19-Mai-2020 12:54
Comportamento

PRINCÍPIOS DO BEM-ESTAR ANIMAL

Como alinhar os interesses respeitando os princípios que regem a vida dos equinos nas atividades do dia a dia – Parte 1

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Respeitar os direitos animais, sem abrir mão dos nossos interesses é o grande desafio equestre de hoje e do futuro.  A solução para esta questão ética, ou para este dilema, nos foi dada pelos pesquisadores da Universidade de Cambridge, Inglaterra, quando elaboraram os cinco princípios, mais conhecidos como cinco liberdades do Bem-estar animal, que são:  1) Livre de fome, de sede e de subnutrição; 2) Livre de dor, de ferimentos e de doenças; 3) Livre de prolongado desconforto (térmico, olfativo, auditivo); 4) Livre de medo e angustia;  5) Livre para manifestar seu comportamento natural.

        Esses geniais princípios são hoje reconhecidos até pela Unesco. Associações de criadores, órgãos de governo e até pessoas isoladamente vêm tentando se adequar a eles. A posse responsável é um longo imperativo. No mundo civilizado maus tratos e abandono são crimes.  Nesta edição vamos abordar o primeiro dos cinco princípios. Embora não pareça, não é raro o desrespeito inconsciente aos dois primeiros aspectos deste princípio. Vejamos um por um.       

Livre de fome

        O proprietário geralmente pensa que o animal dele nunca passa fome, pois está em bom estado ou até um pouco gordo. Mas estar gordo não significa, necessariamente, não passar fome. Não passar fome significa não passar privação de saciar a vontade de comer sempre que ela ocorrer. Esta privação é o que acontece, por exemplo, com animais que dormem em cocheiras. Como passaram o dia pastando, ao final da tarde são recolhidos e alimentados com ração concentrada. Depois vão se alimentar novamente só no outro dia de manhã. Muitas vezes são recolhidos pelas 17h30 e soltos no outro dia pelas 7 ou 8 horas da manhã seguinte. É que o encarregado desta função geralmente segue os horários da legislação trabalhista, a qual prevê não obrigatoriedade de trabalhar mais do que 8 horas/dia. Lembrando que nunca se devem fornecer mais do que 2,5 a 3 kg/vez, a ração concentrada, como o próprio nome indica, tem pouco volume e, portanto, o animal a consome rapidamente. Em média não levam mais do que 30 minutos para ingerirem tudo. Agora, vejamos que ficar sem comer das 18 h até as 7 ou 8 h do outro dia são 11 ou 12 horas em jejum. Para um homem já seria muito, para o cavalo, então, é muito pior. É completamente antinatural, contra as necessidades fisiológicas do cavalo. 

         Pela natureza o cavalo não deve ficar mais do que 6 a 7 horas seguidas sem comer. É assim que ocorre nos cavalos que não vivem confinados, selvagens ou não.  Com pequenas interrupções, pastam praticamente o dia todo e só param mesmo de pastar lá pela meia noite ou mais. E lá pelas 5 ou 6 horas da manhã, quando recém começa a clarear o dia, já estão pastando novamente. 

É que o equino, como animal presa, evoluiu para um estômago pequeno, pois a velocidade era a sua principal defesa se precisasse se afastar de um predador. Consequentemente, não podia ter um estômago grande, como o do bovino, para ficar pesado com alimento ainda não digerido no estômago. O cavalo precisa quase constantemente encher e esvaziar seu considerável pequeno estômago. Desta maneira está sempre relativamente leve e sempre alimentado, com energia aportada, disponível, mas não muito armazenada na forma bruta e primaria dos alimentos ainda não digeridos. Armazenar muito alimento no estomago sem ainda estar digerido levaria a aumento de peso, levaria a menos rapidez e menos resistência na hora de correr para se afastar do perigo.

Vi isso quando estudei os últimos cavalos selvagens de Roraima. Ao detectarem o menor sinal de perigo, primeiro alertavam os demais do grupo, em seguida estrumam rapidamente e só depois, mais leves, começavam a correr sem parar por mais de uma hora. Estratégia de sobrevivência de uma espécie presa, isto é, predada e sem chifres para se defender. Evolutivamente, apostaram mais na agilidade, na velocidade e na resistência como primeira estratégia de sobrevivência.

      Alguns proprietários podem dizer: -- “E daí? Hoje praticamente não há mais predadores de cavalos domésticos!” Pois é, mas o cérebro do cavalo e a fisiologia dele não sabem disso. Seu organismo continua secretando sucos gástricos no estômago para digerir alimentos que devem ser aportados quase constantemente, mas em relativa pequena quantidade de cada vez ou, pelo menos, sem interrupção prolongada. Ficar em jejum por mais de 6 a 7 horas leva à fome e ao surgimento, lento e gradativo, de lesões nas paredes do estomago. O acúmulo de suco gástrico, que é produzido e liberado quase constantemente, quando encontra o estômago vazio, portanto sem ter o que digerir, tende, com o tempo, a corroer as próprias paredes deste compartimento digestivo. Com o passar dos meses e dos anos, estas pequenas corrosões se tornam lesões as quais, por sua vez, se transformam em gastrites e, depois, até em úlceras no estômago. 

São indicativos os altos índices de gastrite e de úlceras no estômago de cavalos quase permanentemente estabulados e alimentados só três a quatro vezes por dia. Isso é muito comum nos jockeys clubes, nos regimentos de cavalaria, nas hípicas. Nesses locais, com alimentação fracionada e intercalada por muitas horas de jejum, a incidência desses problemas de saúde (gastrite e úlcera) é sempre alta e muito maior do que nos cavalos que vivem a campo. E o pior é que o cavalo só demonstra quando o problema já está grave.

        Bem fazem os proprietários que tendo que confinar ou semi-confinar seus animais fornecem, na última refeição do dia, uma grande quantidade de volumoso (verde e/ou feno e/ou cascas de frutas) para que o cavalo fique a digerir alimentos até altas horas da noite. Com isso conseguem diminuir os problemas advindos do estômago vazio por muito tempo seguido.

Livre de sede

        Na mesma condição de semi-estabulação descrita acima, muitos manejos, até por questão de higiene, adotam o critério de fornecer água na cocheira através de um balde cheio, quando o cavalo é recolhido. Tendo que repor a água diariamente, o encarregado é induzido, automaticamente, a limpar balde todos os dias. Coisa que nem sempre acontece se o recipiente de água for fixo na cocheira e menos ainda se tiver bóia de enchimento automático. Mas isso de fornecer água num balde portátil é prevenir uma deficiência de boas práticas de manejo (no caso, a limpeza diária do cocho de água), adotando outra prática que também não é boa. O melhor é o cavalo ter livre acesso à água, em boas condições, sempre que sentir sede. Ele não deve, por conta da possível preguiça do tratador, limpar diariamente o bebedouro, ficar limitado à disponibilidade de apenas um balde de água para toda a noite.

        Façamos uma comparação. Um balde de água para o cavalo é pouco. Corresponderia para nós, aproximadamente, a um copo de água junto ou após termos jantado. Mesmo tendo bebido no jantar ou logo após ele, quantas vezes já nos levantamos no meio da noite para beber mais água? E, no caso do cavalo, se o balde estiver vazio? É sede na certa durante a noite. A água deve estar permanentemente disponível e limpa.  Pensem nessas coisas e até o próximo princípio que será abordado no Bem-estar Animal II.

Revista Horse
Sérgio Lima Beck

Sérgio Lima Beck

é hipólogo e autor dos livros "Manual de Gerenciamento Equestre" e "Marcha: Mitos, Verdades e Outras Coisas". e-mail: [email protected]

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