10-Ago-2020 09:29
Entrevista

Pequenos animais, grandes negócios

O empresário Guilherme Fernandes diz como transformou a venda de pôneis “pet” em lucro e como pretende inseri-los nas escolas de hipismo infantil

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O jovem empresário Guilherme Antônio Ribeiro Fernandes é o que se pode definir como um empreendedor do meio equestre. Embora venha de uma geração de criadores, vem abrindo o seu próprio caminho e quebrando alguns paradigmas. O principal deles é mostrar que, muito mais do que hobby, criação de cavalos é bom negócio e, nesse ramo, quanto menor, melhor.
Por isso, vem se dedicando à criação de pôneis, dando sequência ao trabalho iniciado por seu avô desde 1967. Hoje, tem um dos maiores plantéis do Brasil, com mais de 500 cabeças criadas a solto em São Lourenço do Sul (RS), a 180 km de Porto Alegre.
Todo o manejo foi planejado para aproveitar a pastagem que sobra da colheita de plantações de arroz e soja da Fazenda Nossa Senhora de Lourdes, o que lhe possibilita uma grande economia. Além disso, Fernandes desenvolveu um sistema de negócio no qual consegue vender animais na desmama e, o melhor, entregar em todos os cantos do Brasil, no serviço chamado de porta-a-porta. “Hoje posso dizer que tenho um negócio rentável”, garante ele.
Nesta entrevista, concedida durante a visita da reportagem da Horse, Fernandes fala sobre sua bem-sucedida trajetória e como pretende ampliar as funções dos pequenos pôneis, com um projeto para introduzi-los nas escolas de hipismo infantil.

Como começou o seu envolvimento com cavalo?
Nossa criação começou em 1967. Meu avô trouxe os animais do Uruguai por puro hobby. Ele tinha uma construtora em Porto Alegre e comprou uma área em Viamão (RS), na qual se dedicou à criação de gado de leite e de corte. Devido a isso, começou a viajar muito para o Uruguai, atrás de gado Jersey e gado Holandês. Em uma ida dessas, conheceu um criatório e fez a importação de sete fêmeas e três reprodutores de pôneis, esse foi o início. Depois meu pai assumiu a fazenda do meu avô e fez outra importação grande, trouxe entre 12 e 15 animais do Uruguai. Em 1979, com meu nascimento, meu pai criou oa marca Garf, com as iniciais do meu nome e começou uma paixão, que hoje é minha também.

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A fazenda em São Lourenço do Sul (RS) conta com 500 animais que vivem soltos e são bem rústicos
Como eram esses pôneis quando ele os trouxe para cá, morfologicamente falando?
O padrão racial dos animais importados do Uruguai não tem nada a ver com o atual padrão racial que existe no Brasil. Eram animais mais grossos, baixos, não eram tão refinados. Tinham mais aptidão para sela. Hoje, nossa raça está muito pequena, não tem mais o mesmo tamanho e força que tinham antigamente. Isso porque, antes o cruzamento da raça era o Shetland, que são animais mais fortes, para tração, que trabalhavam dentro de minas. Nosso animal foi se refinando. Hoje, o pônei brasileiro é um animal extremamente delicado. É um dos pôneis mais perfeitos morfologicamente, porém, perdeu em estrutura, não tendo a mesma ossatura que tinha o pônei Shetland.

Como está formada sua estrutura, quantos animais você tem?
Tenho praticamente 500 animais, em uma propriedade em São Lourenço do Sul (RS), onde meus pais plantam soja e arroz. O grande diferencial que temos é que minha tropa é toda criada a campo. Só prendo meus animais em véspera de exposição. Eles são muito rústicos, resistentes, passam o ano inteiro criados a campo. Não tenho animal em cocheira.

Por que ter um pônei e não um cavalo?
O pai que não tem dinheiro para comprar um cavalo e colocá-lo na hípica, por exemplo, pode comprar um pônei. É um terço do preço de um cavalo, ocupa menos espaço, come menos, é um animal que produz o mesmo efeito equestre, pode ensinar uma criança a entrar no salto e por um custo bem menor. Isso é algo que estamos tentando fazer agora, com a fundação do Pônei Clube. Estamos fazendo uma iniciação das crianças no hipismo, através dos pôneis.
Como está o Projeto do Clube Pônei (RS)?
Estamos começando em parceria com o Haras Lacan, de Porto Alegre que é de propriedade da Tatiana Castro e do Denis Gouvêa, um cavaleiro renomado em termos de Brasil. Temos lá cinco pôneis e aulas semanais com crianças. Está se dando a iniciação no hipismo com esses pôneis.

Qual é a ideia desse projeto?
É entregar animais saltando para outras hípicas do país. Animais mansos e que já saltem, que estejam prontos para o hipismo e aptos para a iniciação de crianças. Compra hoje e amanhã já vai poder dar aula para um jovem e o pônei já estará pronto para isso.

Quanto um pônei pode saltar?
Deve saltar na faixa de 1 metro, mais ou menos. Na Europa, se usa muito pônei para salto. Mas o pônei da Europa é muito diferente do brasileiro. O europeu tem na faixa de 1 metro e 30 centímetros e o pônei hoje do padrão racial da Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Pônei é um animal na faixa de 90 centímetros para baixo. Isso restringe muito o tamanho da criança que vai montar.

Você pensa em importar sêmens de pôneis de uma raça com uma morfologia maior?
Estou pensando seriamente em trazer algum sêmen, ou algum reprodutor da Europa, junto com a Tatiana, para criar um plantel de animais de salto. Acredito muito neste negócio. Acho que esse mercado das hípicas e da iniciação de hipismo é um mercado a parte do que tenho hoje. O negócio do Haras São Rafael é fomentar e divulgar o pônei, através dos meus leilões.

A gente escuta muito falar que pônei é um animal perigoso, que dá coice, morde. Você vende pônei xucro?
Não, eu vendo pônei pet. Acho que o segredo para ter um pônei é quanto mais cedo você começar a mexer com este animal, por ele dentro da sua casa, dentro de seu quintal, melhor é para domar o animal. Pônei tem que ser vendido com quatro, cinco meses, quando está desmamando. Penso que o grande segredo para criar um animal pet é esse, pois facilita, principalmente pelo manejo das crianças. O contato diário é tão bom para criança quanto para o pônei. Ele vai se amansando e a criança propriamente vai vendo como é lidar com um cavalo e adquiri todos os macetes.

Quem hoje pode ter um pônei? Qual é o custo de um pônei e qual é o seu público alvo?
Qualquer criança pode ter um pônei. A pessoa que tiver um quintal, um sítio, uma área de fazenda, pode ter um. Tem muita gente atualmente, que cria o pônei como pet. Esse é o grande diferencial hoje em dia. Você compra um cachorro e muitas vezes o valor é de R$ 3 até R$ 5 mil. Por este mesmo valor pode-se comprar um pônei e ter um no lugar do cachorro. Dá para ter pônei dentro de casa. Tenho fotos de um senhor de Santa Catarina que comprou um pônei e levou para dentro do quintal de casa. Fez uma casinha de boneca e colocou o pônei dentro.

Você vislumbra novos mercados para os Pôneis?
Acredito que temos que tentar achar funções para o pônei. Hoje ele serve para equoterapia, pista, iniciação de crianças no hipismo. Nos Estados Unidos, ele serve como cavalo guia para cegos. Então, estamos tentando achar funções e mais mercado para trabalharmos. Vendo por ano mais de 150 animais, então tenho que buscar sempre novos mercados.

Você vende e entrega em domicílio?
Tenho um “porta-a-porta” que atende todo o Brasil e até o exterior. Hoje, exporto pôneis para Venezuela, Costa do Marfim, Senegal, Angola. O mercado da exportação também está aberto ao pônei. Penso que a melhora do padrão racial no Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul, que é o plantel mais antigo do país, nos permitiu exportar animais.

Como é que conseguiu resolver este problema de logística de entregar pônei no Brasil inteiro, vendendo a preços acessíveis?
Pela amizade que tenho em Uberaba, montei um centro de distribuição nesta cidade. Tenho várias pessoas que mexem com transporte e carrego meus animais para lá. Considero um ponto estratégico de venda a partir de Uberaba, de onde saem minhas entregas. Consigo te entregar um pônei por R$ 500, do Rio Grande do Sul para Goiânia, Brasília. Por R$ 600, entrego um pônei em Natal e por R$ 700, no Tocantins. Quem quiser pode entrar no nosso site www.harassaorafael.com.br e pode comprar um pônei via cartão de crédito. Meu site já tem hoje uma expertise, um e-commerce, para a pessoa comprar o pônei via internet e receber em casa.

Acredita que conseguiu transformar o mercado usando o trocadilho “Pequeno animal em um grande negócio”?
Isso eu tenho certeza. Hoje, tenho um negócio. Pônei é um negócio no qual ganho dinheiro e é no que minha energia está totalmente focada.

O fato de você estar na região Sul te ajudou?
Não, em termos comerciais, afinal estou longe do centro do país, meu maior consumidor. Hoje faço praticamente uma exportação de animais para todo o território nacional.

Acha que dá para usar essa sua fórmula na criação de cavalos?
O criador de cavalo muitas vezes é um profissional liberal, que traz dinheiro de outro segmento para por dentro da atividade. E isso, muitas vezes, até dificulta nosso negócio. Por exemplo, ainda hoje, criador de cavalos não é reconhecido. Se for solicitar um financiamento bancário e dizer que é criador de cavalos, eles não financiam. Faço uma crítica ao sistema. Existe uma dificuldade das pessoas verem a atividade equestre como um meio de faturamento, como um negócio; elas veem como um hobby. Para mim faz muito tempo que não é hobby. Desde que comecei a ganhar dinheiro com isso, meu negócio tem que se sustentar. (Entrevista publicada na edição 68 da Revista Horse)

Revista Horse
Guilherme Fernandes

Guilherme Fernandes

Empreendedor do meio equestre

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