20-Mai-2020 11:08
Horsemanship

Uma janela para o ZEN

Como as filosofias orientais ajudam a entender e melhorar a relação com os cavalos

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Horse

Meu interesse pelo Zen, Yoga, Tai Chi Chuan, Macrobiótica, Meditação, enfim, tudo que diz respeito às filosofias orientais vêm desde a minha adolescência. 

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Artigo publicado originalmente na edição 102 da Revista Horse
Desde o início da minha trajetória no cenário equestre, percebi que para praticar o Zen concretamente eu teria que trazê-lo para o meu dia a dia, mas ainda não sabia como.

Quando conheci o trabalho do Ray Hunt, e depois dos irmãos Tom e Bill Dorrance, percebi imediatamente que a maneira como eles abordavam o Horsemanship era a mesma dos mestres orientais, que eu vinha estudando, abordavam a vida.

Jesse Lair, escritora e estudiosa do Zen, gosta de afirmar que estar a cavalo é a sua recreação preferida. Depois de ter participado de várias clínicas do Ray Hunt, escreveu na segunda orelha do livro “Think Harmony with Horses”: “O Ray Hunt me proporcionou uma nova maneira de pensar a respeito de cavalos e da vida em si. Ele me ensinou apenas aquilo que eu queria aprender, isto é: como cavalo e cavaleiro podem se movimentar como se fossem uma só mente e um só corpo... As lições que ele me ensinou não se aplicam apenas aos cavalos, mas principalmente a nós humanos. Como no livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, o autor Eugene Herrigel percebe que o seu aprendizado na arte do tiro com o arco e flecha é o mesmo que aprender a viver a vida. Nos ensinamentos do Ray Hunt não é diferente”. 

De fato, como bem descreveu a autora, Ray Hunt fala coisas como: “assim que aprendemos a compreender o cavalo, é impressionante o quanto ele nos dá de volta”; “o cavalo sabe tudo que o sabemos, mas ele também sabe tudo que não sabemos”; “o que aconteceu antes de acontecer aquilo que aconteceu”; “faça as coisas erradas ficarem difíceis e as certas, fáceis. É isso que faz com que o cavalo aprenda a escolher fazer o que estamos pedindo”.

Esses conceitos me abriram uma janela enorme, um horizonte muito mais amplo, no que diz respeito a todo o trabalho que eu vinha tentando fazer comigo mesmo, praticando e estudando as Filosofias Orientais, mas ainda não tinha conseguido trazer os seus princípios para o meu dia a dia, na prática da Equitação e do Horsemanship.

Agora, a possibilidade do Zen fazer parte da minha vida ficou absolutamente concreta, porque a diferença mais marcante entre o Zen e as demais doutrinas de índole religiosa, filosófica e mística é que sem jamais sair da nossa vida cotidiana, com tudo que ela tem de concreto e prático, o Zen tem qualquer coisa que o mantem acima e além da banalidade do cotidiano. Era isso que me faltava entender.

Foi a partir dai que percebi, definitivamente, a real possibilidade de aumentar a minha capacidade de escuta e cada vez mais praticar um Horsemanship que faz sentido para o cavalo. Foi a partir dai, que ficou completamente claro que a integridade psicofísica do cavalo, a minha e dos meus alunos teria que ser o Centro do meu Programa.

O Zen é experiência, assim como Horsemanship.  E experiência não se ensina, aluga ou vende. Ela tem que ser vivida. Aí é que vem a parte mais difícil: desaprender, eliminar o raciocínio mecânico criado pelo ego e pela logica formal.
Outro obstáculo difícil e complexo: acreditar que o cavalo nunca está errado. No entanto, tudo que faz é porque acredita que precisa fazer. Quando ele não faz o que eu estou pedindo, preciso diferenciar o que é falta de colaboração da falta de compreensão ou confusão.

O desafio agora é de estar na sua pele, conseguir escuta-lo sem a interferência do Ego. É colocar em pratica a minha capacidade de perceber as janelas de oportunidades que ele me abre.

Quando estou iniciando potros, num primeiro momento, preciso ir com ele para onde ele quiser, para, em seguida, poder levá-lo do ponto A para o ponto B. Em uma terceira etapa, podermos estar juntos, isto é, nessa fase, ele consegue perceber as minhas sugestões mais sutis.

É a preocupação ou confusão que geram tensão no cavalo. Mas quando ela não está presente, ele não pesa nada. Nesse momento, ele sou eu e eu sou ele.

Muita gente pode achar que fazendo esse paralelo eu esteja desmerecendo o Zen. Pelo contrário. Faço isso porque percebo que aqui está presente o velho ditado espanhol: “Dos es Uno.” Isto é, nessa situação cavalo e cavaleiro deixam de ser entidades separadas e passam a ser uma única e mesma realidade.
Também fica claro que não se trata apenas de um domínio técnico. É necessário transcendê-lo, de tal maneira que não seja preciso mais pensar. Nesse momento, tudo vem do inconsciente. O cavaleiro não está mais consciente de seu EU como alguém que que quer vencer uma competição. Mas esse estado de não consciência só é possível alcançar se o cavaleiro estiver desprendido de si próprio, sem, contudo, desprezar a habilidade e o preparo técnico.

Não é mais uma questão de fazer o cavalo fazer, nem de deixá-lo fazer, mas sim de criar situações onde ele possa decidir por ele mesmo fazer. Dessa maneira, o resultado é completamente diferente daquele do esportista que acredita que, a partir de um estudo metódico e exaustivo, vai alcançar a sua meta.

Esse resultado pertence a uma ordem muito diferente da meramente esportista. Gosto de chamá-lo de INTUIÇÃO ESPECIAL, porque ela consegue captar simultaneamente a totalidade e a individualidade de todas as coisas. Ela está além dos limites do Ego.

Um dia escutei um mestre de Tai Chi Chuan dizer: “Eu treino, treino, treino, ...treino. No dia da apresentação, sento e me assisto”. Sem dúvida, nada melhor para nos observarmos...

Revista Horse
Eduardo Borba

Eduardo Borba

.Eduardo Borba é professor titular do Projeto Doma, em Capivari (SP), e colunista da Horse. E-mail: [email protected]. Site www.doma.com.br

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