22-Mai-2020 09:24 - Atualizado em 22/05/2020 10:28
Comportamento

Um cowboy no hipismo

Como a paixão pelos cavalos levou o treinador Leonardo Rauscher a trabalhar ao lado do mestre Neco Pessoa, na Bélgica

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Leonardo, com Neco e o cavaleiro francês Pierre Durand, campeão olímpico (Para ler esta reportagem e todo o conteúdo da edição 103, clique na imagem)Arquivo Pessoal
A paixão pelos cavalos ele descobriria ainda menino, em Uberlândia (MG), onde nasceu. O que o pequeno Leonardo Rauscher jamais poderia imaginar é que aqueles dóceis animais, que com tanta alegria montava lá na fazenda do avô, o levariam a conhecer o mundo. Aos 26 anos, o domador de cavalos, formado em Gestão de Equinocultura pela Uniso/Universidade do Cavalo, vive atualmente em Waremme, na Bélgica, com seu trabalho reconhecido e solicitado em várias cidades daquele país.

                Um dos seus clientes é ninguém menos do que Nelson Pessoa, o Neco, primeiro cavaleiro brasileiro a fazer carreira internacional, nos anos 60, pai do campeão mundial Rodrigo Pessoa, que tem na Bélgica um moderno centro de treinamento. É Leonardo quem faz o trabalho de iniciação dos potros que, futuramente, irão disputar as mais importantes provas de hipismo da Europa.

                Antes de chegar a Bélgica, o caminho de Leonardo até descobrir a paixão pelo universo equestre foi longo e, algumas vezes, bem difícil. "Aos 6 anos já trotava e galopava na fazenda do meu avô. O primeiro cavalo que pude chamar de meu foi o Queimadinho, de idade avançada e muito manso. Me marcou bastante, me fez rir muito e também chorar de raiva muitas vezes quando escapava. Com ele aprendi uma das coisas mais importantes para minha vida hoje: gostar de cavalos”, recorda o brasileiro.

                Acostumados com o jeito e as manhas dos cavalos caipiras da fazenda, aos 14 anos, a convite de um amigo, Leonardo teve o primeiro contato com cavalos bem cuidados na cocheira. Um amigo de escola tinha cavalos em uma hípica da cidade e o convidou para ir lá. "Fiquei encantado, passei a frequentar diariamente. Acreditava que os cavalos da cidade tinham ‘personalidade’. Na fazenda, por mais que eles estivessem gordos e bonitos, eram praticamente uns robôs, sempre silenciosos de cabeça baixa, com as moscas entrando e saindo dos lábios inferiores caídos. Na hípica eles relinchavam, tinham energia, batiam a mão no chão quando amarrados, corcoveavam quando eram soltos nos piquetes. Me senti no paraíso”, conta.

                Foi aí que o adolescente descobriu o fascínio por aquele mundo e decidiu conhecer mais, se aprofundar, fazendo o primeiro curso de doma racional com o professor Paulo Cunha. Conta que, após os 10 dias de aprendizado, voltou para Uberlândia já se sentindo um autêntico "encantador" de cavalos e tratou logo de colocar em prática. Trouxe um potro da fazenda e com ajuda do professor João Dedinho (considerado um ícone equestre no triângulo mineiro, executou o primeiro trabalho com sucesso. “Vendi o cavalo e o dinheiro pagou todas as despesas. Vieram mais dois potros e após o treinamento, seguiram o mesmo caminho do primeiro”, revela.

                A certeza de que sua vida estaria intimamente ligada ao universo equestre veio ao assistir uma clínica de Eduardo Borba e Dudi Ometto, do projeto Doma, de Capivari (SP). "Levei uma égua que empinava quando eu pedia o recuo. No fim do segundo dia da clínica, a égua já recuava perfeitamente sem o mínimo esforço. Mas o que mais me chamou a atenção no auge dos meus 15 anos foi a caminhonete deles, com o trailer e dois cavalos. Queria aquela vida, queria o cavalo comigo onde eu fosse”.

                A necessidade de se dedicar mais aos estudos e, posteriormente, o serviço do Exército, afastaram o adolescente Leonardo dos cavalos, mas não dos seus objetivos profissionais. Em 2011, com 20 anos, foi estudar Zootecnia, na Universidade Federal de Pelotas (RS). Ali, o destino colocaria os cavalos novamente em sua vida. Ao lado da universidade havia uma hospedaria para cavalos, que pertencia a um colega do curso e o local passou a ser seu ponto de parada diária.

                Da mesma forma que se sentia no paraíso ao lado dos cavalos, Leonardo quase entrou em uma tremenda fria por causa de um deles. Certo dia, um cliente novo chegou na hospedaria com oito animais, dizendo que precisava de dinheiro e lhe ofereceu uma potra crioula, registrada, filha de pais consagrados, por um valor muito baixo. "Comprei na hora, ele assinou os papéis e já comecei a domá-la. Assistia à vídeo-aula do Clinton Anderson à noite e praticava com a égua no dia seguinte. Essa égua me fez decidir que aquela seria minha profissão. Matava aula e passava o dia com a égua”, diz.

                Dias depois, já com a égua bem encaminhada no treinamento, Leonardo decidiu procurar a associação dos criadores para oficializar a papelada da transferência do animal para o seu nome. “Levei um susto. A moça que me atendeu disse que os cavalos tinham sido comprados em leilão e não haviam sido pagos, que já havia um mandado de busca e apreensão, mas ninguém sabia do paradeiro dos animais. Liguei para o criador para dizer que havia sido vítima do golpe. Fiquei sem a égua e sem o dinheiro. Foi mais um aprendizado que os cavalos me proporcionaram”, recorda.

A decisão

                No meio do curso, chegou à conclusão de que ser zootecnista não lhe atraia tanto assim. Queria mesmo era mudar para o estado de São Paulo, pois lá estavam os bons treinadores. Trancou a faculdade, jogou todas as coisas pessoais no carro e foi parar em Capivari, mais precisamente no Projeto Doma, para um curso de 10 dias. Ali o assistente do Borba, André, ajudou-o a decidir a fazer o curso de Gestão em Equinocultura, na Universidade do Cavalo. Foi, fez e, a partir daí, os cavalos se tornaram definitivamente sua profissão.

Olhava os amigos de culote e pensava que nada no mundo me faria usar uma calça daquelas. O mundo dá voltas...”         - Leonardo Rauscher

O domador explica que o aprendizado acadêmico foi muito importante, mas os contatos que fez enquanto estudava é que lhe abriram portas. "Trabalhava num rancho de treinamento de Rédeas de dia. De noite, encontrava colegas de todas as tribos do cavalo. Olhava os amigos de culote e pensava que nada no mundo me faria usar uma calça daquelas. O mundo dá voltas...”, admite.

               Após o curso decidiu trabalhar por conta própria, fazendo doma e consultoria. Como os clientes não vinham, começou a se oferecer para cabrestear potrinhos nas fazendas em troca de casa e comida. Um criador o aceitou e gostou muito do trabalho daquele jovem entusiasta. “Passava praticamente o dia todo ‘lidando’ com oito potrinhos desmamados, aí não tinha como o trabalho ficar mal feito”, conta.

                 Tempos depois conheceu José Bueri, comerciante de cavalos de salto. Uma conversa e já conquistou novo cliente. “Sou muito grato a ele, por ter me aberto as portas desse mundo do hipismo”, reconhece. A partir daí, nunca mais quis trabalhar com outra raça. Era tratado como profissional e, pela primeira vez desde a adolescência, tinha total liberdade para desenvolver seu trabalho. Foram três anos trabalhando com Bueri e mais de 70 cavalos domados e iniciados no salto.

O desafio             

Livre, Leonardo decidiu partir para a Califórnia (EUA), em busca de novos desafios e conhecimento. Tão logo desembarcou no aeroporto, com uma lista que encontrou na Internet, saiu à procura dos ranchos que precisavam de pessoas para montar. No primeiro que chegou, recebeu um não como resposta. Ao cruzar os portões do segundo rancho, sentiu que seria ali. “Tinham cavalos de hipismo amarrados nas árvores ao redor da pista e no meio uma bandeira tremulava. Havia também uma estátua em tamanho real de uma vaca holandesa deitada. Ao entrar, percebi que o treinador de lá não fugia dos problemas; ele os resolvia”, afirma.

“Tinham cavalos de hipismo amarrados nas árvores ao redor da pista e no meio uma bandeira tremulava. Havia também uma estátua em tamanho real de uma vaca holandesa deitada. Ao entrar, percebi que o treinador de lá não fugia dos problemas; ele os resolvia” - Leonardo Raucher            

Allen Clarke o recebeu e pediu para que selasse um cavalo, que mostrasse o que sabia fazer. O brasileiro lhe perguntou o que exatamente queria que fizesse. — “Faça o que quiser”, retrucou o americano. Trabalhei o cavalo no chão durante 20 minutos e outros 20 montados. Terminado, Clarke disse ao brasileiro que era muito bom no trabalho de chão, mas, montado, era um “macaco”. Leonardo revela que permaneceu ali por três meses e teve de retornar ao Brasil por conta do visto de permanência ter vencido. No final do segundo mês, Clarke chegou e anunciou que iriam comemorar aquele dia muito importante: não era mais “macaco”. Desse dia em diante passou a ser chamado de “macá” pelo americano.

                De volta ao Brasil, alugou cocheiras e seguiu domando os cavalos de salto. Gradativamente, a clientela começa a crescer e dois deles (Thereza e Alexandre) eram muito especiais. “Fizemos inúmeros cavalos entre 2016 e 2017, sendo que três foram exportados e um deles aprovado como garanhão. Com eles comecei a entender todo o processo do cavalo de hipismo. Aprendi muito com eles sobre criação, treinamento e comércio dos cavalos novos. Foi uma parceria e tanto”, destaca.

A parceira          

No haras em que alugava as cocheiras, Leonardo conheceu Gabriela e começaram a trabalhar juntos. Ele domava e ela trabalhava o adestramento e o salto. O bom entendimento dentro das pistas, levou o casal a sintonia perfeita também fora delas. Em 2017, se casaram e mudaram para a Bélgica. "Não foi uma decisão fácil, pois nossa vida era perfeita no Brasil. Tínhamos clientes, alunos, casa e tudo só melhorava a cada dia. Mas a vontade de conhecer o epicentro do hipismo mundial acabou falando mais alto”, recorda.

                Leonardo afirma que o mundo equestre europeu é algo gigantesco. Todo fundo de quintal tem um cavalo. E as pequenas cidades do interior estão repletas de pequenas pistas com obstáculos. “Chegamos aqui em maio e desde então temos tido muito trabalho. Até alguns meses, os clientes eram todos brasileiros que vivem aqui e ouviram falar do trabalho que vínhamos desenvolvendo no Brasil. Agora, estão começando a surgir os primeiros clientes europeus. Somos muito gratos aos cavalos. Esses animais que nos fazem querer ser pessoas melhores a cada dia. E nos dá o prazer de viver a vida dos nossos sonhos de criança".

 

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