08-Dez-2020 10:23 - Atualizado em 09/12/2020 18:36
Veterinária

Saiba o que é Garrotilho

Doença se espalha rapidamente pela tropa e, se não tratada corretamente, causa muita dor de cabeça e gastos

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Provavelmente, o Garrotilho é uma das doenças respiratórias dos equinos mais conhecida nas cocheiras. Qualquer pessoa que lida com cavalos já viu ou ouviu falar sobre ela. Muitas pessoas pensam que qualquer secreção nasal, tosse, pequeno desânimo ou falta de apetite já é diagnóstico de Garrotilho, mas não é bem assim, pois se não identificada e tratada corretamente, essa doença pode trazer complicações como dificuldade para respirar, infecções crônicas, distúrbios das raízes dentárias e, até mesmo, levar os animais ao óbito. Então, é bom tratar certinho.

Causado pela bactéria Streptococcus equi, o Garrotilho é uma doença que se espalha rapidamente pela tropa e causa prejuízo, atrapalhando potros, treinamento de animais jovens e consumindo tempo da mão de obra.
Os animais mais afetados são jovens de até cinco anos, geralmente apresentando vários casos em sequência na mesma propriedade. Animais mais velhos e com melhor resistência tendem a não apresentar a doença ou, pelo menos, não a forma clínica aguda, mesmo porque após passarem por um episódio, a maioria acaba criando anticorpos bem eficazes contra novas reinfecções.

Sinais Clínicos

Os sinais mais evidentes são o enfartamento ou inchaço dos linfonodos próximos da cabeça (retrofaríngeos, submandibulares e submaxilares), que comprimem a faringe, resultando em dificuldade respiratória (daí o nome Garrotilho), como se o animal estivesse com a garganta garroteada. Incapacidade de alimentar-se e tentativa em manter o pescoço estendido, buscando alívio da dor e da obstrução respiratória também são observados em alguns casos. Outros sinais incluem secreção nasal purulenta, geralmente bilateral, apatia, febre, dores musculares e tosse.

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O animal com Garrotilho tem dificuldade em manter o pescoço estendido
É importante dizer que os sintomas do Garrotilho são comumente confundidos com os da Gripe / Influenza. No entanto, os agentes causadores são diferentes, pois o do Garrotilho é uma bactéria e o da Gripe é um vírus.

Essa diferenciação é muito importante do ponto de vista clínico, pois para as infecções bacterianas existem diversos tratamentos baseados no uso de antibióticos e, geralmente, os resultados são bem favoráveis. Já o combate aos vírus torna-se mais difícil, pois os medicamentos existentes são restritos e apresentam resultados menos favoráveis. Isso é causado pelo grande poder de mutação dos vírus, que rapidamente alteraram suas características biofísicas, dificultando a ação dos medicamentos.

Muitas vezes, uma Gripe abre caminhos para o Garrotilho, já que a virose debilita o organismo, tornando-o mais suscetível a uma infecção bacteriana. É comum observar surtos de Gripe acompanhados pelos de Garrotilho.

Evolução da doença

Após alguns dias de febre e mal-estar, a doença, geralmente, evolui para o rompimento do linfonodo, resultando no extravasamento de secreção purulenta. Essa secreção é uma resposta do organismo tentando combater e isolar essa infecção. Cuidado! Ela apresenta grandes quantidades da bactéria e pode ser uma importante fonte de contaminação para outros animais.

O rompimento do linfonodo é considerado benéfico e, apesar de algumas pessoas considerarem a técnica agressiva, muitas vezes, é indicado a lancetagem desse abscesso, possibilitando a saída da secreção. A maioria dos animais apresenta boa melhora após esse procedimento, pois o incômodo causado pelo aumento de volume e inflamação diminui.

Tratamento

O Garrotilho é uma infecção bacteriana e, por isso, muitos acreditam que o melhor é realizar aplicação de antibióticos assim que notam os primeiros sinais da doença, mas a chave para o tratamento bem-sucedido é a paciência.
A primeira medida a ser tomada é o isolamento desse animal. A aplicação prematura de antibióticos pode impedir a evolução da doença em um primeiro momento, porém existe grande chance de recidivas, principalmente se o animal continuar em contato com outros também contaminados.

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A secreção nasal apresenta grande quantidade da bactéria e pode ser uma fonte de contaminação para outros animais
Os animais que apresentam abscesso devem receber antibióticos somente se observados sinais clínicos mais graves, como febre prolongada, depressão, total falta de apetite e maior dificuldade respiratória. Caso contrário, o tratamento será focado na maturação do abscesso, com compressas quentes, massagem e cuidados com limpeza após o rompimento do linfonodo. Água e sabão e soluções de soro com iodo tópico serão suficientes, além de spray ou pomadas cicatrizantes.

O animal também poderá receber medicação para controle da febre e dor, assim como hidratação venosa, multivitamínicos etc, o que auxiliará na recuperação. Normalmente, dentro de 4 a 7 dias, a ferida já estará bem reduzida, sem secreção ou maiores complicações.
Esse tipo de condução pode parecer estranha, mas estudos comprovam que os animais que apresentam essa evolução, desenvolvem resposta imune contra o agente causador, evitando novos quadros.

Complicações

A maioria dos equinos se recupera bem após a drenagem dos linfonodos, e segue sua rotina sem problemas. No entanto, alguns casos evoluem de maneira um pouco mais agressiva, podendo comprometer outros linfonodos ou até órgãos como pulmões, fígado, baço, rins e cérebro. Pneumonia, broncopneumonia e infecção de bolsa gutural também já foram relatadas.

Esse tipo de infecção é conhecida como “Garrotilho Bastardo”, e possivelmente ocorre pela disseminação da bactéria através da circulação ou aspiração do pus decorrente dos abscessos. Alguns animais chegam a óbito, causado tanto pela dificuldade respiratória como pelas complicações mais graves da doença. Isso é ponto de partida para a preocupação em se isolar os animais acometidos o quanto antes, evitando o alastramento da doença.

Contaminação e controle

A principal via de contaminação é a secreção nasal presente em bebedouros e materiais de uso comum, como escovas, embocaduras, rédeas e, até mesmo, em camas, carrinhos de mão e as próprias pessoas que manejam e tratam dos animais.

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O acompanhamento da temperatura dos animais pode ser um bom aliado, visto que geralmente a febre ocorre alguns dias antes dos outros sinais
Uma forma de controle boa, porém pouco utilizada, é a realização de quarentena dos animais recém-chegados aos ranchos e haras, que possibilita a manifestação da doença naqueles animais contaminados, porém ainda na fase 

O acompanhamento da temperatura dos animais pode ser um bom aliado, visto que geralmente a febre ocorre alguns dias antes dos outros sinais, como, por exemplo, a secreção nasal. Animais febris devem ser separados e observados.

Em caso de ocorrência da doença, além dos cuidados de higiene local deve-se atentar para a higiene pessoal, já que o ser humano pode ser carregador da bactéria. A desinfecção com produtos químicos apropriados deve ser utilizada em amarradores, escovas, utensílios etc.

Existem vacinas comerciais indicadas para controle da doença, porém sua eficácia ainda é pouco comprovada, existindo ocorrência de casos mesmo em rebanhos vacinados.

Considerações finais

Devido a sua presença comum na maioria dos estabelecimentos equestres, o Garrotilho erroneamente é tratado com certa naturalidade, sendo confundido com outras doenças. É necessário acompanhamento veterinário dos animais acometidos, pois a doença causa atraso no desenvolvimento, favorece a ocorrência de outras patologias, além de ser facilmente disseminada, o que requer atenção na liberação dos cavalos para o esporte, evitando enviar animais contaminados para provas e eventos. (Artigo publicado na edição 81 da Revista Horse)

Revista Horse
David Filho

David Filho

Médico veterinário, formado pela Universidade Estadual de Londrina, atuando em Clínica geral de equinos. Habilitado pelo MAPA para emissão de GTA, habilitado pela FPH para microchipagem. 
E-mail: [email protected]

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