27-Abr-2020 18:12 - Atualizado em 27/04/2020 19:12
Especial Pandemia

QUARENTENA  X  COCHEIRA

Se muita gente anda incomodada em tempos de reclusão social, imagine só o cavalo, que é um animal gregário e essencialmente de movimentos

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Aproveito a ocasião da pandemia do Covid-19 para convidá-lo a refletir sobre a cocheira na vida dos cavalos. Assim como a ferradura é, às vezes, um mal necessário, a cocheira também o é. Mas ouso ir além, digo que, na maioria dos casos, ela é um mal geralmente desnecessário.

    Conheço pessoas que morando em apartamento pequeno, em função da quarentena que nos foi imposta, tiveram que se mudar para residências maiores de parentes, pois já não aguentavam mais o isolamento. Isso apesar dessas pessoas poderem sair um pouco para comprar alimentos e de terem no lar várias formas de entretenimento, como livros, TV, rádio, internet, parceiro para conversar e jogar etc. Mesmo assim não suportaram o estresse do isolamento social.

    Agora, imagine o que é para o cavalo, um animal gregário e essencialmente de movimentos, ficar muito tempo encocheirado e sozinho. É um estresse muito maior do que aquele que experimentamos com a quarentena da pandemia do novo vírus “comunista” que se originou na China.

    Em alguns casos, entretanto, o encocheiramento é quase inevitável. Cito como exemplo tratamentos médicos que exigem restrição de movimentos, áreas rurais com perigos de roubo à noite, altas concentrações de animais em locais de pouco espaço urbano como regimentos de cavalaria, sociedades hípicas, Jockeys Clubs, parque se exposições etc. Mesmo assim, nesses locais de espaços restritos deve haver um esquema escalonado e rotativo de soltura diária dos animais, quando possível dois ou mais juntos, em algum piquete ou pistas de treinamentos/competições. Além disso, as cocheiras devem ser ambientalmente enriquecidas com: o maior tamanho possível; animais de companhia; bolas grandes e soltas; pneus pendurados; espelhos protegidos; janelas para contatos com os vizinhos; vista para o exterior; paredes internas só até a altura do peito ou pouco mais, dando preferência para telas e grades adequadas em vez de alvenaria; solários; etc. Tudo para minimizar o tédio, aumentar o entretenimento e, sem muito investimento, melhorar a qualidade do cavalo.

    Um dos princípios básicos do Bem-estar animal é: liberdade para manifestar seu comportamento natural. Dentro do comportamento natural do cavalo está, correr, pular, rolar, escoicear (nem que seja no ar), brincar, formar grupo e estabelecer hierarquias. Aquele animal que só sai da cocheira para treinar ou trabalhar vive em constante privação e frustração. Por melhor que seja a cocheira e a alimentação não há boa qualidade de vida.

    Em países mais adiantados a legislação já leva em conta estes aspectos do bem-estar animal. Na Suíça não se pode possuir apenas um cavalo, a menos que ele fique junto com outros. Também lá é obrigatório ele ficar fora da cocheira, pelo menos, 4 horas por dia. A amiga Tamina Pinent, palestrante alemã aqui deste grupo e representante da Escola da Leveza na Equitação, nos contava que no país germânico dela as instituições financeiras, como bancos, concedem financiamento para a Equinocultura ou atividades equestres, desde que não envolvam cocheiras.

   No Brasil, quando alguém vai criar cavalo umas das primeiras coisas que faz é construir cocheiras. Isto deveria ser a última construção e, se possível, não construir além daquelas para tratamento médico. Em haras e em fazendas, onde os espaços são maiores, elas são, geralmente, um mal desnecessário. O pior é que, quase sempre, são antiquadas cópias de modelos de países de clima frio, quando o nosso é quase todo tropical. O certo seria fazermos abrigos e não cocheiras. Por abrigo quero dizer um teto com no máximo três lados fechados e, no mínimo, um de livre acesso. O abrigo deve se conectar direto com o pasto, com o piquete ou com o solário. O abrigo pode inclusive ser móvel, acompanhando a rotação de pastagens.

    Ah, mas o garanhão precisa ficar isolado em cocheira. Certo? Errado! O erro já começa na denominação que reflete um reprodutor com comportamento adulterado pelo manejo equivocado. Numa criação mais ecológica garanhão não existe e sim semental ou pastor. Um pastor é sempre criado e mantido com outros animais. É só saber fazer um manejo em bases etológicas. Para quem não acredita nesta possibilidade, veja como são criados os reprodutores nas criações extensivas de grandes fazendas. Muitos nascem e morrem sem nunca entrar numa cocheira. Isso pode ser transportado, com as devida adaptações de manejo etológico, para criações intensivas, desde que haja, pelo menos, um mínimo de espaço suficiente.

    Se a porta da cocheira estiver aberta você vai reparar q o cavalo não fica muito tempo lá dentro, mesmo que esteja frio ou chovendo ou ventando. Equino é um animal de grandes espaços. Melhor do que parede para enfrentar as intempéries é uma boa a farta alimentação. Bem alimentado, bem nutrido, o cavalo produz calor interno suficiente para enfrentar os rigores do frio ou da chuva. Num outro extremo, em caso de muita insolação, o que se deve prover é sombra, não necessariamente cocheira. Não podemos esquecer que a espécie equina, mesmo sem cocheiras, sobrevive em desertos e sobreviveu às glaciações.

 

Revista Horse
Sérgio Lima Beck

Sérgio Lima Beck

é hipólogo e autor dos livros "Manual de Gerenciamento Equestre" e "Marcha: Mitos, Verdades e Outras Coisas". e-mail: [email protected]

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