27-Mai-2021 10:08 - Atualizado em 29/05/2021 12:24
Entrevista

Uma senhora CRIADORA

À frente da Coudelaria do Castanheiro há 25 anos, a médica Clélia Erwenne fala sobre os desafios da mulher no comando da criação e a paixão pelos cavalos Lusitanos

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A projeção das mulheres à frente dos negócios já não é nenhuma novidade. Na criação de cavalos não tem sido diferente. Um bom exemplo é o trabalho desenvolvido pela médica Clélia Maria Erwenne Araujo Pinto, 69 anos, há 25 anos à frente da Coudelaria do Castanheiro, atualmente uma das referências de cavalos Lusitanos no Brasil.
Médica Oftalmologista especialista em Câncer dos Olhos, formada pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo em 1974. Trabalhou no Hospital do Câncer da Fundação Antonio Prudente, foi professora Universitária do Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina e desenvolveu clínica particular até o final de 2015.
Doutora Clélia, como é conhecida no meio, também é a responsável em desenvolver o Centro Hípico Tatuí CHT), em um dos mais requisitados espaços equestres do interior de São Paulo. Com uma infraestrutura completa e com diversas opções, o local tem sido a referência para provas, exposições e eventos de diversas raças.
Nesta entrevista exclusiva à Horse, doutora Clélia fala sobre sua paixão pelos cavalos, atuação e experiência no mercado e os desafios da mulher no comando de um segmento predominantemente dominado por homens.

Como começou sua relação com os cavalos?
Em 1984, logo após conhecer meu marido, Aldo Araújo Pinto. Na ocasião, ele tinha uma pequena criação de Cavalos Margalarga, em sociedade com o amigo e dono da Selaria Teixeira, em Botucatu. Íamos até o criatório do senhor Teixeira, acompanhados pelo primo José Henrique Meirelles Castejón. Analisávamos os animais e fazíamos uma pequena resenha de identificação e de qualidades e defeitos.

Como nasceu o interesse por cavalos lusitanos?
No início dos anos 90, chamou a atenção o anúncio de alguns leilões de Cavalos Lusitanos, principalmente os denominados Top-Interagro. Aldo era de família oriunda de Portugal e se interessou em acompanhar esses leilões. Adquiriu o primeiro Puro Sangue Lusitano, chamado Granito do Top, que iria servir como garanhão tanto para éguas Mangalarga quanto para duas lusitanas também adquiridas. Viajávamos sempre a Portugal e iniciamos uma série de visitas a algumas coudelarias portuguesas. Daí por meio dos amigos Jayme Monjardim, no Brasil, e Vasco Freire, em Portugal, tivemos a indicação da compra, em Portugal, de um cavalo chamado Distinto, ferro Manoel Coimbra.

Foram seus primeiros garanhões?
Isso. O cavalo era de propriedade do engenheiro Calheiros. Ele foi nos apresentado pelo ginete João Lynce, hoje sucessor do criatório de Calheiros. Era realmente um cavalo encantador, tinha muita classe e beleza. Estávamos na última semana de 1992. O amigo Vasco Freire nos indicou, então, o cavaleiro Orlando para trabalhar o Distinto, com vistas à apresentá-lo na Exposição Internacional do Cavalo PSL que se realizaria em Lisboa, em junho de 1993. Foi quando, após belíssima apresentação, Distinto foi premiado como Campeão macho adulto e, a seguir, como Campeão dos Campeões dessa Exposição.

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Doutora Clélia, como é conhecida, 69 anos, é o braço forte da Coudelaria do Castanheiro e do Centro Hípico Tatuí
Foi assim que começou a Coudelaria Castanheiro?
Exatamente. Esse era todo estímulo que o Aldo precisava para dar ênfase à sua criação de Cavalos Lusitanos. Entusiasmado, trouxe, além do Distinto, algumas éguas portuguesas e, lá se vão 25 anos de criação. Nessa ocasião, tínhamos os cavalos hospedados num pequeno Manège aos cuidados de Lauro Parente Barbosa e sua esposa, a médica veterinária Eunice. O número de animais foi crescendo e começamos a procurar um local próprio. Visitamos vários, até que, em Tatuí encontramos um criatório de cavalos Árabes, denominado Haras Cristina, que estava à venda. Ao visitar esse local pela primeira vez, tive uma sensação muito agradável e disse ao Aldo: este você pode comprar. Ele respondeu: também gostei muito, mas, todos os bebedores estão emperrados... será que é muito custoso arrumar isto? Finalmente, tudo deu certo e lá se instalou, em 1995, a Coudelaria do Castanheiro. Passo a passo, o criatório foi sendo estruturado: cocheiras, pasto, tronco, farmácia, selaria, pistas, galpões para feno e ração, tratores etc. Finalmente, em 2012 o Picadeiro Coberto.

O que representa para a senhora comemorar 25 anos em atividade?
Como vê, por tudo que contei, a criação da Coudelaria do Castanheiro é a realização do sonho do Aldo Araújo Pinto, de seu apego pelos laços familiares com Portugal.

Por que Castanheiro?
O nome Castanheiro veio do nome Quinta do Castanheiro, propriedade da família Araujo Pinto, em Trás os Montes, Portugal.

Como foi sua participação em todo esse processo?
Sempre fui coadjuvante nessa criação, porém, o destino me levou à necessidade de tomar as rédeas. Um acidente vascular cerebral e outras intercorrências de saúde, deixaram o Aldo bastante comprometido em suas habilidades físicas desde o final de 2001, impossibilitando-o de dirigir e coordenar as ações. Entretanto, era sua paixão e essa iminência me fez assumir os trabalhos da Coudelaria. Fui aprendendo aos poucos, muitos erros, mas, nos últimos anos, com a inestimável colaboração do doutor Orpheu Ávila Jr., veterinário experiente e muito conhecedor da raça, evoluímos muito.

E o Centro Hípico Tatuí? Como surgiu e como está estruturado hoje?
Paralelamente à coudelaria, desenvolvemos, numa propriedade vizinha ao haras, um centro hípico, o Centro Hípico de Tatuí. É um espaço público, instalado para atender a exposições equestres, festas, casamentos etc. Suas instalações básicas são locadas à Hípica Centaurus, do Veterinário Gustavo Sevilha Lopes, que mantém uma escola de equitação, equoterapia, equipes de Horse Ball, estadia de cavalos etc. As instalações para eventos são gerenciadas pela Cristina Granato. Essa parceria entre o trabalho diário do Gustavo e a locação para eventos pela Cristina tem trazido resultados na agenda do Centro Hípico com um número crescente de eventos. Nossa intenção é oferecer um bom serviço, criar sempre um ambiente agradável e confortável e, reforçar o uso do cavalo e essa paixão entre os moradores de Tatuí. Recentemente, a Secretaria de Cultura e Turismo nos elevou a ponto turístico da cidade. Nosso desejo é somar.

Em algum momento sentiu diferença pelo fato de ser mulher?
O Aldo faleceu em 2015 e agora, tudo depende de mim, ou vamos... ou vamos. Nunca senti nenhuma restrição por ser mulher ou por não ser uma amazona de formação. Vamos fazendo o possível, buscando sempre orientações competentes, mantendo uma observação severa quanto ao trabalho, disciplina e harmonia dentro do Haras e desenvolvendo um olho clínico na avaliação dos produtos para destinar, cada um, à função mais adequada no esporte, passeio ou reprodução.

Criar cavalos é sempre um negócio ou paixão?
Costumo dizer que esta atividade, para mim, não é um negócio, é uma ação social, ou seja, alguns colaboram com instituições filantrópicas, hospitais etc. Eu dou emprego, ou seja, mantenho uma criação e um centro de preparação de cavalos com uma equipe adequada, completamente dentro da lei, com empregos formais, moradia e tranquilidade. Alguns de meus funcionários iniciaram como limpadores de cocheiras e hoje montam, ensinam crianças a montar, constituíram suas famílias bem compostas, apoiados pela Coudelaria do Castanheiro. Além disso, a criação movimenta o mercado de rações, medicamentos, implementos, consome produtos diretamente fornecidos por pequenos produtores rurais, como o feno etc. Ou seja, faz a roda girar. Sinto-me bem por isto.

Qual a modalidade que o Lusitano melhor se adapta?
São várias as modalidades esportivas às quais o Lusitano se adapta. O importante é a base que se dá ao cavalo e também ao cavaleiro, aliás, isto vale para qualquer raça e para qualquer aprendiz de cavaleiro. Não se pode colocar uma criança para saltar sem que ela tenha aprendido primeiramente, a montar com técnica. Sabemos que a seleção do Lusitano foi primordialmente o toureio, principalmente os cavalos da criação de Manuel Veiga em Portugal. O toureio mostra tudo que o cavalo Lusitano é capaz. É lá que se vê a resposta imediata aos pedidos do cavaleiro, a altivez e coragem do cavalo lusitano, seus movimentos de provocação ao touro, seus movimentos laterais, a condução do cavalo pelo toureiro usando somente uma das mãos e a vibração e a tensão da situação erro e acerto a cada movimento inesperado dessa luta com o touro, frente a um público caloroso com muita música.

O forte do cavalo lusitano, então, é a funcionalidade?
A raça Lusitana tem esse potencial de funcionalidade, o que permite preparar o cavalo Lusitano para muitas modalidades esportivas tais como Equitação de Trabalho, Atrelagem, Rédeas, Vaquejada, Adestramento clássico e até Salto, ressaltando-se que o Cavalo Lusitano não tem, pelo seu porte físico uma extrema habilidade para esse esporte. Salta até 1,20m, máximo 1,30, porém, pela sua interação e docilidade é o cavalo ideal para uma criança em início de escola para o salto. Não posso deixar de assinalar aqui o Adestramento artístico, modalidade em que o Lusitano, pela sua inteligência e capacidade de sincronia em grupo tornou-se expoente no mundo, haja visto os espetáculos do Lorenzo e outros shows de muita visibilidade. Nos Estados Unidos, o cavalo Lusitano é, por assim dizer, o pet dos aposentados. Nada mais lindo que um cavalo forte, que pode ser montado por pessoas mais idosas, geralmente com maior peso corpóreo, crinudo, lindo, e que leva a seu usuário o prazer de aprender a montar bem, um cavalo que evolui com seu cavaleiro, enfim, forma um verdadeiro conjunto.

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Doutora Clélia: “Sempre fui coadjuvante nessa criação, porém, o destino me levou à necessidade de tomar as rédeas”
O Brasil tem investido muito na introdução do Lusitano no Adestramento. Esse é o caminho?
Essa seleção começou há pouco mais de 15 anos, tanto no Brasil como em Portugal. Foi necessário que os animais ganhassem altura e maior amplitude dos movimentos básicos, passo, trote e galope. São movimentos exatamente antagônicos aos selecionados para o animal de toureio, porém a genética estava lá, e o cruzamento adequado, pela seleção de morfologia e de andamentos fez com que, em curto espaço de tempo, a altura de cernelha do Lusitano chegasse na casa do 1,75 m; esta, aliada à capacidade de aprendizado e à concentração do cavalo lusitano no trabalho, já refletem o sucesso que vários deles têm conquistado em competições de elite na Europa e Estados Unidos; podemos citar aqui o Rubi, a Batuta, o Escorial, o Xiripiti etc. A seleção de cavalos para o Adestramento Clássico tenta dar maior valor agregado ao animal, porém envolve mais custos. Você não está criando um animal apenas; você está tentando produzir um atleta, de uma modalidade olímpica. Se você conseguir, aí tem que rezar para que ele seja montado pelo cavaleiro adequado e saia daí um conjunto de sucesso nesse esporte.

Qual sua expectativa para 2017?
Não acredito que o ano de 2017 seja muito satisfatório aos criadores de cavalo em geral. É claro que o panorama econômico atual com os aspectos de recessão, não permite imaginar o cavalo como produto de primeira necessidade. Mas, sempre sobra a paixão e o lazer e, quem sabe, a venda de alguns produtos diferenciados para o público do esporte. Deve dar para manter a nossa criação e espero que a de muitos outros criadores de lusitano. Só a união faz a força. É preciso que os compradores estrangeiros vejam que podem vir escolher o que precisam, com uma visita aos criatórios brasileiros.

Qual o conselho que daria para quem quer começar uma criação?
Não posso dar conselhos a quem queira começar, mas, generalizando, diria: planejamento consciente é fundamental e, para isso, é necessário estudar o assunto de perto, depois, siga sua intuição e faça o melhor que puder. (Entrevista publicada na edição 95 da Revista Horse)

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Clélia Maria Erwenne Araujo Pinto

Clélia Maria Erwenne Araujo Pinto

Médica, proprietária da Coudelaria do Castanheiro, atualmente uma das referências de cavalos Lusitanos no Brasil.

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