29-Mai-2020 12:28 - Atualizado em 05/06/2020 12:39
Crônica

Sou deste chão onde o rei é peão

Senhores, atenção ao escolherem tratadores, peões. Escolham sem pressa e com critério. Não se deixem levar pelo tamanho da fivela, mas sim pelo tamanho do coração

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Lembram da novela o Rei do Gado? Na abertura, tocava-se esta música que era de arrepiar. De fato, o peão é o rei do gado, do cavalo, das mulas e de todos bichos domésticos que nós veterinários de grandes mexemos. De nada adianta realizarmos uma boa consulta, uma boa cirurgia, se os caras que estiverem no fim da corrente não realizarem um bom trabalho e não cumprirem à risca as recomendações que fazemos. Não se iludam...Cada vez estou mais convicto disso.

Se uma propriedade não tem bons peões na lida com os animais, esqueça! Seus resultados serão medíocres.
Primeiro lugar: Não se indisponha; faça de tudo para tratá-los como príncipes, pois eles merecem, E você, profissional ou proprietário, precisa, depende deles. Se um dia seus peões estimulados pelo seu feedback positivo se tornarem bons, você terá um" chão onde o rei é o peão". Sinônimo de sucesso. Portanto, repassando... numa propriedade onde o dono tem grana, os bichos são bons, o veterinário é competente, se o peão for meia boca, os resultados serão meia boca.

Tenho dois bons exemplos nesses últimos tempos. Em outubro, atendi uma fratura da falange proximal, daquelas que você enxergava o osso. Grave! A mãe pisou no filhote dentro da cocheira. Diga-se: cocheirinha simples, de sítio simples, água no balde e chão de terra. O dono é um bancário amigo meu. Fui lá mediquei, lavei etc. Não dava pra suturar porque houve perda de tecido. Tive que tratar por segunda intenção como ferida aberta. Mandei manter enfaixado. Fui viajar por dez dias para Goiás. No retorno, me espantei com o resultado impecável da recuperação! Mérito meu? Claro que não! Mérito do peão de nome Jesus (sem metáfora), que realizou um excelente trabalho. Um magnifico trabalho com muito amor ao bicho. Cara bom,"simprão no úrtimo", que vem de família de boiadeiros. Nasceu entre cavalos e os ama e respeita até hoje.

O outro exemplo é o outro lado da moeda. Foi um potro que quase perdi num haras top. Haras top, com todo nhem nhem nhem possível e imaginável. Mas o peão...Vou lhe contar. Peãozinho mascarado, chapéu panamá ,fivelona dourada "pro rodeo", bonézinho do Quarto de Milha, camisa de manga longa, abotoada no pulso Wrangler; bota de couro de avestruz. Manja o tipinho,né He he he. Mas, enfim, esta belezura toda me saiu caro...Era a segunda vez que ia neste haras e ainda estava tateando. O peão não foi com a minha cara e eu não fui com a dele. Minha vó que falava: "por fora bela viola, por dentro pão bolorento".

Fiz uma castração de um potro de dois anos e meio. Foi tranquila. Fiz Detomidina local, castrei de pé. Bicho manso, coitado, tranquilo...Não fez um "ai". Não transfixei como costumo fazer. Optei por emascular .Tudo lindo e maravilhoso. Assepsia, bla bla bla, cobertura antibiótica, tudo como manda o figurino. Normalmente, faço retorno, como de praxe, mas nesse caso não fiz, superestimei o "esquema do haras ". Deu merda!!! Me chamam sete dias depois, dizendo que o potro estava sem comer, andando com a perna aberta, que estava tudo inchado, febrão. Pensei: ferrou!

Examinando, o que encontrei? O projeto de american cowboy, peãozinho de meia tigela, ficou tanto tempo se olhando no espelho que deixou pegar bicho!!! Pode? Nos dias de hoje o cara ser tão bundão, tão incompetente, tão desmazelado que deixa pegar miíase? Bicho? Ah, vai te catar, cowboy! Quase perdi o potro. Por isso, senhores, atenção ao escolherem tratadores, peões. Escolham sem pressa e com critério. Não se deixem levar pelo tamanho da fivela, mas sim pelo tamanho do coração. Respeitem e tratem com carinho e cuidado, pois esses caras que seguram nossa onda 24 horas por dia, cuidando destas nossas preciosidades, os cavalos. De joelhos, minhas reverencias, Rei Peão!

 

 

 

 

 

 

 

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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