31-Jul-2020 09:19 - Atualizado em 03/08/2020 18:01
Doma em progresso

Princípios de interação entre cavaleiro e cavalo

Entender a importância e o significado do instinto de autopreservação é o primeiro passo na formação da linguagem entre cavaleiros e cavalos

 

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Toda a sobrevivência do cavalo através dos tempos está ligada diretamente ao seu instinto de autopreservação. Sua principal característica é a capacidade aguçadíssima de diferenciar e reconhecer qualquer tipo de mudança, das mais bruscas às mais sutis, sempre seguidas de respostas rápidas e precisas.

Tendo em vista esse princípio não é difícil compreender que qualquer tipo de distúrbio ou pressão que interrompa a zona de conforto do cavalo vai fazer com que tenha algum tipo de reação.

Esse é um dos motivos pelos quais muitas pessoas acreditam, equivocadamente, que dessensibilizar totalmente o cavalo vai torná-lo completamente seguro. Isso não é uma verdade, porque uma outra característica importante da preservação é estranhar lugares, pessoas e situações diferentes.

Eu, pessoalmente, gosto de usar a preservação a meu favor, seguindo um princípio básico da pressão e alívio. Ou seja, coloco uma determinada pressão em busca de uma resposta correta do meu cavalo, que terá como recompensa um alívio imediato da minha parte.

Pressão

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Vamos usar as rédeas, pernas, assento, postura e a voz para nos comunicarmos com os cavalos
A pressão que estou me referindo é aquela que vem de qualquer ação que possamos produzir quando estamos junto do cavalo ou de todo e qualquer sinal ou ajuda que usamos para controlar seu comportamento.

Refiro-me às ajudas de rédeas, pernas, assento, postura e voz. São esses os elementos que vamos usar para construir uma linguagem específica para conversar com o nosso cavalo. Fazendo uma analogia, podemos dizer que quando vamos aprender uma língua estrangeira, precisamos de um professor que fale devagar e com clareza, fazendo pausas, para que possamos compreender o que está falando.

Assim que desenvolvemos um pouco o nosso ouvido a esses novos sons, ficamos mais familiarizados com a linguagem, e a nossa compreensão vai ficando cada vez mais natural. Com o tempo, começamos a ouvir e compreender certas nuances, entonações e até mesmo algumas palavras sussurradas. Com o cavalo não é muito diferente. Quanto mais vamos deixando claro o significado das nossas ajudas e sinais, mais sutis elas vão ser.

Evidentemente, tudo vai depender de quanto queremos nos desenvolver nessa linguagem. Podemos chegar a níveis incríveis se quisermos. Precisa ficar claro, no entanto, que esse desenvolvimento não é uma mágica que acontece instantaneamente, como muitos que praticam o chamado Horsemanship Natural acreditam que possa acontecer. Educação Equestre & Equitação é uma arte que precisa ser desenvolvida como qualquer outra. No Oriente tem um ditado popular que diz: “você pode até não ser, mas se treinar e se aplicar, poderá vir a ser”.

A resposta correta

A meta da arte de montar a cavalo é atingirmos um nível de comunicação no qual “eu penso e meu cavalo executa”. Para que essa possibilidade possa vir a ser uma realidade, o meu programa precisa começar com o meu treinamento e isso tem tudo a ver com a analogia que fiz a respeito de aprender uma outra língua.

No início, precisamos de um professor, mas depois de um certo tempo o cavalo vai ser o nosso melhor professor. Digo isso porque o desenvolvimento da minha “atenção sobre mim” não é tão simples como pode parecer. Preciso aprender a acreditar que o cavalo é o espelho de mim, percebendo de forma cada vez mais nítida como os meus gestos e movimentos influenciam o comportamento do meu cavalo.

Muitas vezes pergunto aos alunos: qual a ferramenta mais importante do domador? As respostas são as mais variadas, do tipo: as esporas, o freio, o cabresto e por aí vai. Daí explico: a ferramenta mais importante do domador é ele próprio. São as suas formas de se movimentar e se expressar, a sua maneira de pensar o cavalo e o seu controle emocional, que vão determinar a qualidade das suas ajudas e, consequentemente, da sua comunicação.

Por essa razão a “atenção sobre si” é a principal ferramenta do domador e treinador de cavalos. Preciso desenvolver a minha consciência – física, mental e emocional – percebendo que todas as minhas atitudes, gestos e movimentos são absorvidos pelo cavalo. Tanto os bons, quanto os ruins. Estamos falando de um cavaleiro que quer saber como transformar os seus gestos, seus pensamentos e o seu psiquismo em ajudas que o cavalo possa compreender. A meta é sussurrar: ”por favor, responda corretamente a essa pressão”. É evidente que, no início, o cavalo não sabe o que é uma resposta correta. Quando recebe um sinal, sabe que alguma coisa diferente está acontecendo, e reage (se movimenta) de alguma maneira. Com certeza, vai explorar algumas maneiras para sair daquela pressão, no entanto, o cavaleiro precisa continuar oferecendo aquela mesma pressão até que o cavalo se movimente da forma desejada. Assim que o cavalo fizer aquilo que queremos, retribuímos com o alivio imediato. Que quer dizer: “legal que você entendeu, obrigado”.

Reforço positivo

Quando começamos com um pequeno sinal e vamos repetindo-o sempre da mesma maneira, muitas coisas começam a acontecer. A primeira e principal é que vai aprender a responder sem medo, desconfiança, apreensão e preocupação. O cavalo reconhece aquele sinal como a “minha” maneira de me comunicar. Depois, começa a compreender que uma resposta específica lhe traz o alívio. Isto é, compreende que quanto mais rápido dá a resposta, mais rápido chega o alívio. Como já disse algumas vezes, dessa maneira ensinamos o cavalo a procurar pelo alívio. Feito isso, passamos para o refinamento, que falaremos na próxima edição. Até lá! (Artigo publicado na edição 67 da Revista Horse)

Revista Horse
Eduardo Borba

Eduardo Borba

.Eduardo Borba é professor titular do Projeto Doma, em Capivari (SP), e colunista da Horse. E-mail: [email protected]. Site www.doma.com.br

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