22-Set-2020 09:49 - Atualizado em 22/09/2020 11:30
Entrevista

Um pioneiro da veterinária equina

Marco Alegria Simões, fundador da MarcoLab, fala sobre o mercado equestre e os planos futuros para a Marconutra, empresa de nutrição e suplementação animal

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Horse

O cavalo faz parte da vida de muitos brasileiros. Para alguns, esse relacionamento começou lá no passado, quando seus descendentes tiveram o primeiro contato e o amor foi tão forte que o elo nunca pode ser quebrado. É assim que aconteceu com Marco Antonio Alegria Simões, ex-proprietário da empresa Marcolab. A mãe de Marco, Vera Alegria foi a primeira amazona a montar no Brasil e também a disputar um Stipo Chase (corrida com obstáculos) e se consagrou campeã Sulamericana. Seu irmão, Antonio Alegria, foi medalha de Ouro nos jogos panamericanos em Winnipeg.
Marcó, como é conhecido pelos amigos, seguiu sua vocação com o mundo hípico por outros caminhos. Aos 13 anos, descobriu seu viés de empresário e começou a fornecer troféus para a Sociedade Hípica Brasileira.
Trabalhou em diferentes áreas, até assumir a gerência de Exportação e Importação da Schering Plough, onde ficou por 20 anos. Saiu da empresa em 1982 para fundar a Marcolab, onde fez história lançando produtos famosos, como o Equipalazone e NGF-5.
Em 2012, junto com seu filho Bruno, fundou a Marconutra, empresa especializada em nutrição e suplementação animal. Logo no ano seguinte, vendeu a Marcolab para a Hertape Calier.
Nesta entrevista à Horse, Marcó fala da história de sua família com os cavalos, as experiências na área de produtos veterinários e a importância do legado que deixou para seu filho Bruno à frente da Marconutra, a mais nova investida dos Alegria Simões­ no segmento equestre nacional. Confira!

Como começou seu envolvimento com cavalos?
O meu envolvimento com os cavalos começou praticamente quando nasci, pois minha mãe já era campeã e meu irmão Antonio Alegria, cinco anos mais velho, já começava a montar e sagrar-se posteriormente como grande campeão. Assim, desde os 10 anos já perambulava pela Sociedade Hípica Brasileira, montando e ajudando o Necão, pai de Nelson Pessoa, Diretor de Saltos da SHB na época. Ele me colocou na vida profissional, me ensinou tudo, desde armação do percurso até me iniciar na vida profissional. Ele me pediu para fornecer os prêmios para os Concursos da SHB e também da Federação. Na época eu tinha apenas 13 anos e não sabia onde comprar nada. Ele me indicou a Casa Moreira Leite e em ensinou as artimanhas desse negócio. Depois disso, me tornei fornecedor da SHB, Federação e depois da CBH com o Paulo Borba. Posteriormente, passei a comprar diretamente da fábrica em São Paulo. Depois disso, quando tinha 16 anos, o falecido Dr. Henrique Vanorden, Presidente da Elevadores Atlas e Vice-Presidente da Hípica me convidou para trabalhar com ele na empresa como office boy. Rapidamente, subi de cargo e passei a trabalhar no cálculo de tráfego dos elevadores.

Quando começou a trabalhar com produtos hípicos?
Depois de cinco anos, resolvi sair e abri a primeira loja especializada em materiais hípicos para equinos de Salto e inaugurei O Pingalim, que ficava dentro da Hípica do Rio, onde ficamos por 29 anos, abrindo depois na Sociedade Hípica Paulista e também na de Brasília. Posteriormente recebi uma oferta de emprego do Raul Figueiredo e Paulo Kastrup para trabalhar na Schering, onde permaneci por 20 anos, como Gerente de Compras, Importação e Exportação. No entanto, aos finais de semana corria as Lojas do Pingalim, que na época eram cuidadas por minha mãe Vera (Rio), minha esposa Edileuza (São Paulo) e pelo Djalma e sua esposa (Brasília). Sendo assim, compramos um caminhão todo adaptado e viajávamos eu e minha esposa para os Concursos importantes. Me lembro uma vez que fui para São Paulo, quando ainda não tinha a loja e as vendas estavam fracas. Aí o Roberto Kalil reuniu o Gianni Samaya e o Arnaldo Diniz e compraram R$ 5 mil de produtos, cada um, para me ajudar a pagar as despesas. E assim sempre com a ajuda de vários amigos consegui vencer na vida profissional.

Qual a influência que sua mãe teve nesse processo?
A influência da minha mãe em toda a minha vida hípica e profissional foi fundamental, primeiro por ter sido a primeira amazona a montar no Brasil, com o apoio dos Militares que na época eram bem fortes no Centro Hípico do Exército, em São Cristóvão, onde hoje é o Maracanã. Ela foi campeã Sulamericana e também a primeira mulher a disputar um Stipo Chase (corrida com obstáculos), sendo ela pelo Fluminense e uma alemã pelo Flamengo, em um tradicional FLA X FLU, já naquela época (1940). Ela foi amiga pessoal de homens importantes como o Presidente Getúlio Vargas, Presidente General Figueiredo e do Doutor Roberto Marinho, que juntos montaram e fundaram a SHB. Portanto, além da minha educação tinha diariamente um aprendizado de vida, como uma vez que me deixei levar pela aparência de um comprador e caí do cavalo. Eu estava saindo para ir à praia e um pessoal mal vestido entrou na loja procurando por mim. Eu disse que não estava e pedi para minha mãe atender. O cliente comprou quase R$ 30 mil. Após dois meses, veio outro cliente, muito bem vestido, em um carro com motorista e eu me prontifiquei a atendê-lo prontamente. Ele comprou R$ 40 mil em produtos, tudo a preço de custo, mas acabei perdendo porque o cheque era roubado e as outras coisas também. Aí minha mãe me disse que era para aprender bem com aquela experiência e nunca mais repetir aquele erro, de julgar alguém pelas suas roupas. Ela era uma pessoa maravilhosa, sempre estimulando as crianças e uma excelente vendedora.

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Mãe e ídolo de Marco, Vera Alegria foi a primeira amazona brasileira e também se consagrou como campeã sulamericanaem 1953
O cavalo está na genética da família?
Sim. Minha mãe foi campeã, depois meu irmão Antonio Alegria também se sagrou Campeão Brasileiro Carioca e conquistou a Medalha de Ouro nos Jogos Panamerianos de Winnipeg e também temos a Lucia Faria, amazona Olímpica bem conhecida, hoje armadora de percursos. No entanto, eu e meu filho não herdamos essa parte da genética e decidimos trabalhar com o cavalo de outra forma.

Como começou a atuar na área de produtos veterinários?
Comecei na área de produtos veterinários em 1982, quando fundei a Marcolab, após toda a experiência adquirida na Schering. Tinha uma vontade danada de montar uma que nunca ninguém tinha ainda feito. Então resolvi montar um laboratório do cavalo, o que naquela época correspondia nem a 1% do mercado. Assim, comecei a viajar para a Europa e com a ajuda do meu terceiro pai, o Neco, pois o segundo foi o Necão, descobria o que era mais usado na época pelos melhores veterinários da Europa e eu trazia os produtos, melhorava as fórmulas e colocava no mercado, sem nenhum estudo de viabilidade, como os outros laboratórios faziam.

Qual foi o grande momento do mercado?
Foi quando Paulo Borba e Necão, presidentes da CBH e Federação Carioca, resolveram investir no treinamento de cavaleiros brasileiros no exterior. Com o Neco já instalado há vários anos, enviaram Antonio e após Reynoso, o nosso querido Alfinete para a Europa. Os títulos começaram a surgir, juntando-se aos excelentes cavaleiros daquela época como Antonio Carlos Carvalho, José Mario Guimarães, Hélio Pessoa, Gianni Pareto, Álvaro Toledo Geraldo Sá, Rabelo, Romero, Monzon, Eloi e muitos outros. Nessa época, o esporte deu um salto enorme para novas criações com haras fantásticos como o Joter, Pioneiro e muitos outros. A nutrição foi se aperfeiçoando, pois na época, o pessoal do Cavalo Crioulo e Mangalarga, além do Quarto de Milha, não gastavam muito dinheiro em medicamentos por acharem que as raças eram fortes e não precisavam deles, até que novos prêmios em dinheiro foram melhorando e os Concursos foram ficando profissionais e tudo aí foi melhorando.

Como vê a evolução do segmento no Brasil?
Vejo a evolução de todos os segmentos hípicos no Brasil como bastante forte no momento e em atual ascensão, como na Nacional do Quarto de Milha em Avaré e da Nacional do Mangalarga Marchador recentemente realizada em Belo Horizonte, além do Turfe que também corre com grande evolução, com grandes haras fantásticos e cavalos criados aqui, ganhando grandes prêmios importantes no exterior.

Por que resolveu vender a Marcolab?
Resolvi vender porque tenho 69 anos e acho que já fiz muito pela classe médica veterinária. Depois, tive uma boa oferta da Empresa Hertape Calier que adicionou a sua excelente linha de bovinos aos poucos produtos farmacêuticos de equinos, pois tinha as vacinas e agora conta com uma vasta Linha Equina.

O Equipalazone foi um marco na empresa?
Sim, pois quando saí da Schering só tinha o Banamine, que era muito caro na época e a Butazolidina humana que tínhamos que comprar oito ampolas para perfazer uma dose da Fenilbutazona indicada para Equinos. Após ter lançado o Equipalazone, várias coisas pitorescas aconteceram. Primeiro o Samaya, proprietário do Laboratório Farmasa humano, me disse que deveria me preparar para tirar o produto do mercado porque sua fabricação ia ser proibida. Foi uma ducha de água fria, mas mantive a calma, e os chineses e indianos começaram a fabricar Fenilbutazona de qualidade e assim continuávamos a vender cada vez mais. Quanto mais os concorrentes lançavam novos produtos, mais eu vendia o Equipalazone. Coloquei todas as fichas nele, desde bulas, cartucho, propagandas etc..., e daí por diante, ele tomou a dianteira, sendo seguido logo após pelo NGF-5.

Como compara o segmento equestre no Brasil com o resto do mundo?
Ainda muito abaixo do que pode ser feito para que melhore ainda mais. O trabalho tem que ser feito na base como é no futebol e na maioria dos esportes. O Cavalo aqui ainda é muito pouco valorizado ao contrário dos outros países como Alemanha, Holanda e muitos outros. Fico danado quando vejo o pouco espaço cedido pelos principais jornais do país que dão ênfase a notícias sempre de desgraças e não de esportes. Me lembro que tínhamos o Jornal dos Sports, que era totalmente voltado ao assunto, no Rio, e daí tirei a ideia de fazer o Laboratório do Cavalo com a Marcolab.

Quais suas expectativas para o futuro do segmento?
As expectativas com o futuro do segmento são ótimas. Hoje temos eventos maiores e mais profissionais e muitos congressos veterinários de alto nível como os da Abraveq e Horse Center, com palestrantes internacionais de gabarito. Penso que estamos no caminho certo e o que falta é mais apoio das autoridades governamentais.

A abertura da Marconutra é um renascimento da Marcolab?
A abertura da Marconutra é sim um pensamento de continuidade de meu trabalho, porém não para medicamentos e sim na suplementação e nutrição animal. A Marconutra possui uma linha de suplementos inédita no Brasil com diferencial de várias matérias-primas não conhecidas no Brasil e muito utilizadas nos Estados Unidos e Europa, a exemplo do Fast Horse, Multiflex, Orizanutri com gama orizanol em alta concentração de 50 gramas por quilo, totalmente inédita no Brasil, Tiamina Bl Liquida que acalma o animal e pode ser associado a COCCI B e Dimesol como protocolo de doenças de Protozoários. Tivemos também muito orgulho de relançar o produto mais antigo que é o Equipower-IV um suplemento de alto valor nutritivo, ajudando bastante na recuperação de equinos idosos, equinos de esportes intensos e animais em recuperação de estados pós-cirúrgico.

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Bruno e Marco: dom do pai e do filho foi direcionado para os negócios
Como vê o envolvimento de seu filho no mesmo segmento que o consagrou?
Felizmente tive a sorte de meu filho Bruno de Souza Alegria Simões poder dar continuidade ao meu trabalho na Marconutra e certamente ele fará jus ao meu nome tendo a mesma satisfação e orgulho em ter começado uma empresa nova em um mercado em ebulição e com uma vasta linha bem diferenciada.

Qual o conselho que costuma dar a seu filho?
Sempre dou uns conselhos no sentido de que esta geração é bastante inteligente com muita informação, porém tem que estar sempre em sintonia com o cliente, respondendo e-mail e tirando as dúvidas. A linha de suplementos é bastante concorrida e assim devemos participar dos eventos mais importantes, mídia nas revistas científicas e demais meios de comunicação.

Onde está o potencial de crescimento do mercado nos dias atuais?
Está em quem fizer uma política correta, trabalhando com honestidade em suas fórmulas, com resultados garantidos e um trabalho bem segmentado e compacto em todas as suas arestas com excelente qualidade de serviços, com dinamismo, não merecendo os preços serem os primordiais para o fechamento da compra ou receituário, independentemente dos outros serviços e produtos com resultados garantidos. (Entrevista publicada na edição 69 da Revista Horse)

Revista Horse
Marco Alegria Simões

Marco Alegria Simões

Fundador da Marconutra, empresa de nutrição e suplementação animal

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