08-Fev-2021 08:59
Crônica

Sou caipira Pirapora nossa...

Fui um menino essencialmente urbano, criado na “capitar”, empinando papagaio e descendo de rolimã as ruas de piche.

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Fui um menino essencialmente urbano, criado na “capitar”, empinando papagaio e descendo de rolimã as ruas de piche. Com o passar dos anos atolei os pés no barro, meti uma bota de couro, vesti uma calça jeans “de briga” e enfiei uma camiseta polo de liquidação de lojas baratas. Boné nunca usei, porque me cozinha o coco. Mesmo sem usar chapéu de palha porque aí seria demais, me transformei num perfeito caipira. Um veterinário caipira que dispensa as grifes, grandes caminhonetes e camisa de manga longa. Alguns usam gel no cabelo, mas fica uma meleca e não me adaptei.

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Cronica 87
Sou cobrado pelas pessoas que gravitam ao meu redor para me vestir melhor. Afinar é um ‘dotor’. Ah, que se dane o dotor, não me sinto bem enfeitado, faço mais o gênero ‘véio caipira’. Vejo na hora que chego nos haras que atendo e as pessoas me olham com um certo desdém. Não sei se a palavra é esta, mas, no mínimo, espanto, olhando para este veterinário ‘véio’, caipira, feio, mal trajado. Mas o que eu quero colocar é a minha reverência a este sedutor mundo caipira. Que delicia é estar com os pés cheirando bosta (de cavalo lógico). De gente seria inimaginável. Aliás, parodiando o ex- presidente, ditador militar, bossal, João Figueiredo, afirmo: prefiro mais cheiro de cavalo do que o de gente! Fico pensando o quanto sofrem estes coxinhas engravatados, executivos, que têm que andar de terninho Armani impecável todos os dias. Putz, eu morreria.
Prefiro minha caipirice. Gravitando ainda neste mundo verde que cavalgamos, dia 11 de março, saiu a romaria que parte de Porto Feliz em direção a Pirapora do Bom Jesus. Que belos animais, bem tratados, fiquei muito feliz. Digo isto porque há uns anos atrás qualquer Zé Mané pingaiada pegava um cavalo “quarqué” no pasto, jogava uma sela “ustraliana“ e despencava para Pirapora do Bom Jesus. Idiotice, crueldade, estupidez! Lógico! O bicho não estava treinado! Quando você vai a uma romaria é como você fosse a uma prova de enduro. Tem que treinar o bicho! Se você não tem saco de treinar e quer ficar com a bunda ardendo depois da viagem é problema seu, mas o cavalo não, ele precisa de treino para esta prova de resistência chamada Romaria. Peça para alguém treiná-lo pra você! Pague ‘tantan’! Mas felizmente foi uma cena bem mais bonita que vi desta vez. Pessoas cuidando e respeitando os cavalos, o estado geral da bicharada era ótimo e percebi que esta consciência do preparo físico definitivamente se estabeleceu em nossa cidade. Agradecem os deuses dos homens e dos cavalos!
Para quem é contra romaria, aqui vai uma explicação: se houver treinamento e condicionamento físico do cavalo, além de respeito do cavaleiro, não há problema algum. É um esporte como outro qualquer. É uma prova de enduro e curta. Pirapora é muito perto se comparada às distancias percorridas nos países árabes, por exemplo, de 200 a 300 km no “pau“. Bom... “vou me retirando, que tá na hora do armoço, vou tomá uma branquinha, batê um prato de arroz e feijão, com doi ovo estalado, fumá um paiero e dispois drumi até babá”. (Crônica publicada na edição 87 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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