22-Abr-2021 13:58
Treinamento

Preparando para a MUDANÇA DE PÉ

Lembre-se que cavalos jovens não devem ser treinados com a ideia da reunião, pois reunião forçada e prematura produz cavalos sem impulsão

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Ainda há muitas dúvidas quanto à execução correta dos exercícios de mudança de pé. Posso afirmar que a maior parte dos problemas relacionados deve-se à falta de preparação do cavalo, obviamente por equívoco de seu cavaleiro.
É importante lembrar que uma nova lição se desenvolve a partir de outra e que é fundamental respeitar as fases lógicas de treinamento, considerando o limite e o tempo de aprendizado necessários para cada cavalo. Costumo escutar frequentemente o termo “troca de mão”, termo este que não uso visto que a mudança deve sempre vir de trás para frente, iniciando pelos pés e não pelas mãos.
Para iniciarmos o trabalho de mudança de pé, o cavalo deverá cumprir os pré-requisitos:
- Conseguir se autossustentar e manter-se equilibrado durante o galope;
- Ser capaz de realizar fluentemente as transições passo-galope, galope-passo para ambas as mãos;
- Ser capaz de sentir que o cavalo está trabalhando pelo dorso, de maneira elástica e flexível;
- Ser capaz de montar o galope com descontração, impulsão e reunião;
- Realizar os movimentos descritos acima sem gerar bloqueios e tensões.
Lembre-se: cavalos jovens, que não se sustentam por muito tempo, podendo estar desequilibrados e rígidos, nunca deverão ser forçados a se manterem no galope durante a fase inicial do treinamento. Nesta fase também deve-se evitar curvas fechadas e círculos pequenos. Alguns cavalos jovens tendem a entrar no galope por si só, geralmente quando estamos trabalhando ao trote. Quando o cavalo toma esta decisão, nesta fase do treinamento, eu permito que ele vá para o galope e depois peço a transição para o trote. Considero benéfico quando o cavalo faz naturalmente as transições crescentes, mas não permito que ele faça por si só as transições decrescentes, já que devemos estimular o desejo de avançar.
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Uma nova lição se desenvolve a partir de outra e que é fundamental respeitar as fases lógicas de treinamento, considerando o limite e o tempo de aprendizado necessárias para cada cavalo
Quando o cavalo entra no galope no pé errado, o cavaleiro não deverá forçar a troca, mas sim retomar o trote de maneira calma, sem utilizar ajudas enérgicas. Contudo, o galope desunido não deverá ser permitido. Quando isto acontecer, o cavalo deverá ser trazido novamente para o trote com um ritmo moderado e depois ser convidado a partir para o galope novamente. Levando em consideração os cuidados descritos acima o cavaleiro saberá tirar proveito da mecânica do galope, que pode ser bastante útil nos primeiros estágios de treinamento, já que o galope é um andamento que cede os músculos do dorso de maneira mais rápida.
O cavaleiro pode começar a trabalhar a impulsão executando as transições, partindo sempre das mais básicas: as transições do passo para o trote, do trote reunido para o trote de trabalho, do trote de trabalho para o galope. Montar fazendo o cavalo avançar, mantendo o desejo de ir para frente. Cuidado para não confundir desejo de avançar com fazer o cavalo correr (acelerar). Os movimentos devem estar sempre sob o controle do cavaleiro.
O trabalho de transição feito dentro do mesmo andamento, seja ele crescente ou decrescente, precisa de fluência e retidão. O trote de trabalho deverá ser o foco das atenções do cavaleiro, sendo capaz de reuni-lo gradativamente, pois o galope natural será desenvolvido a partir dele. O objetivo é fazer com que o cavalo inicie o galope de maneira calma e fácil, pois através disto conseguiremos desenvolver o galope de trabalho equilibrado.
Uma situação que presencio frequentemente é o encurtamento do galope, pois este andamento é o que mais facilmente leva cavaleiros inexperientes à confusão entre o reunido e o encurtado. Vejo muitas cenas de cavalos com galopes encurtados e rápidos, onde o cavalo geralmente galopa a quatro tempos, com um dorso rígido, tenso e sem vida. O cavaleiro sensível e experiente notará logo que não há comodidade neste tipo de galope, tornando o movimento muito desconfortável. Este tipo de erro acontece quando os cavalos são forçados à reunião muito cedo. Neste caso o melhor a se fazer é permitir que o cavalo volte ao galope natural, permitindo com que a impulsão se encontre numa sustentação natural. Lembre-se que cavalos jovens não devem ser treinados com a ideia da reunião, pois reunião prematura produz cavalos sem impulsão!
Somente depois de construirmos a impulsão que chega pelos posteriores, produzindo um contato seguro com as mãos, num galope natural, bem marcado (ritmo e tempos) e tranquilo, podemos começar o trabalho de reunião. O cavaleiro não deverá usar apenas as suas mãos, utilizando das meias–paradas para fazer com o que o cavalo traga o peso para os seus posteriores, mas também ter um assento macio que se encaixa com o movimento do cavalo. Desse modo será capaz de diminuir as passadas do cavalo sem interferir na qualidade do galope.
É muito importante que toda ajuda com a rédea de restrição seja seguida por outra de ceder. Não podemos falar de impulsão sem contato correto. Mãos rígidas limitam a impulsão, pois impedem os posteriores de avançarem para frente. Um cavalo que está “na embocadura”, mantendo um contato correto, coloca o peso nas mãos do cavaleiro justamente por causa da chegada da impulsão, mas este peso nunca será desconfortável. Já um cavalo “debruçado na embocadura” produz uma sensação de desconforto nos braços e nas mãos do cavaleiro. O contato poderá ser firme, mas nunca duro ou rígido. Ao aumentar a impulsão e a sustentação nos posteriores, o resultado será o aperfeiçoamento da flexibilidade e da habilidade do cavalo assimilar o contato, tornando-se mais suave e cedendo a nuca. Também aprenderá a permanecer reto na pista, tanto nas linhas retas quanto nas curvas.
O cavaleiro deverá aumentar as passadas de maneira gradual, e no momento de reunir, em que solta o seu peso mais atrás da sela, com uma ajuda suave da mão (meias paradas) atento para não perder a impulsão e o cavalo voltar para o trote. Assim vamos construindo a base para o galope reunido. Este trabalho também deverá ser acrescido de momentos de galope livre para frente em linha reta com o intuito de “refrescar” a impulsão e assegurar um contato correto. O contato correto é indispensável para a manutenção de qualquer movimento de reunião!
A impulsão deve passar para a reunião suavemente e sem restrição através do dorso para a mão do cavaleiro, e daí para os posteriores, sempre através de ajudas cooperativas, sensíveis e corretas das mãos, pernas e assento do cavaleiro. Somente dessa forma o peso e o equilíbrio do cavalo serão influenciados, atingindo a tão desejada reunião. As passadas tornam-se mais expressivas e o cavalo mais equilibrado. Assim que a flexibilidade do dorso do cavalo aumenta, a garupa abaixa, e a frente sobe proporcionalmente. Lembre-se que a frente irá subir não somente pelas ajudas de rédeas, mas sim pela encurvatura e abaixamento da garupa. Neste estágio de treinamento o contato e o galão, com os tempos bem definidos, estão sempre visíveis e perceptíveis. Os galões, redondos e fluentes, deverão ser acompanhados por uma nuca que cede através das meias-paradas leves que serão adaptadas conforme o ritmo proposto e o nível em que o cavalo se encontra.
O tempo de trabalho deverá ser aumentado aos poucos, gradativamente. Com paciência e tempo necessários o cavalo deverá ser capaz de sustentar-se em linhas retas e curvas, sem precisar que o cavaleiro fique “empurrando” o cavalo para o movimento. O cavaleiro sentirá o galão chegando embaixo de seu assento e estimulará o movimento do cavalo usando o seu quadril de maneira suave e flexível. Através do correto trabalho do galope o cavaleiro sente em suas mãos a potência da impulsão que vem dos posteriores, e ao mesmo tempo experimenta a suavidade, a liberdade e o agradável balanço de um dorso descontraído, ativo, flexível e repleto de vida e força!
Na próxima coluna falarei sobre a mudança de pé. (Artigo publicado na edição 93 da Revista Horse)

Revista Horse
Ndzinji Pontes

Ndzinji Pontes

Cavaleiro angolano radicado no Brasil, titular da Coudelaria Função em Ibiúna, SP, é um dos mais respeitados treinadores de adestramento do Brasil, recebendo em seu centro de treinamento os mais importantes cavalos da modalidade no Brasil.

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