06-Mar-2020 22:59 - Atualizado em 06/03/2020 23:55
Veterinária

Problemas de aprumos em potros

A chave do sucesso está no reconhecimento precoce e correto do problema e em se trabalhar com um time de profissionais que atuem rapidamente para que possa ser corrigido no menor tempo e com o menor sofrimento possível

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A sensação do criador é sempre de desolação quando ele percebe pela primeira vez que o seu potrinho longamente esperado - que às vezes tem apenas algumas horas de vida – tem os membros “tortos”. Mesmo com todos os avanços da Veterinária atual, o proprietário sempre fica com a garganta seca ao imaginar se esse potrinho conseguirá se corrigir para poder chegar a ser um bom atleta ou uma boa venda.

Deformações angulares e flexurais dos membros são preocupações, mas não necessariamente levam à condenação do potro. Existem inúmeras deformações que podem se apresentar nos potrinhos em várias idades. O mais importante é o reconhecimento do tipo de problema, da gravidade do mesmo, o conhecimento dos períodos de fechamento das placas de crescimento de cada osso envolvido e uma boa noção de que as ajudas corretivas podem colocar stress sobre o resto do

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Potro deitadoNeide Weingrill
membro e principalmente sobre os cascos.

Uma pessoa experiente deve observar o potrinho em pé sobre o piso duro, para que se possa determinar exatamente onde está localizado o desvio e que estruturas são envolvidas. Depois se deve caminhar o potrinho no mesmo piso em linha reta de frente e de costas. Além de observar o alinhamento dos membros, prestar muita atenção em como cada casco se apoia no chão, como o casco deixa o chão e se o movimento do membro no ar é retilíneo. O mais importante é obter uma pisada correta. O potro não deve colocar a lateral externa ou interna do casco no chão antes do resto do casco. Deve pisar apoiando todo o casco no chão. Isso deve acontecer mesmo que os membros sofram de algum desvio. Em potros com problemas, podem ser necessárias correções nos cascos a cada duas a três semanas, uma vez que o desvio vai levar a um desgaste desigual dos cascos.

Anotações/fotos semanais de como o potro está se desenvolvendo são importantes, para que se tenha o comparativo, conforme o tempo for passando. O casqueamento dos potros – tenham nascido bem aprumados ou não - nos primeiros seis meses de idade é de crucial importância e geralmente vai determinar a conformação final dos cascos e membros do potro na vida adulta. Muitos Haras possuem programas de cuidados que integram um time de veterinários e ferradores que trabalham juntos para obter diagnostico rápido, culminando com prognostico e tratamento mais acurados para esses problemas, uma vez que além do casqueamento correcional, a colocação de ferraduras especiais, talas, medicamentos e muitas vezes cirurgias podem ser necessários. Importante frisar que para qualquer cirurgia de correção funcionar, o potro tem que estar com a área em questão ainda em crescimento.

Potros diagnosticados ou suspeitos de algum tipo de problema devem ser avaliados no mínimo uma vez por mês. Uma regra de ouro é jamais deixar o potro muito pesado. Peso extra significa mais pressão nos membros e só piora o problema. Medidas devem ser tomadas, como o uso da biqueira para controlar as mamadas, redução da alimentação da mãe para diminuição da produção de leite e eliminar o acesso do potro ao creep-feeding, caso haja arraçoamento suplementar. Em alguns casos o potro é desmamado precocemente e sua alimentação controlada. Muitos problemas sutis podem ser detectados cedo e imediatamente corrigidos, levando ao aumento do potencial atlético do animal e à valorização do mesmo.

Do nascimento a 1 mês de idade:

O potro nasce com os cascos envoltos em uma membrana gelatinosa que protege a pelve da mãe dos cascos do potro ao

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nascer. Assim que o potro começa a caminhar, essa membrana se solta e os cascos adquirem um formato “pontudo”. Nessa fase o casco cresce em comprimento e também se expande lateralmente. Em potros com conformação aceitável, há pouco a se fazer nessa época.

1 mês de idade:

Essa é a idade do primeiro casqueamento de rotina. Geralmente a única ação tomada é deixar o casco mais “quadrado” para encorajar o potro a pisar com o centro do casco no chão, retirando o aspecto “pontudo” do casco.

2 meses em diante:

A partir daí o ideal é que o casqueamento seja feito apenas na base da grosa e a idéia é manter todas as estruturas da base do casco apoiadas igualmente no solo para sustentar o peso do potro. A manutenção de cascos normais deve ser feita mensalmente.

Algumas deformidades podem ser corrigidas apenas com casqueamento, mas outras requerem tratamento bem mais agressivo. Os proprietários querem vender potros perfeitos e querem correções instantâneas. Entretanto os tratamentos apenas influenciam as placas de crescimento dos ossos dos membros dos potros a assumir uma conformação mais sadia, e isso não acontece da noite para o dia. Pode levar muitos meses. Correção de potros requer muita paciência. Vamos discutir aqui os problemas mais comuns:

Desvios ANGULARES

São os desvios de alinhamento para fora (varus ou “cambaio”) ou para dentro ( valgo ou membro em “X”) a partir das articulações dos joelhos, jarretes ou boletos. Como o potro cresce muito rapidamente e o peso vai aumentando sobre os membros, os desvios podem piorar muito rápido se não forem controlados. Muitas vezes é necessário acompanhamento radiológico para a confirmação do grau do desvio e como o tratamento está evoluindo.

O desvio valgo, em grau leve, é completamente normal em potros bem jovens. Antes de 90 dias de vida não se deve tomar maiores medidas porque a maioria destes potros se corrige sozinha. Se houver uma correção sem necessidade, o membro acaba desviado para fora (varus). Geralmente, em casos um pouco mais graves, basta restrição de exercício e casqueamento corretivo que o desvio logo se corrige – quando o potro corre e joga o peso nos membros desviados, há uma pressão assimétrica sobre os membros, geralmente piorando a condição – dai a importância do controle da correria nos grandes piquetes. Em casos de desvios importantes, podem ser aplicadas extensões mediais nos cascos (apenas depois dos 20 dias de vida), a ativação da placa de crescimento que está menor com aplicação local de produtos revulsivos e em ultimo caso recorre-se à cirurgia. De qualquer maneira cirurgias visando correção de joelhos e jarretes devem ser procedidas antes dos 6 meses de vida por conta do fechamento das placas de crescimento destas áreas, uma vez que não há como corrigir uma área que não cresce mais. Estatisticamente 90% dos potros valgos se autocorrigem aos 10-18 meses de vida.

O desvio varus (cambaio) é raro nos joelhos, aparecem medianamente nos jarretes, mas são muito mais comuns nos boletos. Quando acontece, deve ser levado bem mais a sério que o desvio valgo. Não existe autocorreção. Nesse caso, o casqueamento corretivo, tratamentos com revulsivos e o posicionamento de extensões laterais nos cascos devem ser procedidos rapidamente, porque as placas de crescimento das quartelas se fecham aos três meses de idade. Qualquer cirurgia também só pode ser feita nesta “janela” de crescimento. Quanto antes o tratamento iniciar, mais tempo se tem para trabalhar.

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Desvios ROTACIONAIS

As rotações são muito diferentes dos problemas anteriores. Nesse caso todo o membro anterior está girado para fora. Existem alterações nas ligações musculares, além do alinhamento ósseo. O membro anterior do equino é unido ao tórax apenas por músculos, não há nenhum osso. Se o codilho do potro for puxado para fora, o membro vai se posicionar corretamente. Esse tipo de desvio não pode ser corrigido com casqueamento. Como o membro todo está girado para fora, o casqueamento corretivo, tentando jogar o casco para dentro, vai criar um desequilíbrio e alterar toda a estrutura articular do membro. Nestes casos, 95% dos potros se corrigem sem qualquer tratamento quando o peito começa a se desenvolver. O crescimento da musculatura do peito empurra o codilho naturalmente para fora e o membro se posiciona corretamente. Naturalmente isso acontece mais rápido nos machos que nas fêmeas.

Desvios AXIAIS

Acontece quando os ossos dos membros parecem estar fora de alinhamento. A linha média do joelho está paralela à linha da canela e não no mesmo alinhamento. Este tipo de desvio geralmente é associado com problemas nos joelhos. Não há como corrigir esse tipo de problema.

Deformidades FLEXURAIS

São as que atingem os tendões dos potrinhos e podem aparecer tanto nos anteriores quanto nos posteriores. O prognostico varia se as deformidades são congênitas ou adquiridas. No caso das congênitas: mau posicionamento do feto dentro do útero, ingestão de certas toxinas pela mãe, problemas de tireoide da mãe e o mais comum - éguas supernutridas e obesas na hora do parto são os fatores mais conhecidos. No caso das deformidades adquiridas, os animais mais acometidos são os que têm rápida taxa de crescimento e potros que ao desmamar são submetidos a rações com nível muito alto de carboidratos (não de proteínas, como antigamente se acreditava).

Tendões Contraídos

Esse problema pode atingir os tendões flexores profundos ou superficiais, e cada um apresenta um quadro diferente.

Contração do Tendão Flexor Digital Profundo

Esse é o quadro mais comum. Os tendões flexores profundos se inserem sob o casco e quando se apresentam contraídos, o potro se apresenta com os joelhos e/ou boletos flexionados e não consegue estica-los. O tratamento de eleição para estes potros quando o problema já é notado ao nascer é a aplicação da tala. Potros com poucas horas de vida já podem ser enfaixados pelo veterinário com talas sob medida, feitas de cano de PVC e quanto mais cedo o procedimento for feito, mais rápido se consegue a correção do membro. As talas são retiradas a cada 6-8 horas para checagem do progresso e logo reposicionadas por no máximo 48 horas. Geralmente não é necessário mais que isso. Quanto mais velhos os potros, mais tempo de tratamento será requerido com muito stress para o potrinho e possibilidade de machucaduras pelas talas. Alguns medicamentos como a tetraciclina e relaxantes musculares também tem se mostrado efetivos no tratamento desta condição. Os encurtamentos do tendão flexor profundo geralmente são os que levam à deformação de casco conhecida como “encastelamento” em potros bem jovens que nasceram aparentemente normais. Como por conta da retração, o potro não consegue pisar com a parte posterior do casco no chão, há um desgaste da região da pinça (frente do casco) e um crescimento e contração dos talões (parte posterior do casco) por não estarem apoiando no chão, levando à deformação do casco do potro em maior ou menor grau. Geralmente ocorre em apenas uma das mãos.

Contração do Tendão Flexor Digital Superficial

Esse é um quadro bem mais complicado. Geralmente ocorre na época do desmame, quando o criador alimenta os potros excessivamente com concentrados e a taxa de crescimento fica muito rápida. As quartelas perdem a inclinação, ficam retas e os boletos dão a impressão de “dar um jogo” para frente. Os potros, que tinham cascos normais, começam a pisar só com a pinça do casco no chão e os cascos podem deformar e começar a encastelar. Casqueamento agressivo e ferraduras corretivas com extensão de pinça e talão elevado são necessárias. Se não houver correção, a opção é cirúrgica e nem sempre resolve.

Relaxamento dos Tendões flexores

Muito comuns em raças que dão potros muito pesados, ou em mães subnutridas. Ocorre quando os músculos flexores que estão na parte posterior do membro, acima dos joelhos ou jarretes não tem força suficiente para suportar o membro na posição normal, causando um relaxamento total do membro. O potro acaba caminhando sobre os bulbos dos cascos, com as pinças apontando para cima. Muitas vezes o potro fica pisando sobre as quartelas e boletos. Pode ser corrigido mesmo em potros com mais dias de idade, mas quanto antes melhor porque o apoio sobre os bulbos acaba lesionando essa parte importante dos cascos. Nos casos leves, grosar os talões é o que basta. Com isso o pivô de apoio é retirado e o potro se posiciona mais corretamente conforme o musculo vai criando tônus e puxa o tendão. Geralmente são aplicadas bandagens protetoras para evitar que os boletos e bulbos dos cascos sejam feridos. Se a mãe estiver muito depletada nutricionalmente, a suplementação oral ou injetável de vitaminas e minerais que acelerem a vitalização dos músculos pode ajudar.

A chave do sucesso no que se refere a problemas de aprumos em potros está no reconhecimento precoce e correto do problema e em se trabalhar com um time de profissionais que atuem rapidamente para que o potro possa ser corrigido no menor tempo e com o menor sofrimento possível.

Adriana Busato/Revista Horse
Adriana Busato

Adriana Busato

é veterinária, professora adjunta de Equídeocultura na PUC-PR, Juíza da ABCCH, proprietária do Haras FB, onde cria Brasileiro de Hipismo e Amazona
e-mail: [email protected]

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