20-Abr-2020 19:14 - Atualizado em 20/04/2020 19:38
Manejo

TRATAR COM CAVALOS

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Seregio Lima Beck
expressão tratar com cavalos não é a mesma coisa que tratar os cavalos. Esta última significa alimentar ou dispensar algum cuidado aos cavalos, ao passo que tratar com cavalos significa interagir ou relacionar-se com eles. O famoso treinador alemão Klaus Ferdinand Hempling, grande especialista em comunicação com cavalos, escreveu vários livros e um deles tem como título exatamente “Tratar com Cavalos”.

    Podemos resumir em quatro as maneiras como as pessoas se relacionam com os cavalos. Geralmente os consideram como: 1) escravos; 2) serviçais ou empregados; 3) animais de estimação; 4) parceiros ou companheiros. Analisemos cada uma dessas maneiras e vejamos qual a melhor.

Escravos

    Tratá-los como escravos parte do pressuposto que se somos donos deles e lhes propiciamos alimentação e, sendo assim, podemos fazer com eles o que bem entendemos. Apesar da brutalidade e do frequente uso de violência, geralmente conseguem extrair dos cavalos muitos préstimos. À semelhança da escravidão humana, as pessoas que assim procedem com cavalos não percebem que cometem os mesmos erros éticos do escravagismo. Era exatamente assim que acontecia com os humanos subjugados no tempo da escravidão. Consciente ou inconscientemente, algumas pessoas, nos dias de hoje, apenas trocaram o prepotente etnocentrismo pelo igualmente prepotente antropocentrismo e seguem praticando a escravidão, só que agora apenas sobre os animais não humanos. Mas, felizmente, os tempos estão mudando. Hoje sabemos que os cavalos são seres sencientes, isto é, que têm dor, tristeza, alegria e prazer. Como tais, os cavalos têm sentimentos e se têm sentimentos então têm alma. Portanto, merecem mais consideração e respeito. Com certeza, tratá-los como escravos não é uma maneira boa para os cavalos e é, geralmente, própria de pessoas de pouca sensibilidade, de pouca instrução e de pessoas que usam esses animais para se afirmar, a qualquer custo, perante os outros seres humanos. 

Serviçais ou empregados

    Tratar os cavalos como seres serviçais ou meros empregados é uma maneira um pouco mais amena do que tratá-los como escravos. Não usam de tanta violência, mas não deixa de ser uma postura autoritária, rígida e exploradora, pois também não reconhece os direitos animais. As pessoas não retribuem à altura os préstimos que conseguem do cavalo. É uma maneira fria, que não cultiva sentimentos nem favorece a boa interação cavalo homem. Torna o cavalo um animal mecanizado, sem expressão própria, sem boa vontade e sem amizade pelo ser humano. O cavalo trabalha se não por medo pelo menos por obrigação. Geralmente, é uma maneira própria de pessoas que usam o cavalo como simples instrumento de trabalho ou como instrumento de satisfação de vaidades pessoais. Não é digna de qualquer cavaleiro que se possa prezar.

Pet

    Tratá-los como animais de estimação, apesar da boa intenção, também não é uma boa maneira, porque não dá relevo às necessidades e natureza da espécie equina. Não trata o cavalo como cavalo propriamente dito. Com frequência, leva a animais mimados, que não conhecem os devidos limites, que não buscam colaborar e que podem se tornar abusados ou perigosos.

Parceiros ou Companheiros

    Tratá-los como companheiros parece ser a maneira ideal, tanto para o cavalo como para o homem. Não se trata de ser frouxo nem bonzinho a todo o momento. Trata-se de amizades, de parcerias, mas com estabelecimento de limites do que pode e do que não pode ser feito. Isso vale para ambas as partes. Cabe a nós a autocrítica e o autocontrole maior, pois a responsabilidade principal por uma boa relação é nossa e não do cavalo. Afinal, somos nós que procuramos o cavalo e, originalmente, não o contrário. Portanto, há que haver respeito mútuo. Isso se constrói aos poucos, dia após dia, atitude após atitude, com firmeza e delicadeza ao mesmo tempo. O segredo é a pessoa se postar frente ao animal não como um chefe nem como um dominador e sim como um líder. Líder não manda, não exige; líder sugere, indica, mostra o que deve ser feito e o que é melhor para todos. Líder não obriga; líder convence.

    Uma relação nunca é ética se for boa só para uma das partes. Portanto, para termos uma boa relação, uma boa parceria com cavalos é preciso conhecer a natureza, as necessidades, a linguagem dos equinos e, depois, praticar a empatia, isto é, a capacidade se colocar no lugar do outro, nem que seja só em pensamentos. Quem pratica a empatia não maltrata o outro, pela simples razão de que, obviamente, não gostaria de ser maltratado.
Por outro lado, precisamos considerar e tratar o cavalo como cavalo e não como pet. Por essa via, tratando o cavalo como cavalo, se pode chegar às alturas e à condição de centauro. Aí sim, tratar com cavalos, desta maneira, é uma experiência de mútuo enriquecimento em termos de sentimentos, de sensações, de atitudes, de desempenhos, de educação e de parcerias. Uma interação construtiva e uma paixão saudável que cada vez aumenta mais. Experimente! (Artigo publicado originalmente na edição 101 da Revista Horse)

Revista Horse
Sérgio Lima Beck

Sérgio Lima Beck

é hipólogo e autor dos livros "Manual de Gerenciamento Equestre" e "Marcha: Mitos, Verdades e Outras Coisas". e-mail: [email protected]

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