10-Dez-2019 14:39 - Atualizado em 10/12/2019 15:15
Entrevista

Passaporte contra o Mormo

Presidente da Câmara de Equideocultura, José Carlos Pires (Zeca), fala sobre a proposta em  negociação com o MAPA para liberar expotações de equídeos em 2020

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Edição 120
A luta do segmento equestre contra o Mormo e as imposições sanitárias do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para a exportação de equídeos ganhou um reforço que lança uma luz no fim do túnel. Depois de oito anos de controvérsias sobre a efetividade dos exames utilizados, que acabou com a politização do problema e a judicialização de casos, uma série de medidas estão sendo negociadas e podem entrar em vigor ainda este ano.

Quem garante é o novo presidente da Câmara Setorial de Equideocultura, José Carlos Lodi Fragoso Pires, de 29 anos, diretor executivo do Jockey Club de São Paulo. Formado em Administração e filho de uma família com tradição na criação de cavalos de corrida Puro Sangue Inglês (PSI), ele assumiu o cargo para a gestão 2019/20 e vem conseguindo reabrir a interlocução de representantes do setor com o governo. No final de outubro, uma reunião com a Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, definiu alguns pontos que vão ser implantados nos próximos meses, de forma a reabrir o mercado gradativamente.

Nesta entrevista à Horse, Zeca, como é conhecido no meio, dá detalhes do planejamento que está sendo realizado, que inclui a utilização de passaportes dos animais, chips e outra regras que disciplinam e organizam melhor o plantel de equídeos nacional. Também fala das dificuldades do setor e como a reabertura das exportações podem projetar a produção nacional mundo afora. Confira!

Antes de tudo, como é o seu histórico de atividades com o Jockey de SP? 

Comecei no JCSP no final de 2017, primeiro como diretor de Turfe, cuidando da organização e fiscalização das corridas, presidindo a comissão de corridas; das apostas no hipódromo, rede de agências de apostas e demais canais de vendas; pistas de corridas e de treinos; da administração da vila hípica; do hospital veterinário; do laboratório de controle e pesquisa antidopagem; e do centro de treinamento em Campinas. A partir do 3º trimestre de 2018, com a saída do diretor geral e, logo em seguida, do diretor administrativo-financeiro, acabei acumulando também essas funções.

Como foi o processo que o conduziu à presidência da Câmara setorial de equinocultura? 

A partir do início de 2018, passei a frequentar as reuniões como representante do Jockey Club de São Paulo na Câmara. Na última reunião de 2018, um dos itens da pauta era a sucessão da Presidência da Câmara. O então presidente não tinha interesse em continuar. Os demais presentes, não manifestaram interesse em assumir. Com isso, me coloquei a disposição para ser o presidente no biênio 2019/20. Como não houve qualquer objeção, acabei assumindo a presidência a partir dali.

A Câmara tem um histórico de sempre ser presidido para representantes do Jockey. Algum motivo especial para isso?

Os Jockeys Clubes sempre foram, em média, bastante presentes e ativos nas reuniões e de 2011 para cá presidiram a Câmara. De 2011 a 2018, dois representantes do Jockey Club do Rio Grande do Sul estiveram presidindo a Câmara. Não vejo um motivo específico, talvez por conta das apostas hípicas, haja um maior interesse das entidades turfísticas em querer liderar as interlocuções da indústria do cavalo com o governo.

Qual o maior desafio que encontrou à frente Câmara?

Havia um clima bastante hostil entre os técnicos do MAPA e representantes de associações de raças, em especial em relação as diligências que foram ou deveriam ser tomadas no campo sanitário. Outro problema era a falta de uma interlocução única da indústria do cavalo, pois algumas associações, descrentes com a Câmara e ávidas por soluções, acabaram tomando iniciativas individuais isoladas, na esperança de encontrar uma saída. Acho que meu maior mérito foi conseguir unir as principais associações em prol do interesse comum principal, que é a reaberta do mercado de exportação para o cavalo brasileiro.

Como avalia o problema do Mormo no Brasil?

O Mormo é um problema sanitário como outro qualquer, assim como vários outros que existem ou já existiram em outros tipos de animais no Brasil. A questão é como o problema do Mormo foi conduzido. As autoridades, há alguns anos, quando surgiram alguns casos, deram uma dimensão demasiada ao problema, declarando o país endêmico, sem que houvesse um diagnóstico científico seguro e reconhecido internacionalmente. Essa medida precipitada desencadeou uma série de restrições sanitárias mundo afora. As medidas preventivas e corretivas necessárias não foram tomadas na velocidade e/ou eficiência necessárias, o que fez com que as incertezas e a desinformação sobre a doença no país se proliferassem.

Como vê a atuação do Mapa com relação ao Mormo? 

Para comentar a atuação do MAPA é preciso fazer um corte temporal,  que vou chamar de A.T.C. (antes de Tereza Cristina) e D.T.C. (depois de Tereza Cristina). A mudança de postura do corpo técnico está ligada ao direcionamento dado pela ministra e das mudanças internas em cargos chave dentro do ministério. Se antes o Mormo era somente administrado, agora será solucionado. Vejo o MAPA engajado no problema e estudando soluções, ouvindo as associações de cavalos de raça, sempre com o norte de reabrir o mercado de exportação e combater a doença com pesquisa e trabalho científico, até erradicar.

Como planeja enfrentar/conduzir essa questão? 

Precisamos ser práticos, ouvir o que Europa e Ásia esperam de nós, saber as exigências e expectativas que os países desses continentes têm em relação ao controle da doença no País, bem como as exigências sanitárias que serão impostas aos nossos cavalos. A partir daí, MAPA e Associações de raça devem trabalhar em conjunto em torno dessas demandas, sempre reportando os progressos às autoridades sanitárias dos países mais restritivos desses continentes, pavimentando o caminho para a celebração de novos acordos sanitários.

Como vê as críticas sobre a subjetividade dos exames e o que pode ser feito nesse sentido? 

São justas, não faltam exemplos de exames discrepantes nos últimos anos. Nenhum laboratório brasileiro que faz exames de Mormo é reconhecido pela Organização Internacional de Epidemiologia. Isso é um fato. Os exames feitos aqui são reconhecidos somente pelo MAPA, não pela OIE, que só reconhece aqueles feitos em laboratórios de referência internacional. Hoje o MAPA reconhece que há sérios problemas nos exames (e nos laboratórios), tanto que criou recentemente seis linhas de pesquisa diferentes para estudar a doença a fundo e buscar soluções científicas. Vejo o trabalho da dra. Maristela Pituca, do Panaftosa, com bons olhos, acredito que ela vai conseguir validar seu exame Elisa na OIE até 2020. Em paralelo, seria de suma importância que o MAPA ignorasse a pressão que já existe e a que virá dos laboratórios locais e reconhecesse os exames feitos em laboratórios de referência da OIE, até que um exame Elisa brasileiro seja reconhecido na OIE. Os casos judicializados diminuiriam sobremaneira e teríamos mais transparência e confiabilidade no mercado. Montar um laboratório de referência no país ou uma filial de algum laboratório de referência, também são alternativas possíveis, a médio prazo.

Alguns especialistas defendem a tese de que podemos estar tratando de um outro tipo de doença, não o Mormo.

Desconheço essa tese, mas vejo como natural a desconfiança. Acho que a nuvem cinzenta que paira sobre a doença, acaba provocando o surgimento de diferentes teorias.

Quais as propostas de curto prazo para resolver o problema do Mormo no Brasil? 

Venho tendo reuniões e/ou conversas periódicas com o corpo técnico do MAPA, com as associações de raça e com representantes da Federação Equestre Internacional (FEI) no continente. A FEI, por meio do Luiz Roberto Giugni, presidente do Grupo VI (América Latina) e membro do Comitê Executivo da entidade; e do Dr. Thomas Wolff, membro do Comitê Veterinário e responsável técnico pela área na América Latina, tem sido uma grande parceira, fundamental na interlocução com a União Europeia. Por meio dos contatos iniciados em Lima durante os Jogos Pan Americanos, que seguiram em reuniões recentes na Europa, conseguimos chegar nas três principais demandas da UE: identificação do rebanho de cavalos, rastreabilidade dos mesmos e quarentena. Apresentamos ao MAPA soluções para atender a demanda europeia, que seriam: chip (identificação de rebanho), passaporte (rastreabilidade) e uma quarentena privada.

Como planejam fazer a implantação dessas medidas?

Os três seriam bancados pela iniciativa privada, sem um centavo de dinheiro público. O Secretário de Defesa Agropecuária, José Guilherme Leal, e a Ministra Tereza Cristina, já tomaram conhecimento e viram com bons olhos a proposta apresentada em reunião no último dia 29/10 pela Câmara de Equideocultura, representada na reunião por mim e pelo casal Marcelo Baptista e Sophia Oliveira, da Agromaripá e da Associação do Mangalarga Marchador (ABCCMM). Presentes ainda estavam os Deputados Federais Pinheirinho (PP/MG) e João Roma (PRB/BA), que estão nos dando suporte político na matéria. A proposta é de que o MAPA publique uma normativa que tornaria obrigatório o chip e o passaporte para todos os animais de competição do país, independente de raça. O governo enxerga o chip como uma ferramenta importante na identificação dos animais e acho que pode expandir a exigência a todo rebanho, na mesma normativa ou futuramente. O passaporte teria um único modelo para todas as raças, com a logo do MAPA e a capa das respectivas associações, que ficariam responsáveis por sua impressão e gestão. Nele, teremos todo o histórico sanitário do animal, selo de vacinas, locais onde esteve alojado, código de barras do chip – facilitando a identificação em barreiras sanitárias, enfim, todas as informações relacionadas ao cavalo.

E o espaço de quarentena, como será feito isso?

Em local afastado de fazendas e haras, em área urbana, dentro do Jockey Club de São Paulo. Dois picadeiros de padrão olímpico serão construídos para atender a todas as raças e manter os animais de competição em plena atividade, durante o período quarentenário. Teremos em torno de 100 cocheiras para a quarentena, que seguirá modelos internacionais de sucesso, como a de Miami e a do Marrocos. A distância para o aeroporto de Viracopos em Campinas, o principal para voos de carga animal, é de apenas 103km, menos de duas horas de caminhão, viagem curta numa estrada excelente, sem muitas curvas e sem serra.

Tudo vai ser bancado pela iniciativa privada?

O custo do total do chip e do passaporte deve ficar entre R$ 50 e R$ 60, bastante acessível, para que haja uma adesão em massa. O chip é colocado uma vez na vida do cavalo e o passaporte vale por toda vida, é um investimento pontual e único. A quarentena, do projeto a gestão, também será toda bancada pela iniciativa privada. A ministra, que assim como todo governo sofre com a restrição orçamentária, aprovou a ideia de não depender de dinheiro público, colocando-se à disposição para dar continuidade ao projeto, com a ressalva de que é preciso o apoio de todas as associações de raça, para que a iniciativa tenha êxito. Há de ter uma mobilização dos criadores e proprietários de cavalos, em especial de animais de competição, para que seja exigido chip e passaporte nas competições, já em 2020.

Com isso se resolve as restrições internacionais?

Falei bastante da Europa, mas nossa grande oportunidade está nos países asiáticos, em especial os do Oriente Médio e a China. Resolvendo o trânsito com a Europa, que é a mais exigente em sanidade de equídeos, os acordos sanitários com os países asiáticos acontecerão por gravidade. A Ministra já falou sobre a retomada do trânsito de cavalos em viagem recente a Arábia Saudita e ouviu dos árabes a necessidade de um acordo com a UE e de uma quarentena. Se fizermos nossa lição de casa bem feita, até o 2º semestre de 2020 os mercados europeus e asiáticos estarão reabertos para o cavalo brasileiro.

E a médio e longo prazo? 

Após conseguirmos entregar a obrigatoriedade do chip, do passaporte e a quarentena, o passo chave seguinte é um exame de Mormo brasileiro reconhecido internacionalmente. Acredito, como disse em outra resposta, no trabalho do Panaftosa. Quando obtivermos esse exame, podemos iniciar um agressivo plano de erradicação da doença, sem risco de haver os chamados falsos positivos ou de gerar disputas judiciais.

Quando o Brasil estará definitivamente livre do Mormo? 

Acredito que o Brasil vai se livrar dos casos em até dois anos, quando planejamos concluir a última etapa chave de combate à doença, que é o plano de erradicação da mesma. Fiz questão de falar que vai acabar com os casos, porque a doença não deixa de existir e podem, pontualmente, surgir um ou outro caso isolado. Houve um esse ano na Alemanha, em março, sem qualquer impacto no trânsito do país, somente no local e redondezas onde o caso foi identificado. Os EUA convivem com o vírus do oeste do Nilo até hoje, assim como a Austrália com o hendra vírus, mas nem por isso ambos deixam de ter acesso ao mercado global de exportação cavalos.

Quais outras ações que planeja na sua gestão à Frente da Câmara de Equideocultura? 

Uma das minhas grandes preocupações se dá com a capacidade de arrecadação da indústria, hoje limitada, não apenas pelas restrições sanitárias. Os projetos e pesquisas no campo sanitário são fundamentais não apenas para reabrir o mercado, mas para mantê-lo aberto. Acredito que o Turfe tenha uma contribuição grande a oferecer a indústria, com uma nova modalidade de apostas, que tem potencial de gerar recursos suficientes para cobrir anualmente os investimentos na área sanitária. Além disso, pode oferecer uma compensação arrecadatória ao governo importante, para diminuir o imposto de importação e sobre premiações hípicas. Vale lembrar que nossos vizinhos Argentina e Uruguai não taxam os prêmios hípicos dos proprietários locais, a exceção de proprietários estrangeiros, justamente para estimular os esportes equestres.

Dividir a ações entre cavalos de alta performance esportiva dos demais não pode criar uma divisão do setor, considerando que temos cavalos valiosos de raça não propriamente esportiva que também têm interesse no comércio de exportação? 

Gostaria de dizer que todas as raças, ligadas ao cavalo de esporte ou de lazer, seriam contempladas, mas a realidade não é essa. O mesmo vale para estabelecimentos equestres, sejam clubes ou haras, fazendas, ranchos, cabanas, etc. Infelizmente, algumas raças estão mais distantes das exigências sanitárias internacionais do que outras, neste momento. Tudo vai depender da capacidade de adequação que algumas raças terão de passar, da capacidade de mobilização e adesão a essas exigências sanitárias. A proposta é que toda indústria, todas as raças, sejam contempladas, mas não seria inteligente colocar todo mundo no mesmo saco no curto prazo, pois os que tem protocolos sanitários mais sofisticados seriam obrigados a aguardar uma adequação dos demais. Portanto, é necessário fazer uma diferenciação.

O que foi mais difícil nesse processo de articulação com as entidades equestres e na reabertura do diálogo com o Mapa? 

Por ser participativo nas reuniões da Câmara, não foi difícil, após assumir a Presidência, me aproximar das associações e entidades equestres. A principal demanda da indústria é comum a todas as raças, portanto não foi difícil convencê-los de que juntos e articulados temos mais chances de conseguir resultados do que separados e com iniciativas individuais. As associações mais ativas no tema são a do Mangalarga (Marcelo Baptista, Sophia Oliveira e Dra. Patricia Brossi), e do Brasileiro de Hipismo (Luiz Flores), que estão ajudando muito o meu trabalho na Câmara. Não posso deixar de mencionar as associações do cavalo Árabe, com o Luciano Cury e o Rodrigo Forte, e do Quarto-de-milha, dos recém eleitos na ABQM Caco Auricchio e Jonatas Dantas (também do Jockey Club de Sorocaba), com quem também mantenho contato recorrente e estão conosco nessa empreitada pela reabertura do mercado. Sem esquecer evidentemente da nossa grande parceira, a FEI, por meio do Beto Giugni e do Thomas Wolff.

Como diretor do Jockey SP, acredita que a entidade pode ampliar esse papel de articulador das entidades do segmento?

 Uma vez assumido o compromisso de liderar a Câmara, cabe a nós sermos responsáveis por essa articulação, que tem ido bem e apresentado progressos. A ministra tem o problema sanitário dos cavalos como uma de suas prioridades e sabe que para crescer essa cadeia produtiva passa por ele. Ter a quarentena dentro do hipódromo e ampliar o trabalho do Laboratório de Antidoping, hoje o único do país, colocam o Jockey Club de São Paulo na linha de frente e como um dos catalisadores para o crescimento da indústria do cavalo. Resolvido o problema sanitária, vamos colocar o cavalo brasileiro na cesta de produtos agropecuários do país e oferece-lo mundo afora. Para essa expedição ser bem sucedida, faremos um trabalho comercial agressivo, em conjunto com todas as raças, para voltar com força a mercados já atingidos anteriormente e desbravar novos, além de colocar o país como o principal vendedor para a China, dentre os países da América do Sul, no mínimo.

Mais alguma coisa que gostaria de comentar? 

Dizer aos criadores e proprietários de cavalos que a hora de voltar a investir ou de aumentar o investimento, é agora. Com o mercado externo voltando a comprar, tendo a China como carro-chefe, daqui a alguns vão faltar cavalos para vender no Brasil.

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