28-Set-2020 11:29 - Atualizado em 28/09/2020 11:54
Crônica

Pitoco

"Pitoco era um cachorrinho que eu ganhei do meu padrinho numa noite de natá...”

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Horse

"Pitoco era um cachorrinho que eu ganhei do meu padrinho numa noite de natá...” Assim começa a poesia escrita por Rolando Boldrin há muito tempo atrás. Faz tanto tempo, mas tanto tempo, que eu era até garoto, devia ter uns 20 anos quando a ouvi pela primeira vez. Ouvi “Pitoco” da boca de Dirceu Guarnieri Junior, um grande veterinário que trabalha com bovinos na região de Itapetininga (SP).

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Cronica 71
Dirceu é destes homens sensíveis, com coração de ouro, que se emociona com as pequenas belezas que este mundo tão besta nos apresenta e que muitos idiotas, como eu, deixam passar como se não fosse nada. Não, não tenho a sensibilidade dos Dirceus. Sempre que o recitava, ele chorava, terminava aos prantos a poesia e fazia muitos chorarem juntos. Eu, na época, ainda não chorava, ou melhor, não me permitia chorar. Hoje, já choro, mas este é um assunto para outra crônica.
Em encontros de turma de Veterinária, em um churrasco ou em uma pingada, não podia faltar a poesia do Pitoco. Talvez já prevíssemos que aqueles momentos de união e amizade eram tão intensos e, ao mesmo tempo, previsivelmente finitos e efêmeros que sofríamos intensamente ao ouvir a estória deste cão e do seu dono-menino. Resumindo a poesia (se é que alguém pode resumir uma poesia): um menino desobedecendo a mãe num dia santo, pega outro rumo com seu cachorrinho, para brincar e matar passarinho. No caminho, eles encontram uma cobra. Pitoco para salvar seu dono se põe a lutar com ela até que é picado e acaba morrendo no colo do seu amigo. Boldrin termina: “E neste mundo tão oco, unde os amigo são pôco, depois que morreu Pitoco, nunca mais tive outro iguá“. É linda a amizade entre este menino e este cão. Emociona. Como é linda a amizade entre o homo sapiens e outro bicho de qualquer espécie. Quando se cria laços, são sublimes, inquebrantáveis, admiráveis, não são?
Veja a ligação entre um peão e seu cavalo. Cumplicidade e confiança total, amizade plena e verdadeira! Nós cavaleiros (embora eu seja um cavaleiro bem café com leite) sabemos o que é “ser amigo” da sua montaria. Como ter um bom resultado em uma prova equestre, seja ela qual for, sem ter uma amizade e ligação forte com seu cavalo? Impossível. Como descrever a confiança que você tem no seu bicho quando no mais impetuoso e insano galope, você, a despeito de todos perigos simplesmente, confia. Vocês curtem o vento, o momento , desdenham o abismo, tão somente porque confiam um no outro. Mas aqui cabe uma reflexão: porque tantos Pitocos passam pela nossa vida, mas são invariavelmente de outra espécie? Meu pai dizia solenemente: “meu filho, não encontrará entre os homens amigos de verdade”. Desejo que o velho Fontana esteja errado, pois continuarei procurando além dos canis e das cocheiras. (Crônica publicada na edição 73 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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