19-Jul-2018 17:48 - Atualizado em 19/07/2018 18:02
Nutrição

Um manual para a boa alimentação de seus cavalos 

Um resumo prático para manter o seu animal saudável, com as medidas certas de diferentes tipos de alimento  

Como quase todo mundo sabe, o cavalo é um animal herbívoro, que se alimenta de vegetais, chamados de volumosos, ou ainda de “verde”. Para preservar o equilíbrio psicológico e neurovegetativo, é importante a manutenção de uma quantidade mínima de 1% do peso vivo do animal, ou 5 kg de matéria seca (alimento sem água) por dia por animal (de 500 kg), em manutenção (o que equivale a aproximadamente 5,5 a 6 kg de feno ou 16 a 18 kg de capim fresco). Para animais com algum tipo de atividade, crescimento, reprodução ou trabalho, há uma necessidade maior ainda, que varia conforme algumas características individuais. 
A ocupação alimentar é para o cavalo um fator de tranquilização. Por isso as fibras, que aumentam a duração da ingestão e da digestão dos alimentos, são tão importantes para a integridade do cavalo. O aparelho digestivo do cavalo possui particularidades onde são exigidos altos teores de fibras na dieta para que ele possua uma ótima digestão.  
As fibras são conseguidas através do volumoso que pode ser ofertado ao animal através de diversas formas: 
 
Capim Fresco:  
Através de pastagem, onde o animal colhe o alimento diretamente do sistema de produção. Deve-se atentar para o ideal preparo da terra, com cuidados como análise da terra, adubação e calagem adequadas e escolha de um capim de ótimo nível nutricional, adaptado às condições edafo-climáticas da região. 
Através de Capineira, onde o alimento é cultivado em área específica e fornecido ao animal após o corte. Um cuidado especial deve ser tomado aqui quanto ao modo de fornecimento. O ideal é que o alimento da capineira seja cortado e fornecido inteiro ao animal, pois isso estimula a mastigação, fundamental para o bom processo digestivo. Além disso, desta forma, o cavalo apenas irá ingerir a porção do capim que lhe é saudável, descartando os talos grosseiros e secos que podem provocar quadros de cólicas. É prática comum no Brasil o uso de capineiras de capim elefante e cortar esse tipo de capim com altura de 3 e até 5 metros, na vã ilusão de fazer a capineira render mais. Diferente dos bovinos, os equinos não têm a capacidade de converter a palha seca em nutriente. Muito pelo contrário, pois o excesso de fibras acelera o peristaltismo, podendo levar a quadros de cólicas. Além disso, a grande quantidade de fibras insolúveis diminui a qualidade final do alimento. A altura ideal de corte situa-se entre 1,60 m e 2,30 m de altura. 
 
Feno:  
O feno é um alimento obtido através do processo de secagem parcial da forrageira, o que permite preservá-la por um período que pode chegar a um ano, com pouquíssima perda de qualidade nutritiva. O feno pode ser de gramínea, como coast-cross, tifton, jiggs, etc., ou de leguminosa, como alfafa. Deve-se ter cuidado também com a qualidade do feno, pois um feno seco demais, taludo demais ou úmido demais, pode causar quadros de cólicas ao animal, além de proporcionar um alimento de baixo valor nutricional. 
 
Silagem:  
A ensilagem é um processo de preservação do alimento forrageiro através de fermentação anaeróbica, mantendo boas características nutritivas por um período longo. Existem relatos de silos abertos após 12 anos de sua confecção com ótimas características nutricionais. A silagem pode ser fornecida ao cavalo sem problemas, desde que seguida algumas recomendações: o silo deve ser muito bem feito, para que a silagem seja de ótima qualidade; o fornecimento de silagem deve ser feito em quantidade adequada de forma que o cavalo coma a silagem no máximo até duas horas de extraída do silo, pois após esse tempo reduz-se consideravelmente a palatabilidade do produto, diminuindo o consumo; deve-se fornecer a silagem três a quatro vezes ao dia. As forrageiras mais utilizadas são milho, sorgo, capim e alfafa. 
Cana-de-açúcar: Pode ser ofertada ao cavalo desde que respeitadas as características da forrageira e as necessidades do cavalo. A cana entra em processo de fermentação muito rapidamente, o que pode causar cólicas nos equinos. Desta forma, entre se cortar a cana, picar, fornecer e o cavalo comer, não se deve ultrapassar um período de 2 horas. 
A consistência das fezes do cavalo, principal indicador da saúde digestiva do animal, está diretamente ligada ao teor de fibra na alimentação. 
Capins muito novos, recém rebrotados ou plantados, normalmente provocam quadros de diarréias leves devido aos baixos teores de fibra em sua composição.  O mesmo ocorre com uma alimentação muito rica em concentrado (rações, milho, trigo, etc., superior a 50 % da dieta total), onde as fezes ficam semelhantes às de vaca, pastosas, sem consistência firme, indicando um baixo aproveitamento dos alimentos. Por outro lado, volumosos muito secos também podem causar quadros de desconforto digestivo devido a uma aceleração exagerada do peristaltismo, devido ao elevadíssimo teor de fibras indigestíveis na dieta. Uma boa consistência de fezes, nem pastosas nem ressecadas, indica que o alimento ficou tempo suficiente no aparelho digestivo para ter seus nutrientes aproveitados ao máximo pelo animal. 
Após termos suprido as mínimas necessidades para manutenção do cavalo, conforme a atividade a que vamos submetê-lo, seja um potro em crescimento, égua em reprodução ou cavalo de esporte e trabalho, devemos oferecer-lhe os complementos de uma alimentação, para que possamos atingir os níveis energéticos, protéicos, vitamínicos e minerais suficientes para suprir estas novas necessidades, mas sempre respeitando sua natureza, valorizando o volumoso. 
A Ração na verdade deve ser chamada de complemento corretor, pois esta deve ser sua função: complementar e corrigir as necessidades do animal, que o volumoso disponível não consegue suprir. Isto é, quanto pior a qualidade do volumoso, melhor terá que ser a qualidade da ração fornecida, e quanto melhor a qualidade do volumoso pode-se trabalhar com uma ração de ótima qualidade em uma menor quantidade. A ração deve ser equilibrada, oriunda de empresas idôneas para se ter garantia da qualidade do produto.  
Existem vários tipos de apresentação de ração: Farelada, Peletizada, Laminada ou Extrusada. 
Existem ainda as matérias-primas (aveia, milho, trigo, etc.) que muitos criadores/proprietários de animais oferecem misturado à ração balanceada. Ocorre que estas matérias-primas são, em geral, muito ricas em fósforo (a relação Ca:P pode ser de 1:3 quando o ideal é 1,8:1) o que leva a um desbalanceamento na relação cálcio/fósforo sanguíneo levando a graves problemas como a cara inchada. 
Quanto às apresentações de rações industrializadas, não devemos nos preocupar com a aparência do produto (peletizada, laminada ou extrusada), mas principalmente com os níveis de garantia destes produtos. 
Tecnicamente falando, um produto extrusado é superior a este mesmo produto laminado e este mesmo produto peletizado. Isto não quer dizer que qualquer produto extrusado é superior a outros, nem que toda ração laminada é superior às peletizadas, mas sim o que determina a superioridade de um produto em relação ao outro são os componentes que constituem esta ração. 
O que mais importa na avaliação da qualidade de um produto são seus níveis de garantia, principalmente valores de qualidade de energia e proteína. A qualidade de sua energia também pode ser avaliada através do valor de seu extrato etéreo, que é o valor de gordura de uma ração, onde, se este valor for alto, a qualidade de sua energia deverá ser elevada. 
Existem rações peletizadas no mercado que podem possuir qualidade energética e protéica muito superior às laminadas e extrusadas. 
Além disso, caso seja necessário, posso complementar as necessidades de meu cavalo utilizando suplementos nutricionais, como por exemplo probióticos, óleos vegetais, vitamínicos, minerais, energéticos, protéicos, etc. Cada um deles tem sua especificidade e deve ser ofertado conforme a real necessidade do cavalo.  
Antes de procurar ofertar um suplemento nutricional ao cavalo devemos buscar equilibrar a dieta básica, pois na maioria dos casos, apenas o ajuste do volumoso correto, da ração correta com o sal mineral correto, supre plenamente as necessidades nutricionais do animal. 
Devemos estabelecer realmente quais as necessidades do cavalo para podermos suprir de forma adequada e obtermos os melhores resultados de desempenho e também na saúde do animal.  
A escolha da ração certa poderá fazer uma enorme diferença no resultado esperado em nossos animais. 
 
Cinco categorias básicas: 
 
Manutenção: Onde as necessidades básicas podem ser supridas simplesmente com volumoso, sal mineral especifico para equinos e água fresca e limpa. Porém, se formos alimentar nossos animais com feno, por exemplo, o custo tende a ser mais barato se suplementarmos com uma ração de manutenção, com cerca de 10 a 12% de proteína bruta e 2 a 3 % de extrato etéreo. As quantidades não devem ultrapassar 1% do peso vivo do animal, sendo suficiente, muitas vezes, 0,5 a 0,8%. Isto é, para um cavalo de 400 kg de peso, não ultrapassar 4 kg diárias, sendo suficiente 2 a 3 kg, sempre divididos em 2 a 3 refeições. 
 
Éguas em Reprodução: nesta fase, temos duas sub-fases: 
Início da Gestação – 1º ao 8º mês: necessidades semelhantes às de manutenção, onde uma ração com 10 a 12% de proteína bruta e 2 a 3 % de extrato etéreo podem ser suficientes. 
Terço Final de Gestação (8º ao 11º mês) e Lactação: Necessidades muito elevadas em relação ao início da gestação. A ração já deve ter cerca de 15% de proteína bruta com 3 a 5% de extrato etéreo. A quantidade já deve ser no mínimo 0,9% do peso vivo, podendo chegar a 1,2% no início da lactação. Isto, para uma égua de 500 kg de peso vivo, um mínimo de 4,5 kg de ração e um máximo de 6 kg diários, sempre divididos em 2 a 3 refeições. 
 
Potros em Crescimento: Dividido em 03 fases: 
Potro em Lactação: O potro começa a ingerir alimento sólido ainda ao pé da mãe, logo no primeiro mês de vida. Entretanto, ele se alimenta realmente só de leite até o 3º mês de idade. A partir desta fase, ele começa a se alimentar de volumoso e ração, aliado ao leite. Ainda ao pé da mãe, a alimentação sólida é apenas complementar ao leite, tendo pouco valor nutricional real, servindo basicamente para adaptar o potro ao alimento sólido que irá ingerir após o desmame. 
Desmame até os 18 meses de idade: Deve-se utilizar uma ração apropriada para potros, com 17 a 19% de proteína bruta e 3 a 5% de extrato etéreo, na proporção de 1% do peso vivo em ração, dividido em 2 refeições.  
Dos 18 aos 36 meses, deve-se oferecer uma ração com 15% de proteína bruta e 3 a 5% de extrato etéreo, mantendo-se a mesma proporção de 1% do peso vivo em ração, dividido em 2 refeições.  
 
Garanhões: Dividida em 2 fases: 
Garanhões em Manutenção: São as mesmas necessidades de um animal em manutenção, onde as necessidades básicas podem ser supridas simplesmente com volumoso, sal mineral e água. Caso ofereça uma ração, esta pode ser com 10 a 12% de proteína bruta e 2 a 3% de extrato etéreo. A quantidade não deve ultrapassar 1% do peso vivo do animal, sendo suficiente, muitas vezes, 0,5 a 0,8%. 

Garanhão em Monta
: Aqui as necessidades são bem superiores, especialmente no que diz respeito à energia da ração. Pode-se utilizar uma ração com 10 a 12% de proteína bruta e 3 a 6% de extrato etéreo. As quantidades variam de 0,7a 1,0 % do peso vivo em ração, dependendo da intensidade da monta. Isto é, para um garanhão de 500 kg, em monta leve, podem ser suficientes 3,5 kg de ração, podendo chegar a 5 kg em monta intensa. 
 
Cavalos de Esporte: Nesta categoria as necessidades são essencialmente energéticas. Proteína de qualidade, mas não em quantidade. A ração pode ter de 11 a 12% de proteína bruta e o extrato etéreo pode chegar a 10%. Quanto maior o extrato etéreo, menor deverá ser a quantidade de ração oferecida (maior energia por kg de produto). As quantidades variam conforme a qualidade da ração e a intensidade do trabalho, de leve e muito intenso. Podem ser de 0,6 a 1,0% do peso vivo em ração. 
 
 
Qualquer que seja a categoria do animal, não se deve ultrapassar a quantidade de 1 kg de ração por 100 kg de peso vivo do animal, sob risco de cólicas, sempre dividido em duas ou três refeições. Caso ainda seja necessário elevar a quantidade de quaisquer nutrientes, como energia ou proteína, existem duas opões: buscar uma ração mais adequada ou utilizar suplementos que, em uma pequena quantidade, possuem mais nutrientes que a ração suprindo assim as necessidades do animal sem risco de problemas de saúde. 
 
Algumas dicas fundamentais:  
 
Para cada categoria animal, necessidades diferentes, qualidade e quantidades diferentes de complementos. 
Não dê importância excessiva à quantidade de alimento, mas sim à sua qualidade. 
Adote o princípio: “Mínimo necessário, não máximo obrigatório”. 
Menores quantidades de alimentos por refeição têm aproveitamento mais eficiente. Evite ultrapassar a oferta de 2 kg de ração por refeição para um cavalo de 500 kg. 
Os excessos podem ser tão ou mais prejudiciais que as deficiências. 
Devemos sempre levar em consideração as variações individuais de cada animal, tais como raça, digestibilidade individual e temperamento. 
Toda alteração alimentar, de grãos ou concentrados, deve ser lenta e gradual, mínimo de três semanas. 
Mais de 95% das cólicas em cavalos são causadas por um mau manejo alimentar, que o homem impõe ao animal. 
O volumoso deve ser no mínimo, 50% da dieta do animal. Quanto maior o consumo energético do animal, maior a necessidade de se complementar com grãos ou óleos. 
Mantenha sempre água fresca e limpa e sal mineral específico à disposição, qualquer que seja a categoria animal. 

André Cintra

André Cintra

é Médico veterinário, professor da Faculdade de Jaguariúna (FAJ) e especialista em nutrição equina
e-mail: [email protected]

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