sujeira embaixo do tapete e abandonar o juramento que fiz na minha formatura. Pular do barco e desamparar o paciente e o cliente. Deixar que o problema continue apenas longe de mim... Se a legislação continuar, inviabilizará muita coisa e muita gente.

Você também acompanhou outros casos da doença. Poderia falar sobre o que mais lhe chamou a atenção? 

Essa resposta daria um livro!  Vejo três vertentes maiores:  Dano ao cavalo, dano ao criador e dano ao País e equideocultura nacional. Fico perplexo ao ver que o cavalo é quem perde a vida. Simples assim. O criador é quem perde o dinheiro, o próprio cavalo, o sonho, o ideal, a razão, a credibilidade, o chão e o entusiasmo. Fica na humilhante condição de interditado. E à equideocultura nacional, que vem sofrendo baixas consecutivas ao longo dos anos e, agora, recebe mais este tiro de misericórdia. O agronegócio decolando e o cavalo brigando com suas sombras. Nossa ministra Tereza Cristina até tem boa intenção, mas, o que aprece, falta-lhe coragem. Foi buscar arrego na Embrapa, que, com todo respeito, é um ícone mundial do agronegócio, mas não tem tradição, cultura e nem interesse no segmento equestre. Os técnicos da Embrapa foram se unir aos mesmos técnicos do Mapa, que são à favor da industria do Mormo.

Por tudo o que passou e vivenciou, o que pode dizer sobre o Mormo no Brasil hoje?

O Brasil tem postura e legislações diferente do resto do mundo. Nós nos autoproclamamos o “País do Mormo”. Colocamos um selo nos nossos cavalos perante o mundo. O governo terá que se render mais cedo ou mais tarde. O tempo é o senhor das razões e mostrará a verdade, nua e crua. Nesse dia, colocaremos as mãos na cabeça e diremos: “O que fizemos”! Existem inúmeras formas de você refletir sobre o assunto, todos confluindo na mesma conclusão de que não existe a doença Mormo no Brasil como se apregoa. Ao longo dos anos, foram muitos equinos que morreram em centros veterinários. Por que nenhum patologista diagnosticou em laudo, cavalos com Mormo dentre esses óbitos? Por que nenhum ser humano foi registrado com Mormo em todo este tempo? Por que nenhum gato, cão ou outros animais que convivem em haras, nunca tiveram Mormo? Por que somos o único país do mundo a ter essa cruel legislação que busca pelo Mormo? Por que nossos testes não são validados em sua grande maioria? Por que pulamos fases e não promovemos, de forma científica, todos os levantamentos epidemiológicos pertinentes?

Fale um pouco mais sobre essas questões técnicas e de suas experiências práticas

Considere que o sangue do cavalo é o sangue que mais fica exposto em ambiente. Compare: quantas vezes você se contaminou com sangue humano na sua vida toda? Quantas vezes teve contato com sangue de cão ou gato? Quantas vezes você colheu sangue de cavalo para fazer exames de AIE e Mormo e se ensangüentou? Quantos práticos castram cavalos sem luva? Quantas suturas são feitas nos cavalos? E os cavalos do Butantã, que são sangrados rotineiramente? (hoje são realizados exames de Mormo, mas, tempos atrás, não se faziam e esse sangue era transformado em vacinas, soros etc). Veja o contingente de profissionais que lidam de forma intima com equinos diariamente: veterinários à palpar éguas, cavaleiros, ginetes, tratadores, ferreiros etc. Será que pelo menos uma destas pessoas não deveria ter sido infectada? Eu, quando opero cólica, saio todo ensanguentado. Sendo uma grave doença, por que nenhum, enfatizo, nenhum, dos equinos que estiveram no paredão da morte e que foram poupados por sentenças judiciais, adoeceram?  Temos por volta de 100 a 200 equinos nestas condições pelo país afora e nenhum, repito, nenhum, adoeceu. Nenhum apresentou ou apresenta sinais da doença até hoje. Será que todos os casos de Mormo são contaminações recentes, que ainda não deram tempo de manifestar a forma clássica da doença? A retórica é sempre a mesma: mas pode ficar encubado. Mas pode ser portador assintomático. Mas pode demorar pra aparecer os sinais. O fato é que esse “mas” está na maior parte das vezes e o inverso, ainda mais intrigante, nunca ocorre. Ninguém a dizer: “nossa! parecia algo banal e é Mormo comprovado. Deflagrou os sinais clássicos!  Há evidentemente algo de errado. Temos que ajustar nossos olhos e nossa razão pra conseguir enquadrar o diagnóstico ao caso e nunca o caso ao diagnóstico.

Há uma tese defendida por alguns especialistas que diz que não temos Mormo no Brasil. O que acha disso?

O Mormo é uma das doenças mais antigas da humanidade. Dizer que não existe seria loucura. Difícil é diferenciar o joio do trigo. Diferenciar o cavalo que realmente tinha Mormo do cavalo que foi engolido pelo sistema. Existe um abismo separando a doença com o respectivo diagnóstico. Não é exclusividade nacional. Existe muito mistério mundial sobre esse tema. A ciência nos deve muitas respostas nesse sentido. Para fins de compreensão, vejo que o meio acadêmico internacional também anda em descompasso com nosso meio acadêmico brasileiro.Recentemente adquiri um livro sobre patologias de trato respiratório em eqüinos, escrito por autor brasileiro, agora em 2019 e não existe menção ao Mormo no livro! Fato que tudo que se diz na teoria sobre o Mormo, na prática, não se confirma. 

Existe uma outra tese que sugere que talvez estejamos lidando com outro tipo de doença que não seja o Mormo. Como vê essa possibilidade?

Incorremos em dois grandes equívocos. Se não é Mormo, então, o que é? Existe algo que aciona o sistema imune do equino. Ao focar nossa atenção para o Mormo, desviamos dos reais agentes. Super recente é a questão da Burkholderia cepácea sendo isolamento obrigatório em fábrica de alimentos. Ainda é recente e não tenho total compreensão do assunto. Podemos correlacionar com o fato de existirem inúmeras espécies de Burkholderias no ambiente, lembrando que a grande maioria é resistente em ambiente e as duas mais virulentas são sensíveis no ambiente. Entendo que existam vários agentes “impostores” que se confundem com a bactéria do Mormo, além dos complicadores nos testes. Podemos ter desde agentes não patogênicos, até muito mais patogênicos que o próprio Mormo. Ou seja, além do equívoco do Mormo ter várias raízes, vejo que estamos deixando de lado doenças extremamente perigosas, que merecem mais atenção que o próprio Mormo.

Tem alguma pista ou suposição do que poderia ser?

Vejo que temos uma tríade a ser estudada: semelhança genética x semelhança antigênica x semelhança patogênica. Os agentes impostores são semelhantes na carga genética a ponto de confundir o sistema imune, mas não a ponto de ter semelhanças patogênicas. Entendo também que o sistema imune do eqüino é extremamente robusto e responsivo a estímulos. Assim, a falha não está no cavalo nem nos microoganismos. A falha está na soberba humana em adentrar nesse universo maravilhoso que compreende a frenética dinâmica entre o sistema imunológico e o mundo em miniatura dos microrganismos. Decodificar esse universo é inimaginável para nossos dias atuais. A interação desses universos, imunológico e microbiológico, é perfeita demais para nossa compreensão. Tudo muito sincronizado, versátil, harmônico, dinâmico, frenético em alta velocidade.  Estamos falando de bilhões e trilhões de microorganismos e centenas de milhares de atos imunológicos diários que acontecem com qualquer ser vivo imuno competente.

A crítica mais contundente contra o Mormo é sobre a subjetividade dos exames aplicados. Como avalia isso?

Nosso país trabalha com técnicas não validadas pela OIE e isto é gravíssimo. A mesma coisa que tratar de uma doença, com um remédio que ainda não foi devidamente testado e aprovado pela Anvisa. E vou além: mesmo sendo validado, ainda temos que vencer outras barreiras como ajustes laboratoriais, reconhecimento de cepas mundial e regionalmente falando etc. Isto torna o assunto complexo o suficiente a ponto do sistema se perpetuar. Ninguém prova nem “desprova” nada... tudo fica no mesmo lugar. Entendo que o ônus da prova é quem acusa e não de quem se defende.  A diferença que vejo do Brasil com relação a outros países com relação ao Mormo é que, enquanto aqui queremos ter o Mormo, nos outros países eles sabem que não sabem e não querem polemizar o assunto. De forma respeitosa e cuidadosa, protegem o cavalo, o criador e seu país.

Na sua opinião, qual seria o melhor exame para diagnosticar a doença?

Entendo que só existe uma doença infecciosa se existir um agente infeccioso. Para existir o Mormo, tem que existir a Burkholderia mallei. Todo o resto é complemento. É suposição. É recheio do bolo. Este é o verdadeiro “padrão ouro de diagnóstico clássico”: encontrar o agente.  Mesmo sob a alegação que o cavalo é portador é assintomático, ainda não adoeceu, o fato é que o agente infectante tem que ser obrigatoriamente encontrado. Comprovar a existência desse agente é nossa obrigação! Enquanto isso, o cavalo é inocente. Trace um paralelo com um médico humano, infectologista. Note que ele vai te examinar e levantar hipóteses ou suspeitas. Depois dessas suspeitas, é que ele te submeterá aos exames sorológicos. Primeiro a clínica, depois as hipóteses e, por fim, as comprovações através dos exames. Apenas de forma excepcional esta cronologia pode ou deve ser invertida. Via de regra, com algumas doenças virais, como a raiva, ebola, anemia infecciosa equina etc. Com doenças bacterianas, esta dinâmica é bastante complicada de ser aplicada.

Ou seja, todo o processo está invertido?

Sim, exatamente. No caso do Mormo, invertemos as posições para chegar à conclusão. Começamos pelos exames sorológicos para justificar o diagnóstico. Analisando o comportamento das pessoas com relação ao Mormo, podemos notar dois grandes grupos polarizados. O grupo que sustenta a tese que “é Mormo”, formado em na sua maioria por técnicos de laboratório e veterinários que vivem longe dos equinos. E temos o grupo que “não é Mormo”, composto na grande maioria por pessoas que convivem intimamente com cavalos.

O fato de não termos nenhum caso de contaminação em humanos durante todos estes anos de convivência com o suposto Mormo, não é um indicativo que desqualifica a tese da zoonose?

Toda gravidade do tema “Mormo” existe pelo fato de ser zoonose e passar ao ser humano. Este é o ponto de partida para todas as ações e medidas tomadas pelo Mapa, tanto para abater o cavalo dito “doente ou portador”, quanto para interditar propriedades e demais penalizações no meio equestre. Sendo zoonose, o tema deve sair da esfera veterinária e ganhar a esfera humana. Saúde pública e ministério da saúde. Veja que faculdades de medicina e médicos sequer dão importância ao tema. Não existe comprovação da doença no país desde 1960. E vou além: será que tínhamos recursos precisos de diagnóstico naquela época? Fico a perguntar por que o Ministério da Saúde preocupa com sarampo, febre maculosa, brucelose, tuberculose, denge e tantas outras doenças, mas não se preocupa com Mormo? Ao ouvir o áudio de especialista em Mormo no país, que corre nas mídias sociais, ouvirá dele, que a Burkholderia mallei não é tão agressiva; que não matou pessoas e que inclusive pessoas podem sarar espontaneamente após algum tempo. Ou seja, ele minimizou a importância do tema e se contradisse várias vezes.

Acredita que há interesses comerciais por traz das exigências dos exames?

Não me vejo apto a responder, mas basta usar o mesmo critério da “Lava-jato”: siga o dinheiro. Nosso presidente busca por transparências. Por que não aqui? Vejo que o maior dos animais domésticos, mais idolatrado no mundo todo, não pode perder vida sem uma forte razão.

Por que chegamos a esse ponto?

Não queria vincular a um viés político, mas a cultura dos governos anteriores era de estimular a economia, perante o consumo. Criar legislações obrigando gastos e consumo. Coincidência ou não, o aumento de faculdades de veterinária foi assustador nesse período. Hoje temos mais veterinários formando no país do que no resto do planeta juntos. Ou seja, precisa dar emprego pra esse contingente. Entenda que isso é mera suposição minha. Penso que seria uma fonte de renda para laboratórios e profissionais coligados, aquecendo esse nicho de mercado. Ocorre que não anteviram com precisão os efeitos colaterais e impactos negativos dessa medida.

Como vê a atuação do Mapa nessa questão do Mormo?

Nosso atual governo é ótimo. O primeiro escalão do governo, fantástico. Porém, ao descer, a situação complica bastante. Mudar recursos humanos, dinâmica de trabalho, propósitos e conceitos herdados, é árduo e demorado. Da minha parte, tenho a sensação de estar em um dos países menos livres do planeta. Você não pode andar até a esquina da sua casa, se não estiver em conformidade com a legislação. O Mapa precisa rever seus conceitos. Precisa ter uma política mais educativa e menos punitiva. Hoje, entendo que a legislação e a burocracia são extremamente danosos à equideocultura. Pra você levar seu cavalo daqui pra ali, é um “parto”. Tem que fazer exames, guias, etc. Sempre muito complicado. Em outros países, você coloca seu cavalo no trailer, sai passear, competir, almoçar em restaurante, comprar na rodovia etc. Ou seja, esta forma de entretenimento de finais de semana nos outros países, para nós aqui no Brasil é um pesadelo.

Estamos vivendo um estado de medo constante?

Tire suas conclusões: mês passado fui chamado para examinar cavalo com corrimento nasal, não grave, mas crônico e refratário. Estávamos nas tratativas de valores e alinhamento do proposto quando a veterinária ligou: “olha, desculpe, mas o proprietário não quer se identificar e preferiu sacrificar o cavalo, pois não quer arriscar com exames e demais problemas que podem advir que sabemos, podem ser complicados”. Tentei de toda forma mostrar que não deveriam agir assim. O cavalo foi sacrificado. Não sei quem são. Veja a que ponto chegamos e a forma que o criador encontrou para se defender desse cruel sistema, repito, digno de ditadura. Portanto, respondendo sua pergunta: ou o MAPA revê sua postura, ou vamos todos para o buraco. Uma questão de tempo...

Como o assunto Mormo vem sendo tratado dentro do segmento veterinários de equídeos?

De forma polêmica. Emblemática. Polarizada. Muito triste ver nossa classe se degladiando sem conhecimento de causa.

Como vê a atuação da Abraveq (Associação Brasileira de Veterinários de Equídeos) sobre a questão?

Respeito nossa classe e nossos órgãos oficiais, mas vejo-os omissos. Reticentes em ouvir o outro lado dessa mesma história. Não oferecem espaço para o contraditório. Existem pessoas compromissadas com o cavalo e existem pessoas compromissadas com a doença do cavalo. Vejo que um órgão científico e com fundo técnico tem que, obrigatoriamente, dar ouvidos a todos os lados possíveis de um mesmo tema. Exemplificando, vejo uma corrente crescente a dizer por décadas sobre ferrageamento e correção de aprumos e não vejo ninguém se levantar para debater o inverso. Os malefícios dos procedimentos e da artificialização. Ninguém fazendo contraponto deste e de inúmeras outras situações que, ao meu ver, mereceriam detalhamentos.

E dos criadores de cavalos?  

Diz o ditado: “Você só aprende a montar, depois que cair do cavalo”. O criador que ainda não passou por este drama, não entende. Temos uma anarquia generalizada no quesito “propósito do criador”. Alguns pararam de criar. Muitos desaceleraram com medo dos possíveis prejuízos. Outros mudaram de país. Outros, por enquanto, nem sabem do que estamos falando. Os criadores mais conscientes estão preocupados e ávidos por esclarecimentos, principalmente no tocante a orientações de condutas. O que devem fazer pra não ter o problema?


Outro problema gerado pelo Mormo foi o fechamento das exportações de equinos. Como vê isso?

Quando o comercio está aquecido, o valor do cavalo aumenta. Sem exportações, sem provas, sem eventos, sem dólar entrando, o mercado restringe ainda mais, com muita oferta e pouca procura. É uma bola de neve. Um efeito dominó.

Com a mudança de governo, vê alguma possibilidade de resolvermos o problema das barreiras sanitárias que o Mormo impõe ao Brasil? 

Nosso 1º escalão do governo é ótimo. Mas, o sistema foi herdado e é retrógrado. A ministra vem buscando melhor compreensão de forma ainda acanhada. Buscou amparo em fontes ineficazes e viciadas. Percebo que a ministra já entendeu que existe “um problema” mas, desconhece a solução. Nosso país é o único país do mundo que fala mal de si mesmo, que dá um tiro no próprio pé, como no caso das queimadas e tantos outros exemplos. Fico perplexo quando percebo que nos autoproclamamos o “País do Mormo” e saímos alardeando mundo afora. Um terrorismo mental disseminado pelo país, com desinformações e fake news.

Falta mais articulação do segmento equestre para tratar essa questão?

Obviamente este é o epicentro. Tudo que envolve o tema cavalo é complexo. Existe um mundo à parte, chamado “Mundo do Cavalo”. Só quem está dentro, sabe do que estou falando. Temos que interligar razão com emoção, dinheiro, caminhos lógicos e ilógicos para muita coisa. Cavalo é um bem para alguns, negócio para outros. Um ente querido. Um material esportivo, um pet, entretenimento, instrumento médico e tantas outras coisas. Este é um dos motivos pelo qual vejo que a Embrapa, com seu corpo científico e racional, não tem o devido discernimento e preparo vocacional para resolver questões ligadas a esse “Mundo do Cavalo”.  

Qual outra alternativa que temos para sair da atual situação?

Sendo médico veterinário, meu mundo se resume em “diagnóstico e tratamento”. Primeiro reconhecer que o problema existe. Depois, reconhecer a falha. Por fim, partir para o tratamento que, no caso, seria manter o que serve e desprezar o que não serve. O Mapa não tem outra opção a não ser criar sistema viável, versátil e dinâmico, que esteja em conformidade com os anseios e necessidades da equideocultura dos tempos modernos.

Mais alguma questão que gostaria de comentar?

Nada na vida é tão ruim que não tire algo bom. Com a interdição percebi que tenho amigos. Reconheci quem está comigo e me segurou de verdade. Se não fosse por amigos e pela instituição da Uniso de Sorocaba, teríamos falido. Nossos amigos de lá, junto com nossos amigos de cá, nos mantiveram em pé. Nossa eterna gratidão ao pessoal da Uniso e meus queridos veterinários e criadores mais próximos, que continuaram acreditando nos nossos serviços. Hoje, vejo que gentileza gera gentileza. Amor gera amor. Carinho gera carinho. Respeito gera respeito. Talvez um dos segredos da vida seja fazer a lição de casa, antes de sair culpando sistemas, governos e situações nas quais nos metemos. “Somos responsáveis pelo que cativamos”. Peço encarecidamente para refletirmos se temos o direito de tirar vidas de cavalos de forma tão efêmera sem a devida convicção.

Revista Horse
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