11-Fev-2020 16:05 - Atualizado em 11/02/2020 16:20
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Voando pelos tambores: a genética do futuro

Estudos e pesquisas apontam como usar a ciência no aprimoramento das performances dos animais

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O cavalo Quarto de milha é mundialmente conhecido pela sua versatilidade. Tantas qualidades resultaram em crescimento expansivo de mercado gerando empregos, movimentando grandes somas de dinheiro pelo país, entre leilões, competições, mercado de rações, medicamentos e afins.

Desde sua formação, a raça tem sido melhorada para diversas modalidades equestres. Dentre elas, a competição de Três Tambores tem buscado animais com equilíbrio e velocidade. De forma um tanto empírica, a seleção e o melhoramento dos animais se baseou em muitas das vezes apenas pelas características expressadas pelo animal, que chamamos de características fenotípicas. Que seriam, por exemplo: "Se o meu cavalo é bom no boi, o filho dele também será"; "Se o meu cavalo corre na casa dos 17 segundos baixos, a filha dele também vai!"...

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As coisas, entretanto,  não são assim tão simples! Para obter o melhoramento de rebanhos ou linhagens, para que esses sejam consolidados, depende de uma série de fatores. Dentre eles, muitos influenciam no desempenho e são chamados fatores ambientais, tais como: o local de criação, treinamento, alimentação, idade, sexo, local de prova dos animais, frequência de competição, etc. Uma vez minimizando os efeitos dos fatores ambientais, então pode-se observar com mais clareza os fatores de origem genética. Esse, por sua vez, são os nossos fatores de interesse, afinal serão transmitidos para as gerações futuras. 

O caro leitor deve estar se perguntando: “Como eu posso fazer a escolha certa entre os meus animais?”. Além do desempenho individual do animal, devemos reparar também em seus ascendentes e colaterais (irmãos, primos etc.), fazendo uma minuciosa avaliação de sua genealogia e buscando medidas produtivas de interesse, como, por exemplo, o Índice de Velocidade, e não apenas pedigree.      

As características de interesse podem ser qualitativas, controlados por poucos genes e que se refere à uma qualidade não mensurável, como por exemplo, a cor da pelagem. Ou de caráter quantitativo, controlados por múltiplos genes, e que são características mensuráveis e ligadas a fatores produtivos como as proporções corporais, o tempo de prova etc. Esses caracteres podem ser afetados por três tipos de ações genicas: ação gênica aditiva, onde o efeito de cada gene se adiciona aos demais; ação gênica dominante, onde os alelos dominantes controlam a expressão da característica; e, por fim, a ação gênica epistática, quando há interação de genes de locais diferentes em cromossomos.
Uma forma de explicar tais mecanismos é tomando como exemplo as pelagens de nossos cavalos. A cor preta é controlada por um alelo dominante (B) e a castanha por um alelo recessivo (b). Dessa forma, animais com alelos BB e Bb adquirem a cor preta, enquanto animais bb são castanhos. Entretanto, outros dois locus (W e A) também interferem na expressão das cores. O alelo W, por sua vez, domina o alelo B, conferindo a pelagem branca. WW resulta em um animal geneticamente inviável, resultando na morte do embrião e ww não interfere na pelagem. O locus A age de forma epistática, onde wwAB dá origem à pelagem baia e wwAbbà pelagem alazã.

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Sendo assim, alguns critérios podem ser utilizados como índice de avaliação,para definir o sucesso ou descarte de animais em competições de tambor. São eles: o tempo de prova, classificação final, premiação em dinheiro por corrida, número de corridas, idade à primeira prova, conformação morfológica, agilidade e desempenho no trabalho. O tempo de prova é extremamente importante para definir o campeão de uma prova de tambor e é também uma característica perfeitamente mensurável e transmitida de geração para geração, como podemos ver nos filhos e filhas de grandes nomes da velocidade como Victory Fly, Apolo VM, SignedTo Fly, Dash TaFame, entre outros. Entretanto, essas medidas de interesse podem ser mascaradas ou suprimidas por um treinamento ruim, uma nutrição ineficiente, ou qualquer outro fator ambiental.

Busca de resultados

Ok, já definimos algumas das razões que influenciam a genética de nossos animais. Agora devemos entender por onde precisamos começar a procurar nossos resultados. Ou seja, de que formas podemos avaliar uma população com tantas informações disponíveis? Uma pesquisa realizada na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Com o intuito de estimar a herdabilidade da característica de precocidade de desempenho em cavalos da raça Quarto de milha, destinados a provas de Três Tambores, apontou para a possibilidade de ganhos genéticos. Para tal, foram utilizados 2083 tempos de 248 animais, dentre eles 95 machos e 153 fêmeas, todos registrados na Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM). Todos deram início à vida competitiva durante a temporada de 2015/2016, com idade média de 2,7 anos. Destes, foram coletados dados como tempo de prova, idade na primeira prova, ligações de parentesco, local da prova, número de provas, e o competidor. A variância desses dados nos levou a encontrar um coeficiente de extrema importância no melhoramento genético, a herdabilidade.
A herdabilidade é a correlação entre o fenótipo e o genótipo, a proporção das diferenças herdáveis da variabilidade total, que pode ser de baixa (<0,20), média (entre 0,20 a 0,60) a alta (>0,60). Isso implica que quanto maior o valor, maior a precisão da seleção pelo fenótipo. Características de desempenho em provas são de baixa a média herdabilidade, não sendo aconselhável a seleção de animais baseando-se apenas no fenótipo. Dessa forma, a seleção de animais campões continuaria sendo uma loteria.

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Qual a característica que buscamos num animal competidor de três tambores? Além de ser ágil e inteligente, deve fazer uma das muitas coisas que o Quarto de Milha faz de melhor: correr. E como ensinamos aos nossos animais como eles devem correr? Correndo, é claro. Nossos resultados mostraram redução de até 0,06 segundos no tempo por prova percorrida, indicando que quanto mais provas os animais jovens correm, mais experientes ficam. A média de tempo observada entre os animais foi de 19,14 segundos, com variação de 17,44 a 22,30 para machos e 17,49 a 23,24 para fêmeas. Houve diferença entre os sexos, sendo as fêmeas 0,07 segundos mais lentos em comparação aos machos.
São muitas as variações no tempo de animais jovens, afinal ainda são extremamente influenciados pelos fatores ambientais. Fica, entretanto, uma questão: e se houvesse uma maneira de prever quais dos nossos potros têm possibilidade de possuir uma capacidade de desempenho precoce? Você deve estar se perguntando:"Tem como?" A resposta é sim! Em alguns países já se utiliza a seleção de animais da raça Puro Sangue Inglês através da precocidade de desempenho em corridas. A seleção de pais precoces garante alterações no tempo inicial de seus produtos. Pequenas, mas significantes, afinal, décimos de segundo são essenciais dentro de uma corrida e podem as definir.   

Isso é possível considerando a alta variação de resultados obtidos por animais jovens e utilizando o tempo médio em um ano de provas. Mesmo estando falando de animais jovens com pouca experiência, o foco dessa avaliação foi encontrar fatores genéticos e o quanto influenciam na produção de um cavalo de Tambor para termos maiores chances contra o cronometro nas próximas gerações. Pesquisas iniciais apontam que é possível, mesmo que animais jovens ainda sejam muito dependentes do treinador, uma probabilidade de ganhos genéticos com a seleção de animais para um menor tempo médio anual. A herdabilidade estimada foi de 0,261, significando que aproximadamente 26% deriva de ordem genética, o que indica variabilidade genética suficiente para promover ganhos genéticos, desde que a seleção seja realizada utilizando os valores preditos para a característica. Estamos falando de probabilidades! Não devemos esquecer de avaliar os parentes do animal! É claro, muito ainda deve ser estudado, mas como podemos observar, a união com a genética é uma das principais chaves para as muitas portas antes do sucesso, um futuro cheio de possibilidades nos aguarda onde o cronometro continua sendo nosso maior adversário.

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Maria Stefany de Brito Massucato, zootecnista formada pela Universidade Estadual de Maringá  (UEM); Carlos Antonio Lopes de Oliveira, professor de Melhoramento Genético do curso de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e  Leonir Bueno Ribeiro, professor de Equideocultura do curso de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá. E-mail: [email protected]

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