25-Jul-2016 09:32

Pastejo rotacionado para equinos

O contraponto do Pastejo Rotacionado é o Pastejo Contínuo, onde o responsável pelo manejo vai adequar a carga animal à capacidade produtiva do pasto

O Pastejo Rotacionado é a modalidade de exploração da pastagem onde, para uma carga animal fixa, respeita-se um período de ocupação (PO) seguido de um período de descanso (PD).

O contraponto do Pastejo Rotacionado é o Pastejo Contínuo, onde o responsável pelo manejo vai adequar a carga animal à capacidade produtiva do pasto. No Pastejo Contínuo, os animais permanecem o tempo todo na área, variando o número de animais em relação à produção de massa da forrageira (verão e inverno).

Na Natureza, os herbívoros têm à disposição grande quantidade de área para pastejo, e mesmo assim apresenta uma elevada mobilidade, pastejando diferentes pontos e em grandes rebanhos. É o caso dos gnus, zebras e impalas na África, os caribus e renas no hemisfério norte e núcleos de cavalos e jumentos selvagens espalhados em diferentes reservas ao redor do planeta.

Todos esses animais procedem um “Pastejo Rotacionado” com variáveis lotações, com algumas espécies trabalhando em parceria (associativismo), como ocorre na África.

Assim sendo, zebras preferem pastos mais altos e gnus e gazelas as pastagens em rebrota, formando uma associação seqüencial e simultânea, onde todas as espécies se beneficiam mutuamente, com reflexos positivos para o ambiente forrageiro.

Completam essa magnífica sociedade, o trabalho dos besouros (vira-bosta), térmites (cupins) e anelídeos (minhocas) mineralizando a matéria orgânica dos dejetos, afofando e descompactando o solo.

Ao domesticar as espécies, o homem inicialmente acompanhou as rotas migratórias naturais (nomadismo), posteriormente a posse da terra (obrigou a cercá-la) e cerceando os movimentos dos herbívoros, foi obrigado a aperfeiçoar o Pastejo Rotacionado visando exploração racional da área.

De todos os herbívoros domésticos, o cavalo é aquele que apresenta os piores comportamentos em pastejo, provocando frequentemente mudanças drásticas na comunidade forrageira.

Listaremos a seguir diferentes aspectos desse comportamento e suas conseqüências.

1-    Cavalos são altamente seletivos em pastejo, apreciando sobremaneira as forragens mais tenras e suas folhas mais novas. Exercem uma desfolha enérgica na forragem, pois a motilidade dos lábios prende a forragem com precisão, e a ação dos dentes incisivos superiores e inferiores procedem ao corte rente ao solo. Quanto mais rente for o corte, maior a intensidade da desfolha, e consequentemente maior é o dano à planta forrageira.

É por isso que as melhores pastagens para eqüinos tendem a “gramar” o terreno, ou seja, as espécies apresentam crescimento estolonífero e/ou rizomatoso e a desfolha é menos sentida pela planta.

Ainda assim, se mantivermos os cavalos durante um longo tempo sobre a área de pastagem, haverá uma tendência irreversível de pastejar as áreas de brota, causando mais dano à forrageira, e levando-a ao esgotamento de suas reservas. Essa é a principal razão da não recomendação do Pastejo Contínuo para eqüinos. Mas não é a única.

2-    Cavalos sempre elegem uma fração do piquete para maior intensidade de defecação, e essas áreas são conhecidas tecnicamente como “bosteiros”. Esse comportamento também existe na natureza e é explicado como uma defesa do animal à reinfestação verminótica, uma vez que o “bosteiro” é pouco ou nada pastejado. Então, se o responsável pelo manejo do pasto desconhecer essa particularidade, irá sempre interpretar que há pasto disponível, mas o cavalo exercerá o super-pastejo (comendo a brota da forrageira) longe da área de dejetos. Consequentemente, as áreas sub pastejadas se apresentarão maduras e fibrosas, diminuindo ainda mais o interesse do cavalo

O resultado é um piquete apresentando áreas super e sub-pastejadas, acelerando a degradação do mesmo.

Quanto a um Pastejo Rotacionado ideal, os piquetes têm período de ocupação rápido (no máximo uma semana), seguido do período de descanso, onde existe a  roçada de igualação e adubação  rotineiramente.

A ação da roçadora espalha os montes de fezes, o adubo devolve a fertilidade exportada e o descanso vai mascarar os odores de fezes para o próximo ciclo de pastejo e permitir recuperação da planta forrageira.

A rotina então é a seguinte:

ocupa – descansa – roça – aduba

Também no período de descanso, a não presença de animais permite um controle mais efetivo dos vermes, além de se constituir em uma “janela” para controle de pragas, ervas daninhas e doenças da forrageira.

Nesse período de descanso, ocorrerá a mineralização da matéria orgânica das fezes, tornando-a rica em nutrientes disponíveis e isenta de odor. Cada espécie forrageira tem um período determinado de descanso e atualmente recomenda-se o retorno ao pastejo quando a interceptação luminosa da área atingir 95%.

O maior indicador que o manejo da pastagem está incorreto é a presença visível de áreas sub e super-pastejadas, aliado os “murunduns” característicos da área de defecação. Os “murunduns” refletem a área onde caíram as fezes e que não foi pastejada pelo cavalo. Não havendo período de descanso, roçada e adubação, os “murunduns” vão se caracterizando mais intensos na coloração verde e no desenvolvimento da forragem.

Na Europa e EUA, procede-se o pastejo associado entre cavalos e ruminantes (ovelhas e/ou gado Jersey). Os ruminantes não rejeitam a área de bosteiro (nem os murunduns), consumindo-a normalmente. Como é difícil a inoculação verminótica cruzada, vermes do cavalo ingeridos pelos ruminantes não completam o ciclo.

O contrário também ocorre. Cavalos consomem áreas onde houve dejetos de ruminantes, e pela mesma dificuldade de inoculação cruzada, ambas espécies “limpam” o terreno de vermes.

Para tanto, a relação normalmente utilizada é de 10 éguas: 1 vaca ou 10 éguas: 5 ovelhas.

3-    Cavalos apresentam intensa movimentação nos piquetes. Correr livremente é manifestação de saúde e alegria do eqüino. Excessão feita às éguas nos dois últimos meses de gestação, todas as demais categorias do plantel correm pela pastagem, inclusive éguas recém-paridas acompanhando a movimentação de seus potros. Essa intensa movimentação age de forma deletéria à forrageira, ou como se diz na prática, o “cavalo come com uma boca e quatro cascos”.

A ação nociva dessa movimentação exige uma forrageira vigorosa e agressiva, capaz de regenerar falhas e erosão e isso é devidamente auxiliado pelo descanso e adubação.

4-    Cavalos erroneamente alimentados tendem a permanecer tempo excessivo nos cantos dos piquetes.

Nesse caso é preciso diferenciar a natural permanência relativamente curta causada pela curiosidade do animal ao que está ocorrendo em áreas de outros piquetes, e carreadores daquela onde o excesso é notado facilmente.

Quando o nível de alimentação com concentrados é alto, o excesso de energia causa efeito substituição no regime alimentar do cavalo. Em outras palavras, quanto mais ração fornecida a pasto, menor é o consumo do pasto e maior a permanência nas cantoneiras.

Em haras de PSI é comum o fornecimento excessivo de aveia grão (energia) e nota-se o comportamento de “boi sonso” exibido pelos animais nas quinas dos piquetes. Esse comportamento caracteriza-se por sonolência, aparência cabisbaixa e imobilidade. Recomenda-se então a diminuição do nível energético da dieta, o correto manejo Rotacionado do pasto, e a colocação de “cama de cocheira” in natura (fezes + urina + cama) sem curtir nos cantos do piquete.

O odor dos dejetos vai fazer o cavalo evitar as quinas e a menor energia em ração provocará maior tempo de pastejo na área.

Finalizando, o pastejo rotacionado é fundamental para a mantença do equilíbrio eqüino saudável – pastagem vigorosa.

Somente com a aplicação dos princípios técnicos descritos é possível criar cavalos de alto potencial genético, utilizando pastagens de alto valor nutricional e com sensível redução nos custos.

Claudio Haddad

Claudio Haddad

é Engenheiro Agrônomo, MS Nutrição Animal e Pastagens e Doutor em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-USP. Professor Associado do Departamento de Zootecnia da ESALQ-USP, co-autor do Sistema Brasileiro de Criação de Equinos, autor de diversos livros e publicações, consultor técnico para área de Pastagens e Nutrição de Equinos.

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