13-Abr-2020 13:04 - Atualizado em 13/04/2020 13:44
Artigo

PADRÃO TÉCNICO X MERCADO

Uma reflexão sobre o que falta para o Mangalarga conquistar a preferência dos usuários

horse, 2020 on line, Horse digital,
Horse


Em tempos de discussões polarizadas e acaloradas, o segmento equestre também tem as suas. Uma delas foi suscitada durante o programa “Prosa Mangalarga”, realizado nesta quinta-feira (9/4), com uma questão muito instigante para se analisar, de forma racional e eloquente, o momento do mercado de equídeos de andamento marchado, em especial da raça Mangalarga. Em síntese, o centro do debate é o seguinte: vale mais a pena ter um cavalo dentro dos padrões do CDT (Conselho Deliberativo Técnico) ou um que atenda melhor as demandas do mercado?

Antes de tudo, é preciso lembrar que o Brasil é sui generis na criação de cavalos chamados “marchadores”. Nenhum país ou região do mundo tem tantas raças e variedades de andamento desse tipo quanto aqui. Ao todo são pelo menos cinco diferentes com essas características, a saber: Mangalarga Marchador (MM), Mangalarga (Paulista, embora não gostem da terminologia), Campolina, Jumento Pêga e Campeiro, só para citar as oficialmente registradas. Cada uma com a sua peculiaridade de andamento e, dentro da própria raça, algumas variações.

Sem se aprofundar muito nos detalhes técnicos de cada tipo de marcha, podemos dizer que as diferenças são identificadas pelo tipo de dissociação dos membros, tempo de suspensão e o chamado tríplice apoio, este último uma característica comum em todos os animais marchadores. Mas Mangalarga não tem tríplice apoio, dirão alguns. Bem, isso fica para uma outra hora...

Fiquemos, por ora, ao tema central da abordagem, focando na raça Mangalarga, à qual a reflexão se apresenta mais necessária para o momento. Diferente dos Mineiros, que possuem variantes de marcha (Picada e Batida), o Paulista tem apenas uma, conhecida como Marcha Trotada ou, em sua versão mais light, Marcha Progressiva. A tentativa de nova denominação, aliás, surgiu justamente para tentar “amenizar” a leitura do mercado, trocando o “Trotada” (que remete ao trote) por “Progressiva” (que remete a maior rendimento de passada). Na essência, entretanto, trata-se da mesma coisa. O que se sugere, agora, é uma mudança realmente prática, com a flexibilização dos critérios impostos pelo CDT da raça. E é aí que mora o conflito!

Mas o que, de fato, pretende-se mudar? Bem, a resposta é tão subjetiva como os olhares dos juízes que fazem as avaliações em pista. Não por acaso existem tantos questionamentos, discussões e divergências em determinados casos. Tudo está na sutileza dos detalhes, longe da percepção de olhares leigos e destreinados, razão pela qual a questão se restringe a técnicos e especialistas de marcha.

De forma geral, o que se sugere é discutir até que ponto os critérios extremamente técnicos, impostos pelos CDTs, sobreponham-se às qualidades de uma animal com evidente maior conforto de sela. Exemplo: imagine dois animais “A” e “B” com praticamente as mesmas qualidades morfológicas e de andamento. O “A”, entretanto, é mais confortável na sela, porém com “detalhes técnicos” inferiores ao “B”. O “A” é mais cômodo para as “senhoras” montarem, como lembrou o criador de jumentos e muares Martin Frank Herman, na “Prosa Mangalarga”, e atende melhor as demandas do mercado. O “B”, por sua vez, agrada mais os juízes, por evidenciar os critérios técnicos em vigor no padrão da raça. Qual seria a melhor opção?

A questão se faz ainda mais relevante levando-se em consideração a incansável busca da Associação dos Criadores de Cavalo da Raça Mangalarga (ABCCRM) por uma fatia maior do mercado. Com mais de 80 anos de existência, vividas entre altos e baixos, o fato é que a raça vive por um de seus melhores momentos, tanto em sua performance morfológica quanto no andamento. Mesmo assim, ainda convive com muitas dificuldades para ganhar a preferência de usuários de forma geral, justamente por ter a concorrência de uma raça coirmã (ambas vieram na mesma origem) que oferece opções de montarias mais cômodas e com critérios técnicos diferentes.

Antes de qualquer conclusão precipitada, ninguém está propondo em transformar o Mangalarga (Paulista) em um Marchador (Mineiro). Calma lá! A discussão é intramuros e se restringe à uma questão presente em todo mangalarguista: “Por que, com todas as qualidades morfológica e de andamento, o Mangalarga tem dificuldade para ganhar maior projeção entre as preferências dos usuários?” A resposta também vem em forma de outra pergunta: será que não seria o caso de, pelo menos, flexibilizar um pouco mais a leitura rígida dos padrões técnicos, sem alterar a essência, para atingir esse público? Está aí um bom tema para reflexão interna! Fundamental, entretanto, olhar um pouco para fora da “casinha”. Pensem nisso!

VEJA ABAIXO O PROGRAMA "PROSA MANGALARGA" do dia 9/4


Revista Horse
Marcelo Mastrobuono

Marcelo Mastrobuono

jornalista, editor da Revista Horse

Deixe seu Recado