24-Mai-2021 15:44
Crônica

Tocantins 40 graus

Fui chamado para uma visita veterinária diferente em uma fazenda no Tocantins. Arrumo as malas, compro bota...

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Fui chamado para uma visita veterinária diferente em uma fazenda no Tocantins. Arrumo as malas, compro bota, passagem de avião, alugo carro etc. Baita produção. A fazenda da dona Carmem Silvia fica a uns 200 km de Palmas, próxima ao município de Dueré. Longe para dedéu!

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Emilio Fontana Filho
E tome estrada de asfalto e de terra. Sou meio cagão com velocidade, sou lerdo, gosto de andar a 100km, no máximo 110km. Nesta estrada goiana (tocantinense), como era longe, reta e vazia soquei 160km. Fato inédito. Porém, se não pisasse fundo não chegaria nunca. Peguei de aluguel uma saveiro velha que quase desmanchou na estrada.

Olho para todos os lados e vejo o Cerrado, que é uma vegetação rasteira, rala, pobre em nutrientes, intercalada de uma ou outra ”arvrinha” de cajuzeiro, pau santo ou gabiroba, típicas desta região. Tudo plano, um tabuleiro de xadrez a esquerda e a direita, nada de casas, gado e plantações... Lindo, mas esquisito. Eu me senti no meio do nada. Se furasse um pneu estava ferrado. Posto de gasolina? Restaurante? (sem chance).

O que me ajudou muito foi um cd do Cat Stevens que levei comigo. Tornou este trecho mais romântico e colorido. Já falei que eu adoro Cat Stevens? Então, era pau na máquina e chegar logo na fazenda para trabalhar. Enfim, cheguei.

A ideia é que eu fizesse um projeto completo de formação de um haras de quarto de milha encravado dentro desta fazenda que há 20 anos só criava gado nelore. Gente, que calor! Um calor de fritar os miolos! É, porque uma coisa é 40 graus no Rio de Janeiro de sunguinha e outra bem diferente é 40 graus em Dueré, no Tocantins, usando macacão de brim. Vixe Maria!

“Mas nóis num diz que é sujeito homi?” Era difícil de andar porque o chão arenoso, cheio de pedras também assavam os pés porque o imbecil aqui resolveu calçar uma bota de borracha. Aonde eu estava com a cabeça? Bota vulcabrás de borracha até quase no joelho? Ia caçar caranguejo no mangue “por acauso“? Medo de cobra? Tonto mesmo.

Enfim, o peão-gerente, me levou pra ver as primeiras éguas Quarto de Milha que dona Carmem havia comprado. Recolheu todas no curral do gado. Como eu tinha levado o ultrassom, passamos as éguas no tronco do gado (era o que tinha). A eguada era forte, meio estilão bulldog, mas fraca geneticamente, tinha sangue de tatu e de cobra também.

Coitada da dona Carmem, mas é verdade. De 60 éguas, 20 estavam vazias, 10 chegadinhas pra criar e 30 bem novinhas, tipo 15 dias mais ou menos. Só que a questão é que ela comprou todas como prenhes em terço final de gestação de  um neto do Dash For Cash Jr, super famoso de Goiânia. As éguas chegaram na fazenda há um mês. Bom, a conta não fechava. Estava tudo muito estranho. Dona Carmem pagou uma fortuna pelas fêmeas, ouvi qualquer coisa de 10 mil dólares cada uma.

É caro, muito caro, dependendo do bicho. Todas supostamente prenhes Agora, 20 vazias? Vem me falar que reabsorveu com 6 meses de idade? Me poupe (como diriam as amigas). Trambique! Bom, dona Carmem, você foi solenemente enganada. Foi uma brochada geral. Número 1 = quase metade das éguas vazias, só 10 prenhes e 30 com prenhez precoce? Como assim precoce? Como assim 11 dias, 15 dias de gestação detectados pelo ultrassom?

Na realidade “mes amis“, no dia seguinte descobrimos o grande padreador das éguas bulldog: Um jumentinho (tadinho) meia boca, piquirinha, ”cabeçudo”, que tava alongado no cerrado, pulou a cerca precária e cobriu a eguada. Tempo e dinheiro perdidos, dona Carmem. Ou seja, bagunça total. Temos que começar tudo de novo e, por isso, foi adiada nossa reunião e nova consultoria até segunda ordem.

Putz. Devolução dos bichos? Ressarcimento? Sei lá! Sabe por quê? Porque não chamou um veterinário de sua confiança para acompanhar a compra. Escolher, analisar, examinar os animais antes de fechar um negócio desta magnitude! Qualquer um! Veterinário está cheio por aí! Tá tão barato gente! Vocês dão risada? Não é pra rir. É pra chorar! Vamos usar nossos valorosos veterinários brasileiros. Nada disto teria acontecido se ela tivesse consultado um profissional antes! Desculpe-me dona Carmem, mascaste do cavalo. #ojumentomandalembranças! (Crônica publicada na edição 94 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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