13-Jul-2021 11:22
Crônica

Ultrassom da alma

Há muitos anos faço ultrassom em animais. É uma técnica relativamente simples e eficaz, que acabou se difundindo amplamente na última década

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Há muitos anos faço ultrassom em animais. É uma técnica relativamente simples e eficaz, que acabou se difundindo amplamente na última década. Comecei a utilizá-la nos anos 90 para controle folicular das éguas. O que vem a ser isso? Controle folicular? Com o método, você consegue saber qual o melhor momento para se cobrir a sua égua através do tamanho e maciez de uma estrutura chamada folículo, que é como se fosse uma bolha em cima do ovário que se rompe, quando grandona, como uma bexiga, e libera o óvulo. O óvulo liberado vai nadando...nadando...e encontra o espermatozoide. Pluft! E o milagre da criação se faz!

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Deste encontro forma-se o embrião, ou seja, vida! Poder acompanhar esses encontros e desencontros é muito importante na reprodução de todos os animais, em especial nos equinos. Você melhora a taxa de prenhezes (nome feio prenhezes..rs), enfim você melhora e muito a possibilidade de emprenhar sua égua. Também não fica cobrindo..., cobrindo, de bobeira. Num haras as pessoas têm muito o que fazer. É muito trampo. Por isso sugiro a todos que criam cavalos contratarem um veterinário para acompanhar suas éguas. Vale a pena. Não é caro não (já foi). Baratim, baratinho..rs, pelo servição que faz um exame de ultrassom.
Bom, já que começamos falar disso, vamos explicar que a introdução do ultrassom nas éguas é pelo ânus e não pela vagina, como muitos pensam. Muita gente que está iniciando na equinocultura fica intrigada com isso...rs. O princípio é como o exame de próstata no homem. A próstata está no intestino por acaso? Claro que não. Só que “através da pele” do intestino o médico sente e toca a próstata do homem. Mesma coisa nos animais de grande porte. Pelo fato de a égua ser um bicho enorme, não dá pra “passar” o ultrassom por fora da barriga, como se fazem nas fêmeas “bicho gente “. Daí se descobriu, no ano 1900 e bolinha, que se a manobra fosse feita pelo intestino se chegaria mais pertinho do útero, ovário etc. Tem muito neguinho sabido “life expert” pensando: que bobagem, Emilio! Isso todo mundo sabe! Você que está se rindo de mim (saudoso Chico Anísio), sabe fazer arroz? Qualquer bobo sabe! Bom, eu não sei. Nem de microondas, se é que se pode fazer arroz no microondas.
Mas vamos ao que interessa, depois desta cartilha Caminho Suave (lembra?) da reprodução. Fiz um ultrasson há um mês, o melhor ultrassom da minha vida. Sofisticado. Seu Altamiro, amigo véio rústico e sertanejo, depois que eu examinei a égua do seu patrão, pediu pra que eu passasse ultrassom no seu coração, que não estava bem. Oi? Coração de gente? Ninguém em sã consciência faria uma coisa dessa! Mas minha consciência não é sã! Fiz, claro! Não falei nada. Sentei ele numa cadeira, mandei respirar profundo e fechar os olhos; abri os botões de sua camisa e encostei a probe do ultrassom sobre seu peito, com um pouquinho de gel morninho...Ele me olhou apreensivo, dizendo que estava aflito, triste, peito apertado, que estava com medo de estar tendo “um troço”. Tensões desta vida maldita, dizia ele...Shhhhh Fica quietinho, seu Altamiro, fica quietinho, disse eu. Fecha os olhos... Lembra daquele balanço que você balançava na árvore quando era criança? Lembra? Lasca de aruera amarrado numa corda de poço velho? Respire pelo nariz e solte pela boca, lentamente...Vai...Se transporte pra lá...Minas Gerais. Sinta agora o vento no rosto... Sinta o cheiro da manga madura que tá no pé... O passarinho...O relincho do cavalo do pai. Ouça a voz da tua mãe chamando – Mirinho!, o almoço tá na mesa! Tá sentindo? Tá ouvindo tua mãe? Fique neste lugar, Altamiro. Fique. E Altamiro ficou.
Meu ultrassom repousava sobre seu peito. – É por isso que chama ultrassom né dotô? disse ele, abrindo os olhos após 10 longos minutos...O som dele é super, os raios dele têm influência até na alma da gente. Mirinho sorriu. Já estou mió, bem mió – disse ele. Ultrassom bão demais! Senti vergonha do que fiz, mas terminei o dia mais feliz. (Crônica publicada na edição 98 da Revista Horse)

Revista Horse
Emílio Fontana Filho

Emílio Fontana Filho

é médico veterinário, formado pela UNESP Botucatu, em 1982, dramaturgo e colunista da Revista Horse. Consulte o autor sobre palestras e coaching sonre assuntos veterinários e afins. E-mail: [email protected]

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